[[legacy_image_314632]] Bruna Cavalcanti. Egressa de escola pública, chegou a uma universidade federal para cursar análise e desenvolvimento de sistemas com uma das melhores pontuações e embarcou no MBA na USP em inteligência artificial e big data. Ao obter 100% de bolsa de estudo, foi uma das 14 contempladas entre 140 estudantes. Desde pequena, Bruna se destaca em sala de aula pela dedicação aos estudos e hoje é também uma das profissionais mais desejadas por empresas multinacionais. Com apenas 26 anos, ela já trabalhou para três delas. Neste ano, a jovem santista recebeu uma certificação Internacional em Seattle, nos Estados Unidos, e tornou-se a primeira mulher e profissional da América Latina a conquistar um título que permite que ela esteja num seleto grupo onde há 122 pessoas em todo o mundo. Isso a transformou numa referência mundial na criação de robôs virtuais e uma inspiração para tantos outros jovens. Quando você era pequenininha, você sempre foi muito dedicada nos estudos e sempre tirava nota 10. De onde veio esse foco nos estudos? Eu converso muito com meus pais sobre isso, porque eu sou uma criança assim desde sempre. Eu nunca fui muito cobrada nesse sentido dos meus pais, nunca tive uma cobrança muito exacerbada, mas sempre foi uma criança que me cobrei muito, mas era natural, vindo de mim e eu gostava muito da escola, era um ambiente que me fazia muito bem. Eu gostava dos professores, dos colegas, das matérias que eu estudava e era uma coisa minha, era natural. Sempre fui muito incentivada e não cobrada. Isso fez a diferença. Eu percebia que as minhas notas, o meu desempenho na escola me trazia uma certa visibilidade, um certo destaque. Eu comecei a gostar dessa experiência. Aí eu comecei a ganhar medalhas de melhor aluno da escola por conta disso, a gente tinha premiações onde toda a escola ia para o pátio e a diretora dava as medalhas para os melhores alunos que se destacavam e eu sempre estava ali, por anos consecutivos. Eu cheguei a ganhar cinco medalhas em nove anos de ensino fundamental em uma escola municipal de Santos. O Enem é fundamental para quem quer ingressar numa universidade e não tem condições de pagar. Você é o melhor exemplo, né? O que o Enem significou para você? O Enem mudou a minha vida. Foi a prova que, literalmente, me inseriu no mercado de tecnologia, o mercado acadêmico, que já é uma porta de entrada de forma indireta. Eu comecei a minha faculdade graças a isso, numa federal, numa época que eu não podia pagar. A minha família não conseguia nem me ajudar com isso, uma época de vulnerabilidade financeira muito grande. Então a minha única opção era ir para federal. Ou eu não pagava pela faculdade, ou eu não estudava naquele momento. Era essa a minha realidade, não tinha outra opção. O Enem foi o que me ajudou nesse processo. Eu estudei, passei, e Graças a Deus tive minha vaga na federal de Cubatão. Fiz minha graduação em análise e desenvolvimento dos sistemas e aí tudo começou. Desde então eu tenho estudado, me aperfeiçoado e trabalhado na área. Tudo isso aí faz diferença na bagagem, no currículo. Como a faculdade te ajudou? A graduação ajuda muito. Ainda hoje, mesmo estando com a tecnologia muito avançada, as empresas não olhando tanto para questão da graduação, mas ela ainda tem peso. A gente vê muitas pessoas no mercado de tecnologia que não têm graduação. Mas, a gente percebe que a formação tem peso sim no currículo e quando você vai se candidatar para uma vaga de júnior ou de trainee em uma empresa em uma multinacional, por exemplo, eles olham para isso. A faculdade serve para facilitar nossa entrada no mercado de tecnologia, porque tem a questão do estágio. Você precisa ter graduação para conseguir ter o seu primeiro estágio. Além de tudo isso, tem a questão do aprendizado. A gente passa por muitas coisas na faculdade, vê muitas disciplinas para formar nossa bagagem técnica, mas tem o networking, este contato com outros colegas, com os professores, pessoas de nome na área. Queria que você falasse sobre o prêmio que você conquistou esse ano, que é o MVP, que é de profissional mais valioso. O que é que significa isso? O título de MVP é um título conhecido na área de tecnologia que significa Most Valiable Professional ou Profissional Mais Valioso em português. Grandes empresas de tecnologia como a Microsoft, por exemplo, dão