Estudo pretende entender os impactos que permanecem no ambiente mesmo após as ações de limpeza. (Divulgação) A equipe do Projeto Guará Vermelho iniciou uma nova etapa de pesquisas no manguezal do Rio Casqueiro, em Cubatão. Em parceria com alunos de mestrado e iniciação científica, os pesquisadores começaram a coletar amostras de água superficial, sedimentos, raízes, folhas e propágulos das plantas de mangue para avaliar as condições ambientais do ecossistema e identificar possíveis impactos acumulados ao longo dos anos. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Segundo o supervisor de pesquisa, Osmar Gomes, a investigação busca ir além dos efeitos visíveis da poluição e da degradação ambiental. “A pesquisa já vai um pouco mais profundo, porque avalia os aspectos químicos, físicos e biológicos do sedimento e da água onde esse estudo está sendo executado. Então, ela valida e atesta cientificamente os resultados obtidos a partir desse processo de limpeza”, explicou. O objetivo é verificar a qualidade da água e dos sedimentos, além de identificar possíveis alterações na saúde da vegetação do manguezal. Para isso, os pesquisadores utilizam procedimentos que incluem georreferenciamento dos pontos de coleta, medições multiparamétricas em campo e um sistema de rastreabilidade que acompanha cada amostra até a conclusão das análises laboratoriais. Além de retirar resíduos da superfície, o estudo pretende entender os impactos que permanecem no ambiente mesmo após as ações de limpeza. Segundo Gomes, muitos dos materiais encontrados no manguezal podem liberar substâncias que se acumulam na água e no solo. “Esses resíduos que flutuam e que se fixam aqui na mata ciliar são de diferentes tipos. Encontramos frascos relacionados a produtos de petróleo, produtos químicos, farmacêuticos e alimentícios. A pesquisa iniciou em fevereiro e ainda estamos tratando os resultados analíticos para identificar determinados grupos de compostos e apresentar esses resultados”, afirmou. A investigação também busca entender como esses contaminantes podem afetar a vegetação local. Por isso, raízes, folhas e propágulos passaram a integrar as coletas realizadas pela equipe. “A flora é parte integral do ecossistema de mangue. Para avaliar cientificamente a saúde desse ambiente, é necessário verificar se os elementos detectados no sedimento e na água estão sendo absorvidos pelas plantas. Muitas vezes, essa flora funciona como bioindicadora de algum tipo de estresse ambiental”, destacou o pesquisador. O acúmulo de lixo pode comprometer o desenvolvimento da vegetação e afetar toda a cadeia ecológica do manguezal. “Ao longo desses três meses de projeto, observamos que a restauração da flora é fundamental após a limpeza, uma vez que os resíduos asfixiam novos brotos e sementes, impedindo o crescimento. Além disso, a composição química desses lixiviados pode estar alterando condições fisiológicas naturais do ecossistema e dificultando o crescimento das espécies e o retorno de aves e outros animais”, explicou Gomes. Primeiros resultados já apontam mudanças positivas As pesquisas fazem parte de uma das principais linhas de atuação do Projeto Guará Vermelho, iniciativa desenvolvida pela ONG Nudaer em parceria com a Petrobras, por meio do Programa Petrobras Socioambiental. Além do monitoramento dos resíduos sólidos, o projeto acompanha a biodiversidade da região e busca compreender os fatores que favorecem o retorno do guará-vermelho aos manguezais da Baixada Santista. Projeto Guará Vermelho ampliou sua atuação para além de Cubatão (Divulgação) Os primeiros resultados já apontam mudanças positivas. Após meses de limpeza e recuperação ambiental, os pesquisadores voltaram a registrar a presença da ave símbolo de Cubatão em áreas onde ela raramente era observada. “Estamos realizando análises químicas, físico-químicas e microbiológicas dos sedimentos enquanto monitoramos o retorno do guará-vermelho à área de estudo. Antes da limpeza, praticamente não observávamos esses animais. Após cerca de três meses de trabalho, já começamos a registrar alguns indivíduos. O guará-vermelho é uma espécie indicadora da qualidade ambiental e representa um importante parâmetro dentro da linha de pesquisa do projeto”, afirmou o supervisor de pesquisa, Osmar Gomes. Já o coordenador do Projeto Guará Vermelho, Wagner Rodriguez, destaca também que a produção de conhecimento científico é um dos principais legados da iniciativa. “Além da coleta que realizamos, existe todo um trabalho de quantificação dos resíduos retirados. Fazemos a preparação desse material e a destinação correta. O que pode ser reciclado segue para reciclagem, e aquilo que está contaminado vai para o aterro sanitário”. Segundo Rodriguez, os resultados obtidos ao longo das pesquisas são compartilhados com o Poder Público e podem contribuir para a criação de novas estratégias de conservação ambiental. Atualmente em segunda fase, o Projeto Guará Vermelho ampliou sua atuação para além de Cubatão e também desenvolve ações em Santos. Além das pesquisas científicas, a iniciativa promove mutirões de limpeza, plantio de mudas e propágulos de mangue, instalação de ecobarreiras e atividades de educação ambiental em escolas, comunidades e instituições da região. Durante ações de limpeza em abril, foram retiradas mais de 6,7 toneladas de lixo de manguezais da região.