[[legacy_image_337423]] Sexta-feira, 24 de fevereiro de 1984. Após um cheiro forte de gasolina, moradores escutaram uma explosão. Em poucos minutos, ondas de fogo invadiram a Vila Socó, causando uma das maiores tragédias já registradas na Baixada Santista. Mesmo 40 anos depois, quem esteve presente naquele dia, ainda lembra detalhes do fogo que deixou marcas que jamais serão esquecidas. Muitos já estavam deitados e prontos para dormir, quando os gritos de ‘fogo’ começaram. Alguns conseguiram fugir, outros, não. Mãe e filha, Maria Umbelina, 83 anos, e Helena Umbelina, de 53, ainda se lembram do exato momento em que tudo começou. “Eu acordei e fui chamando os meninos (filhos e neto) e mandando eles correrem. O fogo já estava vindo”, conta Maria. Helena se recorda que a irmã mais velha, que morava em um barraco ao lado do seu, havia sentido cheiro de gasolina e, por isso, deixou o filho na casa da mãe e foi verificar o que era. Foi neste momento que o incêndio começou e a irmã veio gritando às pressas, pela viela acima do mangue. “A gente saiu correndo, mas vimos as pessoas pegando fogo e gritando por socorro”. Já Maria se lembra que sua preocupação era salvar seus filhos e o neto. Enquanto ela corria sobre a viela com o neto nos braços, ela tropeçou e caiu. ”Quando eu caí, veio uma pessoa e carregou o menino do meu braço, eu não sei quem foi, eu pensei que não ia mais vê-lo”. A idosa conta que já não sentia mais as pernas e via as pessoas correndo, enquanto ainda estava sobre a viela que, por sorte, segundo ela, estava aterrada (o que retardou a chegada do fogo). “Aquela hora, eu não gosto nem de pensar… Eu só pedi a Deus, que se fosse para eu morrer, que ele salvasse, mas que se for para eu viver, que ele me ajude. E ele me ajudou”, lembra. Posteriormente, dois dos filhos de Maria a seguraram pelo braço e a levaram para longe do fogo. A família ainda conta que era vizinha de uma mulher que estava grávida, e que para proteger os filhos e o bebê que carregava, os escondeu dentro de uma geladeira. “Vizinhos e conhecidos nossos morreram”, diz Helena. O desespero foi tanto, que a família correu pela Rodovia Anchieta até o bairro Fabril, cerca de 10 km. “A gente corria, se cansava, mas tinha aquela impressão de que o fogo estava vindo atrás de nós”, conta Helena. Todos sobreviveram e se encontraram no bairro Fabril. A família foi acolhida em um centro esportivo da cidade e, posteriormente, em outro alojamento. Com o dinheiro da indenização conseguiram comprar uma casa no Jardim Costa e Silva, onde moram até hoje. O bairro, entretanto, é próximo a área industrial da cidade. Ao ver o fogo, a fumaça e os barulhos que as indústrias fazem, às vezes, as lembranças vem à memória. “É por isso que a gente dorme de roupa, porque se acontecer algo, nós já estamos vestidos”, diz Helena descontraída. Viu a explosãoCom 79 anos, Florinda Lima Dantas também lembra da noite do dia 24. “Acordamos com um cheiro forte de gasolina, o cano estourou bem em frente à nossa casa. As pessoas começaram a procurar (o cheiro), se era dentro de casa, se era na geladeira… Era um cheiro muito forte”, lembra. Segundo ela, as pessoas começaram a passar batendo nas casas para acordar os moradores dizendo para ir para rua, porque havia estourado um cano de gasolina. Já na rua, Florinda lembra que houve uma explosão. “Ninguém sabe como começou, se foi cigarro, se alguém acendeu uma luz, ninguém sabe. O que aconteceu é que deu essa explosão e o fogo veio. Todo mundo saiu correndo, cada um procurou se abrigar como pôde”, lembra. Após o incêndio, Florinda e a família também foram socorridos. Hoje moram no Parque Fernando Jorge, outro bairro de Cubatão.