[[legacy_image_337461]] Já passava de meia noite do dia 25 de fevereiro de 1984, quando o chefe de reportagem de A Tribuna, na época, Luigi Bongiovanni, recebeu um telefonema do secretário de redação Clóvis Galvão. Ele havia dito que estava ocorrendo um incêndio em uma comunidade de Cubatão, e ainda não se sabia a proporção, mas que seria algo grande, e que havia muita gente morta e ferida. Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! Luigi pegou sua moto, e chegando próximo à Rodovia Anchieta avistou as grandes labaredas. Aquele seria o início de uma madrugada dedicada à apuração dos fatos. “Só podia começar a trabalhar depois que o fogo estivesse menos intenso. Nós passamos a madrugada de um lado para o outro vendo o que podíamos fazer, conversando com os bombeiros, que pediam para que nós não entrássemos e que tomássemos muito cuidado. Somente quando começou a raiar o dia que vimos a extensão da tragédia” Trabalhar naquela madrugada trouxe a Luigi experiências que marcaram sua vida profissional, e que lembra até hoje, aos 73 anos. “Uma sensação horrível. Eu quase pisei em uma senhora (carbonizada), só aparecia seu cabelo branco, os ossos das mãos, e as vísceras de fora. Ela fugiu para o mangue para tentar sair do calor, mas morreu”, lembra. [[legacy_image_337462]] Segundo Bongiovanni, o local cheirava a gasolina, fogo, madeira e carne queimada. Mesmo com 40 anos passados, ele ainda se lembra. “É um cheiro que ficou impregnado no corpo e na alma da gente”. Entre os repórteres de A Tribunaque trabalharam na tragédia estava José Carlos Silvares, hoje com 72 anos. “Me ligaram por volta de cinco horas da manhã, e eu fui para lá. Quando eu cheguei, ainda tinha fogo e muita movimentação dos bombeiros. Uma coisa terrível”, lembra. Corpos pelo chão, pessoas desesperadas procurando por familiares e pertences e bombeiros trabalhando sem cessar são algumas das memórias de Silvares. “ Você tinha que enfrentar aquilo como jornalista e permanecer ali, fazendo anotações e vendo o que estava acontecendo, vendo as situações, os bombeiros recolhendo os corpos e toda aquela movimentação para lá e para cá”, conta Silvares. Após o dia 25 (dia do incêndio), Silvares diz que ficou cerca de dois meses acompanhando o caso.”Fui conversando com os sobreviventes e os parentes dos que morreram. Acompanhei também o trabalho dos promotores públicos que atuaram no caso e o trabalho de investigação”. [[legacy_image_337463]] Segundo Silvares, as chamas da Vila Socó não marcaram apenas a sua vida, mas a história de muitos jornalistas, bombeiros e sobreviventes.”Tenho 52 anos como repórter, e essa foi realmente a tragédia mais significativa que eu cobri. De tantas outras, foi a mais impactante”. Algumas cenas, como bombeiros chorando, pessoas desesperadas em busca de seus familiares e corpos abraçados pelo chão, não conseguiram ser apagadas da mente do repórter, que descreve a cobertura como ‘fascinante, no sentido de aterrorizante’. Silvares diz que segurou as lágrimas por muitas vezes, mas não se conteve, quando, cerca de dois meses depois, recebeu um relatório da promotoria, que apontava que o número de mortos poderia ter ultrapassado 500. “Neste dia, eu chorei muito na redação”. Até hoje, quando o repórter passa pela rodovia Anchieta e olha para o local onde ficava a Vila Socó, ele se recorda de todos os momentos que viveu ali à busca de informação.