Dona Merenciana, que teve 12 filhos, partiu na semana passada, aos 96 anos (Arquivo Pessoal) Quando o sino da igreja tocou para anunciar a despedida de Merenciana de Oliveira Santos no último dia 18, o som ecoou por uma comunidade que ela ajudou a construir ao longo de mais de sete décadas. Aos 96 anos, a moradora da Cota 200, em Cubatão, partiu deixando uma história que se confunde com a própria formação dos bairros-cota e com a trajetória de milhares de trabalhadores que chegaram à Serra do Mar em busca de uma vida melhor. Conhecida por todos como Dona Merência, ela viveu por mais de 60 anos na mesma casa. Durante décadas, alimentou operários, acolheu migrantes recém-chegados, ajudou famílias em dificuldade e se tornou uma referência para gerações de moradores. “Minha avó era uma pessoa muito alegre. Poucas vezes na vida eu a vi chorar. Mesmo tendo passado por muitas perdas, ela nunca deixou que a tristeza definisse quem ela era”, conta a neta Andressa de Oliveira Santos Évora Bráz, de 26 anos. A história de Dona Merência começou longe dali. Nascida em Mucugê, na Chapada Diamantina, na Bahia, ela chegou a Cubatão ainda adolescente, entre os 12 e 13 anos, acompanhando os pais e duas irmãs. A mudança aconteceu na década de 1940, quando as obras da Via Anchieta atraíam trabalhadores de várias partes do País. Ao desembarcar, encontrou uma realidade muito diferente da imaginada pela família. “Quando desci aqui era só banana e mangue”, costumava contar aos filhos. Seu pai foi contratado para trabalhar nas obras da rodovia. Sem máquinas modernas, os operários abriam caminho na serra com picaretas e trabalho manual. Foi nesse contexto que Dona Merência e a família encontraram uma forma de sobreviver. Primeiro, sua mãe começou a cozinhar para trabalhadores que viviam longe das famílias. Depois, ela própria assumiu a atividade e transformou a pensão em referência entre os homens que participavam da construção de uma das mais importantes ligações rodoviárias do Estado. Foi também na pensão que conheceu o futuro marido, Joaquim de Oliveira Santos, com quem teve 12 filhos. O casal permaneceu junto por 47 anos, até a morte dele, em 1998. Uma das primeiras moradoras A comunidade que hoje ocupa a Cota 200 ainda não existia. Na época, o local era conhecido apenas como acampamento dos trabalhadores. Casas eram construídas aos poucos e os moradores se ajudavam mutuamente. “Minha mãe contava que toda semana alguém estava construindo uma casa. Então, juntavam-se todos os funcionários que estavam lá no acampamento e iam construindo a casa um do outro”, lembra a filha caçula Elisandra de Oliveira Santos, de 51 anos. Em determinado momento, um encarregado do antigo Departamento de Estradas de Rodagem (DER), preocupado com a segurança da família, providenciou a construção da casa onde ela viveria pelo restante da vida. Referência na comunidade Ao longo dos anos, Dona Merência deixou a pensão, abriu barracas às margens da Anchieta e da Imigrantes e passou a vender cachorro-quente, bolos, cocadas, milho e refrigerantes para viajantes. Mesmo sem formação escolar, tornou-se uma espécie de conselheira informal da comunidade. Moradores buscavam sua opinião para resolver conflitos, pedir orientação ou simplesmente conversar. Elisandra lembra de uma mulher que chegou à Cota com quatro filhos, sem trabalho e sem condições de sustentar a família. Dona Merência não apenas doou alimentos como ensinou a visitante a produzir cocadas, forneceu os ingredientes e mostrou onde vender os doces. Legado: amor ao próximo A despedida aconteceu da forma que ela acreditava que deveria ser. Velada em casa, a cerimônia teve café, chá, refrigerante, bolo, pão, cachorro-quente e dezenas de histórias. Para quem a conheceu, não poderia ser diferente. “Ela dizia que o morto já estava morto, mas quem foi prestar a última homenagem precisava se alimentar”, recorda Elisandra. “Vi muitas mensagens nas redes sociais de pessoas contando como ela havia ajudado seus pais, suas famílias ou sido um exemplo de bondade”, relata Andressa. Para a neta, esse é o principal legado deixado pela avó: “o amor ao próximo”.