"O mundo dentro dos livros é mais interessante do que fora", diz Herzog (Vanessa Rodrigues/ AT) Era uma vez Maria de Pau, uma boneca de madeira cujo maior desejo era ter uma alma, tal qual um ser humano. Um dia, Maria de Pau virou gente. E Manoel Herzog virou escritor. A saga, adaptação sertaneja da história de Pinóquio, herança da família materna trazida de Sergipe, era das primeiras que ouvia quando pequeno e cuja fascinação, mais tarde, entenderia como um chamado. “A gente não decide. Se fosse escolher no âmbito da razão, seguramente ninguém escolheria a Literatura, porque é uma arte ingrata”, avalia Herzog, que tem 14 livros publicados, é dono do terceiro lugar em poesia no Jabuti, segundo no prêmio Biblioteca Nacional, foi finalista em vários outros prêmios e conta com a admiração de Chico Buarque, como se verá adiante. Por ora, é preciso voltar ao tempo em que Maria de Pau virou gente. Santista apenas para nascer – embora hoje more na Cidade – Herzog cruzou no berço a ponte sobre o Rio Casqueiro, ao bairro homônimo onde cresceu, em Cubatão. “O Casqueiro era um lugar muito simples. Não era favela, porque os lotes eram demarcados, mas nenhuma rua tinha calçamento”. Era 1964. Estava pronto o cenário da meninice do pequeno Herzog. Ao abrir os olhos, deparou-se com as três primeiras mulheres de sua vida: a mãe, Mirian, a avó, Maria da Conceição, e a bisavó, Joana. “Até os meus 10 anos, vivi submetido a uma ditadura amazona entre as três mulheres. Fui uma criança muito estragada”, brinca. Ao seu redor, havia ainda o pai, Manoel, e o avô, Wilhelm, nascido na Alemanha. Daí vem o Herzog do sobrenome. Já o Manoel, é o óbvio. “A única coisa que justifica botar o nome de Manoel numa criança, é uma homenagem ao pai”, sorri. Moravam todos na casa construída pelo avô alemão. Embarcado na marinha mercante, passava longos períodos fora de casa, nas cabotagens da vida. A aura aventureira das ausências encantava o menino. Certa vez, o avô ligou de Manaus oferecendo levar para casa um filhote de jaguatirica para o neto. “Eu dizia ‘traz, vô!’. Minha mãe, minha avó: ‘você é louco!”, sorri. “Eu queria participar do mundo que meu avô vivia”. A fantasia lhe esticava os braços também por outros caminhos. Além da Maria de Pau, a própria história da bisavó parecia saída de um romance. “Ela nasceu no ano da abolição (da escravatura). Era mestiça, foi criada por uma família, era adotada. Ela relatava que ainda conheceu escravizados, que ficaram na casa mesmo após a abolição”. Mundo melhor As fantásticas aventuras do avô e as histórias fabulosas da avó desembocaram em Monteiro Lobato. “Tinha um prazer infinito de ler aquelas histórias”. Chamava-lhe a atenção o pó de pirlimpimpim, que ao ser aspirado, transportava o incauto a outros mundos. “Depois de muitos anos fui me dar conta que aquilo era uma apologia ao uso da cocaína”. À época, cocaína era vendida em farmácia. Freud, um entusiasmado usuário, valia-se da droga para curar as ‘doenças da alma’. Porém, logo começou a perceber que os pacientes foram se tornando viciados. Mas há cocaínas e cocaínas, até abstratas. “O mundo dentro dos livros é mais interessante do que fora”, resume. A tal ponto, que nem a escola se safava do estigma da chatice. “Eu odiava a escola”. Chorou de cair lágrima até o quarto ano – graças à educação protetora que recebia em casa, segundo avalia. O ódio à escola se materializava com bile extra nas aulas de geografia, história, matemática, português... enfim, o que viesse. Até que no segundo ano começaram as aulas de composição – a popular redação. “A professora lia minhas composições para a classe, depois para a escola, e até fora dela. Eu comecei a me destacar, virei meio que uma atração”, recorda. “Ou seja, passei a ser reconhecido. Pensei: ‘eu gosto disso”. Eis um grande pó de pirlimpimpim. A saga escolar começou no Externato Paranapiacaba, cuja dona era uma figura, digamos, controversa, pela descrição de Manoel: ‘defumada’ a cigarro e não raro dava aulas de camisola. Mas tinha um forte lado humanista: tocava piano e escrevia. “Ela me tinha como um discípulo, achava que eu era um aluno promissor, por causa dessa coisa de escrever”. Hoje, o externato não existe mais. No lugar, há um pátio de caminhões. Mas a primeira professora não morreu: está eternizada como uma das personagens do seu livro de 2023, A Língua Submersa. Herzog: “A professora lia minhas composições para a classe, depois para a escola, e até fora dela" (Vanessa Rodrigues/AT) Não é profissão Caminho inevitável: das composições escolares ao livro. O primeiro deles, de poemas, foi Brincadeira Surrealista, de 1987, publicado a expensas próprias. Herzog tinha 22 anos. “Eu achava que seria o novo Drummond”. A obra passou desapercebida. Frustrado, afastou-se das publicações por 20 anos. Mas