[[legacy_image_337436]] O prefeito de Cubatão, Ademário Oliveira (PSDB) conta que havia chegado há apenas dois anos na cidade quando o incêndio aconteceu na Vila Socó, em 25 de fevereiro de 1984, e deixou 93 mortos. Sua família havia vindo da Bahia, em busca de melhores condições de vida. “Eu tinha 12 anos e me lembro muito bem do sentimento de espanto de todos, incluindo meus pais e irmãos. Foi uma tragédia que nos marcou profundamente, já que vivíamos na área onde hoje está a Vila Natal, também carente”, lembra. (veja histórico mais abaixo) Ademário ainda se recorda do compadecimento da cidade sobre as vítimas, e diz que o sentimento de solidariedade foi grande para as pessoas que foram acolhidas no centro esportivo. “O incêndio da Vila Socó nos deixa como principal ensinamento a responsabilidade com a vida humana, e tudo que a cerca” diz. MunicipalidadeSegundo a Prefeitura de Cubatão, a tragédia marcou profundamente a cidade. A administração informa que o sentimento é de pesar todas as famílias vitimizadas no incêndio. No entanto, reforça a responsabilidade de todos os entes a respeito do cuidado e zelo com as pessoas e com o meio ambiente. Apesar do número oficial de vítimas apurado à época, 93 pessoas, há que se respeitar a Comissão da Verdade da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) de Cubatão (constituída em 2014) que desenvolve trabalho, além de social, em busca de elementos que possam comprovar a realidade do número de vitimados naquela ocasião. Para a prefeitura, a Vila Socó trouxe ensinamentos aos munícipes, sobretudo sobre à proteção da vida humana e à preservação do meio ambiente, uma vez que as medidas tomadas após o incêndio entrelaçam-se com as ações assumidas em prol da recuperação ambiental do município. [[legacy_image_337437]] SegurançaA Tribuna questionou a administração sobre as medidas de segurança que foram adotadas pelo município após a tragédia da Vila Socó. A Secretaria Municipal de Segurança Pública e Cidadania (SSPC), informou que após o incidente, a Petrobras tomou as seguintes providências: Aterro de toda a área da Vila Socó, atualmente denominada Vila São José, e consequente aterro da tubulação; controle rigoroso da tubulação por meio de sofisticados equipamentos que monitoram a pressão e resistência dos tubos de maneira diária, incluindo as condições climáticas, além da ampla sinalização da área. Vale destacar que, à época do incêndio, a tubulação passava sobre o mangue e se misturava às águas que passavam embaixo das palafitas da Vila Socó. A prefeitura também esclareceu que, segundo especialistas, a tragédia foi um marco para a área de emergência devido às dificuldades enfrentadas no atendimento. A SSPC informa que a partir desse incidente, foram intensificados sistemas de apoio para respostas mais rápidas e eficientes envolvendo não apenas a Refinaria, mas todas as indústrias do Parque Industrial: O Plano de Auxílio Mútuo (PAM) que embora existisse desde 1978, só passou a funcionar efetivamente na década de 80, tornando-se referência regional, e mantém um sistema de combate a acidentes de qualquer natureza que possam colocar em risco vidas, meio ambiente, patrimônio público ou privado no Polo e na Baixada Santista; O Plano de Contingência envolve todas as secretarias municipais da Prefeitura de Cubatão que estão preparadas para responder a eventuais emergências do tipo. AuxílioA Secretaria Municipal de Habitação de Cubatão informou que, após o incêndio, a Petrobrás construiu, por meio de convênio com a Prefeitura, o núcleo residencial formado por 400 casas, na Vila São José. Sobreviventes da tragédia da Vila Socó foram indenizados e passaram a habitar o local que foi totalmente urbanizado, recebendo escola, creche, posto de saúde, infraestrutura urbana e calçamento. A partir de 2017, o bairro passou por processo de regularização fundiária e em 2019, essas 400 famílias iniciaram o processo de recebimento das escrituras definitivas de seus imóveis, tornando-se oficialmente proprietárias do terreno. Atualmente, a Vila São José tem cerca de 4 mil moradores, de acordo com