[[legacy_image_337428]] “Não foi um fogo normal, parecia a onda do mar, ela vinha engolindo tudo. Ela vinha engolindo tudo que tinha por cima, tudo…”, esse é o relato de José Fernandes de Jesus, de 52 anos, atual líder comunitário da Vila São José - antiga Vila Socó, em Cubatão, na Baixada Santista. Em 24 de fevereiro de 1984, houve um forte cheiro de gasolina seguido de uma explosão. Em poucos minutos, ondas de fogo invadiram o local, causando uma das maiores tragédias já registradas na região, deixando 93 mortos. Segundo José Fernandes, o vazamento de combustível que ocasionou o incêndio começou na manhã do dia 24.“Aí o que acontece, o pessoal chamou os responsáveis, que falaram que não tinha problema, que o pessoal precisava ficar despreocupado.. Isso foi aumentando, aumentando”, relembra. Ele tinha 12 anos na época, e conta que a gasolina se espalhou de acordo com o movimento da maré, que passava por baixo das palafitas. “Ninguém sabe se foi bituca de cigarro ou um fósforo, se alguém falar é mentiroso, porque ninguém viu”, conta. Após 40 anos, a noite do dia 24 de fevereiro ainda vive em José, à reportagem de A Tribuna, ele diz que lembra de ver pessoas pegando fogo, dos gritos por socorro e da correria. Ele também diz que lembra do dia seguinte, quando o fogo cessou, e viu os restos mortais de moradores e o que havia sobrado das casas. “Até hoje está na memória, não tem como escapar”. [[legacy_image_337435]] Ele ainda afirma que não foram apenas 93 mortos. São 500 e poucas pessoas, pois muitas pessoas desapareceram após o incêndio. “Tem gente enterrada até hoje aqui dentro (da Vila)”. Osvaldo Duarte de Araújo, aos 86 anos, também lembra do incêndio que destruiu a Vila Socó. Apesar de morar no local, ele alega que o fogo ficou a três casas de atingir a sua. Ele também diz, que no dia alegaram que o vazamento não seria prejudicial à comunidade. “Fui para lá, onde estava o vazamento, reclamando que ia pegar fogo, eu diziam ‘não tem problema não, não vai pegar fogo não’. Era vazamento de gasolina e a maré estava cheia”. Quando viu a proporção do incêndio, ele tirou a família de casa e foi para outro lugar, mas retornou com medo de seus pertences serem saqueados. Entretanto, nem todos que retornaram ao local tiveram a mesma sorte.”Tenho muitos colegas que morreram queimados porque voltaram para pegar documentos e morreram”, lembra. Após 40 anos, Osvaldo diz que o incêndio ainda é como uma ferida, e não quer que algo assim aconteça nunca mais. Visto de longeEnquanto o fogo queimava na Vila Socó, pela cidade o terror se alastrava. Rodeado de mitos de ‘uma explosão’, as chamas, que podiam ser avistadas de diversos bairros, levavam também medo. Maria Bistene, aos 80 anos, morava na Avenida 9 de abril, quando ouviu as sirenes, e da janela do apartamento viu as chamas. "Eu ouvia as pessoas gritando ‘vai explodir, vai explodir’ (...) foi uma correria em Cubatão. A gente tinha muito medo de explodir por causa da refinaria”, conta. Em outro bairro da cidade (Jardim São Francisco), Jorge Bistene, hoje com 52 anos, sobrinho de Maria, recebeu a tia na madrugada do dia 25, avisando que a Vila Socó ‘pegava fogo’. “A gente ficou com medo, né? Nos reunimos na sala e rezamos o ‘Pai Nosso’... Tínhamos medo de Cubatão explodir”. Maria ainda lembra que nos dias seguintes se voluntariou para ajudar as vítimas do incêndio, que se alocaram em um centro esportivo da cidade. Ela ajudou na separação das doações e entrega para as pessoas que estavam ali. “Nós separamos (as doações) para depois arrumar, e foi assim, aos poucos a coisa foi andando. Graças a Deus, tudo foi superado”. [[legacy_image_337429]]