se nada aconteceu com o livro, não se pode dizer o mesmo da vida: nessa época nascia Guilherme, o primeiro, dos quatro filhos de Herzog – os outros três, meninas. Como a cegonha só deixa o pacote, o resto é com quem o recebe. Já casado, Herzog foi se virar. “Comecei a trabalhar na indústria química, na Carbocloro”. Ficou nove anos na indústria, como operador de unidade. Ou seja, cuidava para que tudo funcionasse a contento. Mas na prática emocional, era um outro tipo de escola: “Odiava aquilo, era limitador”. Como logo depois a cegonha trouxe Nivea e Raquel, não havia espaço para grandes rebeliões. A falta de expectativa costuma causar dois fenômenos: acomodação ou inquietação. Herzog trilhou a segunda via. “A única forma de me libertar era pelo conhecimento, pela educação”. Decidiu estudar. Mas o quê? Sem aptidão para os negócios, sensível ao ver sangue e sob os ecos de um teste vocacional da adolescência, que não apontou muita coisa, Herzog optou: iria estudar Direito. “Não é o que eu amo, queria ser escritor, mas escritor não é profissão”. O ritmo era puxado. O coquetel trabalho na Carbocloro à tarde, trabalho em uma casa própria em construção no Casqueiro pela manhã e o final da faculdade à vista resultou em uma crise de pânico. “Fui parar em hospital psiquiátrico”. Afastado da indústria por ordem médica, surgiu na empresa um plano de demissão voluntária. Ao saber, ele próprio pediu alta: voltou à Carbocloro apenas para abraçar o plano rumo à liberdade. Com a indenização, comprou um táxi. Em paralelo, montou o escritório de advocacia. “Comecei a pegar muitos clientes, os trabalhadores das fábricas, operários como eu”. As coisas foram se precipitando: nesse meio tempo, o casamento chegou ao fim. Mas o escritório decolava e o táxi, arrendado, dava mais em um mês do que o salário da Carbocloro. “Lá na indústria, os caras colocam na tua cabeça: ‘se você sair daqui, não consegue fazer mais nada’. Esse foi o mote do meu primeiro livro de sucesso”. O livro CBA - Companhia Brasileira de Alquimia nasceria anos depois e cairia nas mãos de Chico Buarque. “Era a época que o José Genoíno tinha saído da prisão. O Chico queria falar com ele, prestar solidariedade. Ele perguntou do contato para alguém, que indicou uma amiga minha, que tinha o telefone do Genoíno”, recorda. “Um dia, ela atende ao telefone, ‘É o Chico Buarque’, e quase desmaia”. Herzog não perdeu tempo: “Passa o meu livro pra ele!”. Chico adorou. Gostou de outros livros. Falou publicamente. A mãozinha do compositor ajudou Herzog a abrir as portas de uma grande editora. Ainda não é Jorge Amado Herzog passou por outro casamento. Dele, veio Sophia, a terceira menina. “Meu Malvado Favorito, o filme, é a história da minha vida, com três meninas em casa”. Também vieram outros livros, A Comédia de Alissia Bloom (terceiro lugar no Jabuti); O Evangelista; Sonetos de Amor em Branco e Preto; Mais Cento e Oito Sonetos; Decadência; A Jaca do Cemitério É mais Doce; Boa Noite, Amazona; Ode ao Bidê; A Língua Submersa; os volumes 1 e 2 de Memorial de Fescenia. Mesmo com essa produção, escapou da observação da mãe: “Você está indo bem, mas ainda não é Jorge Amado”. O sustento, como sempre, vem do Direito. A Literatura é o coração que pulsa. Machado, Melville, Cervantes. A Literatura não é amoral, mas deve existir sem amarras. Certa vez, em um prêmio literário, passou uma saia justa. “Pegaram o personagem do meu livro, um homem branco, estava claro que o personagem era o autor. ‘Nós precisamos apagar da história da Literatura essa coisa do homem branco de meia idade...’. Mas tem homem branco de meia idade que escreve bem, né?”. Herzog se identifica como de esquerda. Repugna-lhe a exploração de um ser humano por outro. Mas a ele, Literatura não tem política. Nem gênero, raça, idade. É apenas fruto de seu tempo, boa ou ruim. E sempre maior que seu autor, maior que a própria vida. Como em uma passagem de A Língua Submersa: “As pessoas vivem a tal vida eterna desde sempre. Como você, como todos nós, estamos mortos faz tempo. Ou tu pensavas que esta era a terra ideal, com poucos eleitos, o paraíso?”. O paraíso, hoje, talvez seja o sítio em Mogi das Cruzes. Lá, Herzog relembra que a criação é ampla. Nela, cabe a marcenaria aprendida do pai, que por sua vez a recebeu do avô paterno de Herzog: José, português. O neto teve pouco contato com ele, motorneiro de bonde, morador do Campo Grande, em Santos. Ficou a herança da arte de transformar a madeira: está por todo o apartamento de Herzog, no Macuco, seja na estante de livros ou nos santos esculpidos das devoções. Hoje, Herzog gosta de enfurnar-se no sítio, entalhar suas peças. E escrever. É comedido com os sonhos. Mas cultiva um desejo: “Que me sejam concedidos alguns anos mais aqui na Terra. Quero continuar produzindo”. Amém.