Matteo, de 2 anos, passou mal por vários dias até falecer em Cubatão (Arquivo pessoal) A morte de Matteo Lima Albertino, de 2 anos, comoveu o bairro da Vila Natal, em Cubatão, na Baixada Santista. Após quatro idas ao pronto-socorro da cidade em três dias (entre 27 de junho, sábado, e 29 de junho, segunda-feira) e sem a realização de exames, o que foi diagnosticado como virose acabou em óbito, segundo a família. Um protesto realizado nesta terça-feira (7), em frente à Prefeitura, procurou não deixar a história cair no esquecimento, como diz a mãe, a confeiteira Laysa Lima Albertino. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! “Fiz questão de estar lá e gritar bem alto para que outras famílias não passem pela mesma dor que estamos passando”, afirma Laysa. “A gente não pode deixar o que aconteceu com o nosso filho impune e prevenir que outras famílias não sofram essa dor que estamos passando hoje. A população precisa de um atendimento médico digno. Afinal de contas, a gente paga imposto para isso, né?”, desabafa. No atestado de óbito, obtido pela reportagem de A Tribuna, constam como causas da morte “choque séptico; peritonite (inflamação do peritônio, uma membrana fina que reveste a parte interna do abdômen) e apendicite aguda purulenta”. Enquanto isso, o Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp) abriu sindicância, a pedido do Conselho Tutelar de Cubatão, para apurar as circunstâncias da morte do menino. O Ministério Público de São Paulo (MP-SP) também foi notificado sobre o ocorrido. O caso De acordo com o pai de Matteo, o técnico de qualidade Gustavo Alberto da Silva Lima, o estado de saúde do filho foi se agravando aos poucos, acompanhado de respostas inconclusivas e, especialmente, nada de exames. “Meu filho apresentou febre no fim da noite, entre 23h e 23h30. Como os hospitais normalmente não fazem exames antes de três dias de febre, nós o medicamos em casa, colocamos uma toalha molhada no rosto para tentar controlar a temperatura e ficamos observando. Como ele não melhorou, na manhã seguinte (27 de junho) decidimos levá-lo ao hospital. Na triagem, estava com 39,2°C de febre. A médica examinou a garganta, disse que estava vermelha e irritada, fez a ausculta no peito e comentou: 'Como estamos com um surto de influenza, se a senhora tiver condições, seria interessante fazer um exame particular, porque o hospital não fornece esse exame'. Ela aplicou uma medicação para baixar a febre e nos mandou para casa”, afirma a mãe. Naquele momento, Matteo só apresentava febre. “Ainda no sábado (27 de junho), porém, começou a vomitar e teve um princípio de diarreia. No domingo (28 de junho), mantivemos a medicação prescrita, mas, como ele não melhorava, ficou muito prostrado, meio aéreo, voltamos ao hospital e informamos que ele continuava com febre, vomitava muito, não conseguia se alimentar e estava bastante abatido. O médico examinou novamente a garganta e disse: 'Provavelmente é uma virose. Já atendi seis casos parecidos hoje'”, pontua a mãe. Na sequência, o profissional receitou um medicamento para conter os vômitos e perguntou se a família queria que ele tomasse soro. “Minha esposa respondeu: 'Fica a seu critério. Você é o médico, eu sou a mãe'. Ele respondeu: 'O soro levanta uma criança. Você vai ver que ele vai melhorar'. Meu filho tomou o soro, foi medicado e voltou para casa. Mas, no mesmo domingo, ele continuou piorando. Permanecia vomitando e cada vez mais prostrado”, acrescenta o pai. A situação foi se agravando ainda mais. A diarreia praticamente cessou, mas Matteo começou a reclamar. “'Mamãe, papai, bumbum dodói'. Nós verificamos a fralda, trocamos, e não havia nada. Chegamos a pensar que fosse por causa da injeção. Na segunda-feira de manhã (29 de junho), antes de eu sair para o trabalho, fui trocar a fralda e percebi um ponto preto, como um pequeno caroço. Quando passei o lenço umedecido, senti o volume. Acendi a lanterna do celular, olhei melhor e chamei minha esposa: 'Amor, tem um carocinho aqui que está estranho'. Decidimos levá-lo ao hospital”, conta o pai. Gustavo explicou que a febre permanecia. Matteo estava muito abatido e continuava vomitando. “O médico olhou e disse: 'Rapaz, isso é uma hemorroida. Meu filho também teve. É normal'. Inclusive, ele abriu imagens no Google para mostrar como era. Eu respondi que estava saindo uma secreção. Ele disse: 'É normal. Isso acontece na hemorroida. É até sinal de melhora'. Receitou uma pomada e nos mandou novamente para casa, sem fazer exames ou aplicar qualquer outra medicação". Mais um retorno Na tarde de segunda-feira, Matteo continuou piorando. À noite, a família decidiu voltar ao hospital pela quarta vez. “Informamos que ele estava completamente prostrado, praticamente não respondia mais e que o caroço continuava aumentando. Antes de entrarmos no consultório, minha esposa perguntou se eu poderia acompanhá-la, já que cada um havia levado nosso filho em dias diferentes. Aquela era a quarta passagem pelo hospital. A médica apenas deu de ombros”, queixa-se o pai da criança. "Quando a médica examinou o caroço, disse imediatamente: 'Nossa, isso não é hemorroida. É um abscesso'. Decidiu deixá-lo em observação, administrar soro, solicitar exames de sangue e urina. Foi somente na quarta ida ao hospital, depois de três dias, que fizeram os primeiros exames", acrescenta. Ainda segundo o pai, “coletaram sangue, colocaram o coletor para o exame de urina e fomos fazer uma radiografia . Depois, disseram que seria necessário repetir o