título de MVP para diversos profissionais. E a OPF é uma dessas empresas de tecnologias que provê esse título, que nada mais é do que um indicativo que aquele profissional é um destaque na área dele, isso é muito legal. É um profissional que geralmente tem duas coisas, que é o conhecimento técnico, e além disso, ele também contribui de forma relevante com a comunidade, ou seja, compartilhando conhecimento, ajudando a área a evoluir, progredir no mercado de tecnologia, o que é muito importante. O mercado de tecnologia é um mercado muito complexo, né? Muito assunto, muita novidade, a gente tem que se aperfeiçoar o tempo inteiro. Como foi para você receber esse título e ser a primeira mulher a ser influenciada por isso? É motivo de orgulho gigante. Quando eu fui me candidatar no processo seletivo dos MVPs, eu já sabia que essa é a primeira mulher, mas brasileira, não sabia que ia ser da América Latina. Descobri isso depois, inclusive, foi um susto. Eu me candidatei e sabia que essa mulher brasileira e isso me despertou um empenho maior, uma vontade maior de conseguir, e foi aí que eu comecei a mexer os pauzinhos para que isso se tornasse realidade. Eu já tinha bagagem técnica, já vinha contribuindo com a comunidade de forma relevante, só que faltavam algumas coisas ainda ali, que era o inglês, por exemplo. Em um processo Internacional, você precisa se comunicar em inglês. Meu nível de inglês hoje é bem intermediário, não sou uma pessoa fluente. Essa era uma dificuldade que eu ia passar e era uma das minhas principais preocupações, porque a gente tem entrevistas diretamente com o pessoal de lá, então você precisa do inglês, não tem jeito. Foi aí que eu decidi investir em algo com um retorno rápido, e a forma que eu encontrei foi o intercâmbio para a Inglaterra. Comecei a contratar algumas escolas e achei uma que me agradou bastante. Aí eu decidi que ia fechar o pacote com ela e investi o dinheiro do meu próprio bolso, já vinha juntando o dinheiro algum tempinho, não para esse fim, mas acabou se tornando também. Eu fiquei um mês na Inglaterra, estudando inglês durante um curso intensivo. Eu ficava o dia inteiro na escola, eu nem saía para passear nada, era bem difícil, só no final de semana, aí eu treinei bastante. Comecei a perder um pouquinho do medo do idioma, sempre fui bem insegura com isso, então eu fugia bastante. O intercâmbio me serviu para me dar uma segurança para enfrentar as entrevistas do processo seletivo e deu certo. E como foi a noite do da premiação? Foi uma loucura. Eu passei perrengue no aeroporto, perdi o voo, eu quase não cheguei no dia da cerimônia de premiação, então foi uma situação bem difícil. Cheguei em cima da hora. A cerimônia começava 2h da tarde, eu cheguei às 3h, e 3h15 chamaram meu nome e recebi o meu título. Na verdade, não é uma cerimônia aberta com público, palco, aquela coisa toda que a gente imagina. Era uma cerimônia fechada, só mesmo com profissionais e executivos. É um evento fechado onde rola também muitos assuntos confidenciais. Além da cerimônia, onde a gente ganha o troféu, o certificado, a gente tem um evento de três dias, com muitas palestras, muitos conteúdos do que está acontecendo na área, com os temas mais novos e a gente aprendeu muita coisa legal. O que você acha que te influenciou a conquistar o título? É uma série de fatores. Além da bagagem que eu vinha adquirindo, eu tenho um sonho, que eu acho que eu já falei algumas vezes, que é o de ser professora. Então eu acho que o título de MVP vai totalmente de encontro com o objetivo de vida, com aquilo que eu gosto de fazer, que é compartilhar conhecimento. Eu não gosto de ter aquilo só para mim. Eu sabia que um artifício, uma coisa boa para mim lá para o futuro. Quando eu tiver vontade de entrar no mundo acadêmico efetivamente, eu sinto que isso pode me ajudar muito. Você palestrar, fazer conteúdo, trazer workshop, isso tudo ajuda no ambiente acadêmico, para um mestrado que eu tenho vontade de fazer em inteligência artificial. Também tem a questão do incentivo. Eu sou muito incentivada pela minha família, pelos meus colegas, meu namorado. É fundamental. Quais mudanças profissionais o prémio trouxe para você? Você também recebeu convites, inclusive para trabalhar em outras empresas fora do país, uma delas de Portugal. Como foi essa mudança? Não estou procurando