[[legacy_image_271470]] Mães, avós, profissionais, donas de casa e… bailarinas. Essa é a realidade de um grupo de mulheres de Cubatão, que entraram no mundo da dança após os 40 anos. Simone Ramos, de 44 anos, é advogada e decidiu iniciar o ballet após a investigação de um possível câncer no útero. No processo de recuperação da histerectomia (retirada cirúrgica do útero), ela se propôs a fazer algo que nunca havia feito antes. “Cresci no sertão do Pernambuco, e ballet era algo inatingível para mim, até que fui fazer uma aula experimental e nunca mais parei”. Já a dona de casa Telma Mara, de 55 anos, começou a dançar em um momento de muita fragilidade, logo após a morte de seu marido, Flávio, que ela diz ser o grande amor da sua vida. “Eu precisava preencher o vazio em meu peito, fazer algo por mim e foi aí que eu vi em uma publicação do Instagram: ‘inscrições para aula de ballet adulto’, e pensei, porque não fazer?”, conta. A professora Sabrina Dultra, de 44 anos, relembra que desde criança sonhava em ser bailarina, e que até passou no teste do Conservatório Municipal, mas que por ser muito tímida, os avaliadores não a convocaram.Naquela época, sua mãe não tinha condições de bancar aulas particulares, então ela guardou o sonho dentro de uma caixinha, até começar a acompanhar sua filha na dança. A professora de sua pequena lhe fez o convite.“Na hora eu respondi, que era o meu sonho e que eu adoraria, mas que não era para mim. Jamais conseguiria ser uma bailarina, ainda mais nessa idade”, relata. “Eu lembro, como se fosse hoje, ela me respondendo, ‘eu só estou te convidando porque eu tenho certeza que você é capaz’”, relembra. E Carla Simone, que hoje tem 53 anos, iniciou sua jornada com o ballet clássico quando ainda era criança, aos oito anos, mas por responsabilidades da vida adulta, aos 22 deixou de calçar a sapatilha - mas nunca de dançar, como ela gosta de frisar, uma vez que além de bailarina clássica, ela também abrilhantou as passarelas do samba, sendo passista e rainha de bateria; dentro da sua religião, ela também praticava dança. E foi 30 anos depois, após um período de luta contra ansiedade, que ela retomou para as barras. “Colocar o collant, a meia calça, a sapatilha, fazer o coque… Aquilo foi extraordinário. Em poucos meses, eu já estava no palco novamente”. PreconceitoSabrina relembra um episódio recente, de quando ela foi a uma loja com o uniforme do ballet e acabou sendo abordada por uma mulher, que curiosamente perguntou se ela era professora de dança. Prontamente, ela respondeu que era aluna e, surpresa, a atendente disse: “não acredito, ballet não é só para criança?”. É claro que a bailarina usou da oportunidade para desmistificar o estereótipo criado. Com mais curiosidade ainda, a atendente perguntou se no local onde ela treinava haviam outras mulheres como ela e, outra vez, ficou surpresa ao saber que sim. Carla, por ser uma mulher negra, também foi vítima de preconceito quando ainda era menina. Ela foi aconselhada a desistir do estilo clássico, e focar apenas no samba. “Ballet não é para pessoas como nós”, ouviu. Atualmente, ela fica feliz em ver pessoas negras ganhando destaque nas aulas e nos palcos. [[legacy_image_271471]] IncentivoA professora responsável pela turma, Jhully Batista, de 25 anos, diz que decidiu adaptar o ballet clássico para pessoas que sonhavam em ser bailarinas mas, que por algum motivo, ainda não haviam realizado esse sonho. “Já tive casos de alunas com depressão, crises de ansiedade, luto, patologias metabólicas e articulares. De cada uma, sempre ouço que o ballet pra elas é um refúgio, um lugar onde elas conseguem superar os problemas e se sentirem únicas”, conta a professora. Ela ainda conta que o maior contratempo dessa faixa etária é conciliar a dança com a vida profissional. “No ballet adulto encontramos pessoas já amadurecidas, com pensamentos e responsabilidades formadas, o que torna um desafio grande para um aprendizado novo, além de na maioria das vezes já existir dores crônicas”. Mas além dos desafios, Jhully descreve sua realização ao ver cada uma dessas mulheres - que em muitas vezes tem idade semelhantes a de sua mãe - sededicando à dança. “Sensação de dever cumprido, mesmo diante de todas as dificuldades elas estão lá, firmes e felizes por estarem aprendendo”, conta. InspiraçãoEssas e outras mulheres venceram seus medos e limitações, para dedicarem-se ao seu sonho. Ignoraram comentários preconceituosos e calçaram suas sapatilhas. E entre um plié e uma meia ponta, superaram grandes obstáculos que, às vezes, não se limitam à barra que há no estúdio. E além da dança, elas compartilham outra coisa em comum: o incentivo para outras mulheres dançarem também. Pois juntas experimentaram a transformação que só o ballet pode trazer. “Não é só saber dançar, as nossas aulas são uma terapia, a gente conversa, ri, compartilha os medos e as alegrias e isso faz a dança adulta ser mais especial ainda”, finaliza Sabrina. Assista ao vídeo e saiba o que o ballet significa para elas e outras mulheres