estatísticas do IBGE (2010) - dados ainda não atualizados pelo censo mais recente. [[legacy_image_337441]] HomenagemApós reclamações de que o monumento em homenagem às vítimas da tragédia estaria degradado, a prefeitura informou que ele passa, atualmente, por restauração e recuperação do entorno, com limpeza e pintura do solo. ProgramaçãoPara homenagear as vítimas e os sobreviventes da tragédia da Vila Socó, a Prefeitura de Cubatão preparou uma programação: No domingo, dia 25:Às 9 horas - Ato Ecumênico em homenagem às vítimas;Às 10 horas - Homenagem – depósito de coroa de flores no marco com os nomes das vítimas;Local: Centro Comunitário da Vila São José, na Rua São Francisco de Assis, 470. Segunda-feira, dia 26:Às 17 horas - Sessão Solene por memória, verdade e justiça.Local: Auditório da OAB/Cubatão – na Rua São Paulo, 260 – Jardim São Francisco. Posicionamento da IndustriaA Tribuna solicitou ao Centro de Integração e Desenvolvimento (Cide) e ao Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp) mais informações sobre os trabalhos das indústrias de prevenção e conscientização para a população. Mas, até o fechamento desta reportagem, não obteve resposta. A Tribuna também enviou questionamentos à Petrobrás, e não obteve resposta. HistóricoDe acordo com a Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cestesb), o incêndio da Vila Socó começou por volta das 22h30 do dia 24 de fevereiro de 1984, em um vazamento de gasolina em um dos oleodutos da Petrobrás, que ligava a Refinaria Presidente Bernardes (RPBC), em Cubatão, ao Terminal de Alemoa, em Santos. Essa tubulação passava em uma região alagada, próximo à vila construída sobre palafitas. Ainda, segundo a companhia, na noite do dia 24 um operador teria alinhado inadequadamente e iniciado a transferência de gasolina para uma tubulação (falha operacional) que se encontrava fechada, gerando sobrepressão e ruptura da mesma, espalhando cerca de 700 mil litros de gasolina pelo mangue. Com o vazamento de combustível, moradores do local teriam se aproveitado e furtado a gasolina para vender. Com isso, eles armazenam o líquido em suas casas. Após algumas horas, de acordo com o movimento da maré, o combustível se espalhou, e algo iniciou o fogo que se alastrou pelo mangue, que estava coberto pela gasolina. O número oficial de mortos foi 93, entretanto estatísticas extra oficiais alegam que podem ter chegado a mais de 500 vítimas fatais. 10 mil pessoas moravam no local e dois mil barracos foram queimados. Após o incêndio, a Vila Socó foi reconstruída e hoje é conhecida como Vila São José. Apesar das novas casas e da revitalização, em suas raízes há marcas causadas pelo fogo. Coletivo de Cubatão procura relatos para peça inspirada em incêndio [[legacy_image_337442]] O coletivo teatral da Baixada Santista vencedor do Prêmio Shell de Teatro, um dos mais importantes da categoria no país, o Coletivo 302, de Cubatão, começou os preparativos para a produção de um espetáculo sobre a Vila Socó. A região operária da cidade, hoje denominada Vila São José. O coletivo iniciou os estudos, entrevistas e pesquisas para a produção do espetáculo, que encerrará a “trilogia industrial” iniciada em 2018 com a peça “Vila Parisi” e que prosseguiu em 2021 com o projeto “Vila Fabril”. Para “Vila Socó”, serão ao todo dez meses de trabalho, que resultarão em uma temporada inédita com dez apresentações gratuitas a serem realizadas na Vila São José. Durante todo o processo, será utilizado o conceito teatral site-specific, em que o grupo utiliza a própria região que será retratada como ponto de partida para a criação dramatúrgica, cenográfica e de outros elementos da obra. Neste momento, o grupo está realizando pesquisas sobre a Vila e sua gente. Para isso, além dos estudos, o Coletivo 302 está gravando entrevistas com antigos moradores do local e pessoas que vivenciaram os acontecimentos de fevereiro de 1984. Interessados em colaborar com esse trabalho de pesquisa, ou que tenham histórias da Vila Socó para compartilhar, podem entrar em contato pelo e-mail coletivo302@gmail.com ou pelo WhatsApp (13) 99154-6860.