exame de sangue, porque havia ocorrido um erro. A enfermeira apenas comentou que era para confirmar um resultado, sem explicar qual. Meu filho já não urinava mais. Estava extremamente sonolento, praticamente só queria dormir, e continuava recebendo soro enquanto aguardávamos". Durante a madrugada, um médico veio conversar com Gustavo. "Mostrei novamente o abscesso e perguntei sobre os exames. Ele respondeu: 'Foi só uma virosezinha, algo viral'. Foi exatamente essa expressão que ele usou". De fraldas, na chuva Na manhã seguinte (30 de junho), Gustavo precisou carregar o filho apenas de fralda até o pronto-socorro adulto, onde seria avaliado pela cirurgiã. "Fiquei cerca de meia hora em pé com ele no colo, porque não conseguia encontrar posição para acomodá-lo devido à dor". “A cirurgiã examinou e perguntou: 'Ele sofreu alguma pancada?' Respondi que não. Expliquei que, no dia anterior, havia apenas um ponto preto e que outro médico havia diagnosticado uma hemorroida. A cirurgiã estranhou o hematoma ao redor da lesão. Depois, outro médico afirmou: 'Pode jogar essa pomada fora. Isso é um abscesso. Essa região precisa ficar limpa e seca, não coberta por pomada'. Dali em diante, foi só ladeira abaixo”, recorda o pai. Como Mateo não urinava, foi colocada uma sonda. Durante o procedimento, uma enfermeira apertou o abdômen dele. Em determinado ponto, o menino reclamou de dor. "Ela comentou: 'Estou com medo, porque esses são sintomas de sepse'", detalha o pai. O pequeno continuava apenas em observação, sem monitorização contínua. UTI Na tarde de terça-feira (30 de junho), depois de Matteo passar toda a segunda-feira à noite e parte da terça em observação, os médicos decidiram transferi-lo para uma sala monitorada enquanto aguardava vaga na Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Os pais ficaram ao lado de Matteo vendo os profissionais tentando obter acessos venosos, furando-o diversas vezes. "Ele ainda tentava conversar conosco, mas estava completamente desorientado. Foi uma cena de terror”, descreve Gustavo. “Quando fui para casa descansar um pouco e ficar com meus outros filhos, minha esposa me ligou desesperada. Disse que ele (Matteo) havia começado a vomitar sangue, em aspecto de 'borra de café', estava com os lábios roxos e apresentava sinais de falta de oxigenação. Somente naquele momento, solicitaram uma tomografia. Mais tarde, perguntei ao médico sobre o resultado. Ele respondeu: 'Não deu nada, pai. Está normal'. Não sei se ele quis omitir alguma informação, mas foi isso que me disseram. Meu filho ainda precisou atravessar uma área aberta do hospital, debaixo de garoa, apenas de fralda e coberto por um lençol, para realizar o exame”. Só depois Matteo foi para uma sala monitorada e, por volta das 22 horas, conseguiu uma vaga na UTI. “Quando finalmente chegou à UTI, disseram que ele havia apresentado uma pequena melhora. A frequência cardíaca havia diminuído e a pressão tinha estabilizado. Um médico explicou que seria necessário um procedimento para conseguir um acesso venoso central e pediu que eu saísse da sala”. O drama ia se prolongando. “Pouco depois, outro médico saiu e disse: 'Paizinho, seu filho está muito, muito grave'. Falou que ele estava sendo medicado. Depois descobri que, na verdade, eles já tentavam reanimá-lo. Cerca de 20 minutos depois, o médico voltou e informou: 'Paizinho, faz 35 minutos que estamos tentando reanimar o seu filho, mas ele não resistiu'”, finaliza Gustavo. Outro lado Em nota, a Prefeitura de Cubatão, por meio da Secretaria Municipal de Saúde (SMS), informou que, “tão logo tomou ciência do óbito, em 1º de julho, adotou imediatamente as providências administrativas cabíveis, instaurando sindicância para apuração técnica e minuciosa dos fatos”. Segundo a Administração Municipal, “a investigação é conduzida por médicos e enfermeiros auditores, que analisam toda a documentação assistencial, os prontuários e os procedimentos realizados. Por se tratar de um processo técnico, não é possível antecipar informações, conclusões ou atribuições de responsabilidade antes da conclusão da análise, sob pena de comprometer a própria apuração e desrespeitar o devido processo”. A Prefeitura de Cubatão acrescentou que, “para subsidiar essa investigação, foi solicitada, em 1º de julho, toda a documentação às organizações sociais responsáveis pelos atendimentos, com prazo de entrega até 3 de julho. Parte dos documentos, entretanto, foi apresentada fora do prazo, o que impacta diretamente o cronograma da análise técnica. Além da sindicância administrativa, também foi determinada a abertura do Protocolo de Londres, metodologia reconhecida para investigação de eventos adversos e óbitos que demandam avaliação detalhada. Os relatórios foram solicitados ao pronto-socorro infantil e ao hospital envolvido, que possuem prazo para apresentação das informações. Diante da pendência, a secretaria encaminhou novo ofício reforçando a solicitação dos documentos necessários à continuidade da investigação”. A Secretaria Municipal de Saúde reiterou que “todas as medidas cabíveis foram adotadas desde o primeiro momento e reforça que qualquer manifestação oficial sobre o caso somente será realizada após a conclusão da apuração técnica, baseada em evidências e documentos, garantindo uma análise criteriosa, responsável e imparcial”. A reportagem de A Tribuna também tentou entrar em contato com o Instituto Alpha, que gere o Pronto-Socorro de Cubatão, mas não obteve retorno até a publicação desta matéria.