emprego de forma ativa. Eu estou muito feliz na empresa que eu estou hoje, estou evoluindo muito tecnicamente, mas às vezes a gente recebe alguns convites. Um deles foi o de Portugal, mas como eles queriam que eu me mudasse, e minha intenção agora não é sair do país, eu acabei recusando. Eu recebo muita proposta para participar de como jurado de Hackathon, de competições do pessoal da nossa área, de palestras, workshops em universidades públicas, universidades privadas, escolas técnicas na região. Isso está sendo bem legal para minha jornada. O que uma pessoa precisa fazer na área de tecnologia e robótica para chegar tão longe quanto você? A dica que eu dou, primeiramente, a questão do estudo formal, como eu já citei aqui. Acho que a graduação é essencial. Quem quer entrar na área de tecnologia, procura uma faculdade. Vai ajudar bastante. Não é uma coisa que se você não entra na faculdade, você não consegue emprego na área. Não é isso, mas vai ser um facilitador de entrada na área de tecnologia. Se aperfeiçoar com os cursos extras, a gente sempre tem que se dedicar um pouquinho a mais, ampliar o conhecimento, ser bastante autodidata, aquela pessoa que vai atrás do conhecimento, mesmo quando não é solicitado. Eu costumo dizer que o estudo não é a única coisa importante, o estudo é só a parte das coisas importantes. Eu acho que o que importa muito também é o networking. Você ter contato com pessoas chave, que podem te ajudar de alguma forma, que você pode ajudar de uma forma. Esse networking ajuda muito e ajudou muito minha carreira. A primeira palestra que eu fiz, foi uma indicação de uma pessoa que lembrou de mim, da época da faculdade. É essencial a gente trabalhar a questão do estudo e do networking, além das questões comportamentais. Tudo isso ajuda muito para te deixar um profissional diferente. [[legacy_image_314633]] Muita gente não faz ideia do que é um robô virtual? Como ocorre a criação? A gente chama isso de automação de processos. Eles tiram tarefas repetitivas das pessoas no trabalho. Colocamos robôs automações para executarem essas tarefas. Um exemplo, então, uma pessoa todo dia entra no e-mail dela, recebe uma planilha, precisa cadastrar todos aqueles funcionários num determinado sistema IRP, item por item. Ali ela vai cadastrar nome, cargo, um monte de informação e ela faz isso todo santo dia. Então, por que não o robô fazer isso por ela? É mais ágil, muito mais rápido e evita a questão de erros humanos também. A pessoa acaba sendo liberada para fazer tarefas que agregue mais valor para a empresa. Os robôs que a gente constrói, são robôs virtuais, eles são voltados para o mundo empresarial, para o mundo de negócios, empresas, tem questão processual em várias áreas de atuação, como recursos humanos, setor jurídico, compras, financeiro. É aí que os robôs entram. A gente conhece eles como bots. Muitas vezes a gente consegue também emular o comportamento humano na máquina, que é o ato da pessoa digitar alguma informação na tela, fazer um clique na tela, arrastar algum componente, abrir um sistema, fechar um sistema, ler e-mail, um robô faz isso. Além de tudo isso, tem a questão de interação com API, banco de dados, enfim, é o poder processual e poder ferramental que a gente tem e é gigante. Como é que está essa área da tecnologia? A área de RPA começou com uma ideia de envolver ferramentas low code no meio de automação de processos. E quando a gente fala de ferramentas low code, a gente fala de ferramentas que facilitam o processo de desenvolvimento do software, o processo de desenvolvimento de automação, de aplicativos. Essas ferramentas trazem um paradigma de desenvolvimento, pois envolve pouco código, então a gente “coda”, mas num nível de intensidade menor, porque ela traz componentes já pré-criados, pré-montados, configuráveis, a gente arrasta e solta, com telas bem amigáveis para o usuário trabalhar. Isso acaba otimizando o nosso tempo de desenvolvimento. Essa é a ideia do low cod, fazer com que a gente faça coisas muito rápido. Essa é a explicação do termo, é usar pouco código para desenvolver softwares e fazer isso de forma rápida, pois tempo é dinheiro, a gente sabe disso hoje em dia. Isso é uma tendência que veio para ficar, o mercado de tecnologia está caminhando para isso. Costumam dizer que o futuro do código é sem código na área de tecnologia, inclusive por conta disso, a área de RP começou com essa ideia de envolver ferramentas low cod para poder desenvolver automações num estalo de dedos, fazer com que o usuário que trabalha com o processo, ele mesmo faça automação dele. Mas, a gente viu, com o passar do tempo, que essa não foi realidade. Quem desenvolve as automações são desenvolvedores, não são as pessoas que trabalham ali com os processos delas. Hoje a área está flexível, então a gente tem, por exemplo, bots sendo construídos com Python. O termo tem se mesclado bastante, e o futuro dessa área já está acontecendo também. Agora a gente está mesclando bastante o RPA com inteligência artificial. Como você enxerga o futuro na área da tecnologia? Eu acho que o nível de vagas de desenvolvedor que a gente tem hoje, por exemplo, acho que no futuro vai ser um pouco amenizada, digamos assim. A gente vai ter uma redução dessas vagas de desenvolvedor, porque a Inteligência Artificial tem ajudado muito a gente nessa parte também. Hoje a gente sabe, por exemplo, o chat GPT, que é super falado, a gente consegue gerar código com ele. Eu já construí automação assim. Já fiz uma automação que 40% do meu bot não fui eu que fiz, foi o chat GPT. Eu pedi para ele o código, ele me gerou, eu fiz adaptações para o meu código, fiz algumas pequenas correções e funcionou. Eu acredito que o futuro da tecnologia, para o ambiente de desenvolvimento do software, vai mudar por conta disso. Você acha que algumas profissões podem ser substituídas pela automação ou pelos robôs virtuais? Com certeza. À medida que a tecnologia vai avançando, como todos esses termos, a inteligência artificial e tudo mais, eu acho que isso é uma tendência, mas ao mesmo tempo a gente vai ter profissões que vão surgir, assim como sempre. Eu acho que o interessante hoje é a gente sempre está por dentro. A gente não precisa estudar inteligência artificial, machine learning de plano no detalhe, não precisa disso. A gente precisa saber pelo menos o que do que é que se trata, o que é que faz? Como usar? Como funciona? Uma ideia meio generalista, porque há várias vertentes. O mundo da tecnologia é um guarda-chuva gigante, a área que eu trabalho, que é de RPA, é um “nichozinho” da área de tecnologia, mas a gente tem muitos outros. Inclusive, para quem quer entrar na área, isso é uma baita de uma oportunidade. E como é que você se vê daqui a alguns anos? Em tão pouco tempo você já conquistou tanta coisa, é uma profissional bem colocada. Qual é o teu maior sonho? No futuro breve, eu me enxergo trabalhando, continuando a minha trajetória no mercado de tecnologia e, além disso, lecionando muito provavelmente numa instituição de ensino como uma faculdade. Então eu pretendo levar as duas coisas, é o que eu gosto de fazer. No fim das contas, o que me faz feliz é estar com pessoas, estar ajudando pessoas, compartilhando conhecimento, e não construir os robôs em si. Eu acho que meu futuro é mesclar o mundo acadêmico e o mundo profissional. Pra encerrar, eu queria que você desse um recado para o jovem hoje. O que mudou a minha vida, no fim das contas, se a gente poder fazer um resumo de tudo o que aconteceu, foram os estudos. Ter estudado, ter me aperfeiçoado, ter corrido atrás das minhas coisas, realmente fez diferença. Então eu acho que a gente sempre tem que olhar para os estudos com carinho, pois faz a diferença na nossa vida. Além de tudo isso, sempre busquei ideias alternativas, sempre fui uma pessoa muito entusiasmada, sempre fui muito ativa nas coisas. Até mesmo trabalhando em uma empresa, fazendo minha determinada função, eu sempre fui daquela pessoa que anima participar de uma competição, de uma iniciativa x que não tem muito a ver com a minha área, sabe? Sempre fui muito engajada nessas coisas, então isso me permitiu ganhar muitas premiações, me permitiu chegar no título de MVP também. Uma coisa está atrelada à outra, então eu conquistei muitas coisas, muitas premiações, muitos títulos, minhas vagas de emprego, justamente por conta desses engajamentos que eu tive, não só por conta dos estudos. Esse é um pedacinho de quem eu sou, mas a Bruna aqui é a pessoa que trabalha com comunicação, que compartilha conhecimento, trabalha a questão técnica da área e uma série de coisas. Eu acho que o entusiasmo, a vontade de fazer as coisas, faz toda a diferença.