Josué também se dedica às artes plásticas (Arquivo Pessoal) Nascido em São Lourenço da Mata, na Região Metropolitana do Recife, em Pernambuco, Josué Salvino dos Santos, de 63 anos, é um dos muitos nordestinos que ao longo dos anos chegaram a Cubatão. Neste domingo (14), a Cidade celebra a história dessa imigração, no Conjunto Residencial Rubens Lara (veja ao lado). Josué chegou à Cidade aos 14 anos, após viver para o trabalho na lavoura de cana com os pais e 11 irmãos. A casa onde moravam era em terreno de fazendas e engenhos. Como era o mais velho, trabalhava na terra e ajudava o pai, Lourenço Salvino, na colheita de tomate, batata doce ou mandioca. Tudo era vendido na feira. “O dono do terreno sempre mandava a gente sair. Quando completei 14 anos, meu pai disse que juntaria dinheiro para eu ir morar com um primo em São Paulo, num lugar chamado Cubatão”. Ele veio. Na bagagem, poucas roupas, o primeiro par de sapatos que havia ganhado na escola, e o sonho que o pai alimentava para ele: encontrar oportunidades. Porém, ao desembarcar na Rodoviária do Tietê, na Capital, o adolescente não sabia como chegar ao destino. Sem dinheiro, pediu ajuda para seguir viagem até a Rodoviária do Jabaquara e, de lá, até Cubatão. Chegou a dormir embaixo de uma ponte, na busca pelos familiares, na Vila São José. “Tudo era diferente para mim. Parecia uma cidade enorme”. Virada de chave Assim como muitos migrantes nordestinos, que chegaram no auge da industrialização de Cubatão, Josué iniciou a vida profissional trabalhando na construção civil. Passou por postos de combustíveis, padarias e o que viesse, até ingressar na indústria. A trajetória mais longa foi na Usiminas: 32 anos. Aposentou-se como encarregado de montagem mecânica, cargo que considera uma grande conquista pessoal. Mas, talvez, o maior orgulho esteja na família que formou. Casado com uma nordestina, dona Siverineide Barbosa dos Santos, é pai de três filhos. Dois são engenheiros e a filha conclui a graduação em Biologia. “Tudo o que eu vivi valeu a pena, quando vejo meus filhos formados, com a vida deles encaminhada”. Após se aposentar da Usiminas, descobriu a paixão pelo teatro (Arquivo Pessoal) A vida abraça a arte Mas nem todo o percalço foi suficiente para impedir de surgirem novas aptidões na sua vida: a arte, seja no palco, como ator, ou no ateliê, como artista plástico. Ao acompanhar um ensaio da filha, foi convidado a participar de uma montagem do Teatro do Kaos, tradicional grupo cultural de Cubatão. O que seria apenas uma participação se transformou em paixão. Entre os personagens que interpretou, estão figuras ligadas ao universo nordestino, como Ariano Suassuna e João Grilo, de O Auto da Compadecida. Em uma das montagens, chegou até a representar a própria história de vida. “Fui até rei em uma apresentação. Mas, de verdade, gosto mesmo é das peças. Se fosse para escolher as histórias, queria todas do Nordeste. Quando eu conto como era lá, as pessoas ficam curiosas, não imaginam as pessoas vivendo como eu vivia”. Mesmo a mais de 2 mil quilômetros de distância, a saudade da terra natal é grande. “Era uma vida simples, mas feliz. A gente não passava fome, conseguia tudo com muito esforço”. Tanto que, após cerca de seis anos sem ir a Pernambuco, está de malas prontas: viaja neste domingo (14). A história A influência nordestina faz parte da história e da formação social de Cubatão. A industrialização da Cidade, a partir dos anos 40, foi fundamental para esse movimento, com a instalação da Refinaria Presidente Bernardes, da Cosipa e de dezenas de outras indústrias. Com tanta demanda de trabalho, era preciso gente. Segundo o Censo 2022 do IBGE, a proporção de nordestinos que viviam em Cubatão naquele ano era de 26% dos habitantes, o equivalente a 31 mil das 112 mil pessoas. Com Siverineide, também do Nordeste, tem três filhos, todos criados (Arquivo Pessoal) A festa Para celebrar, a Prefeitura realiza neste domingo (14) a Festa Nordestina, no Conjunto Residencial Rubens Lara, das 14h às 23h30, com música, gastronomia e a valorização das tradições nordestinas. O grande destaque será o show do cantor Salgadinho, às 20 horas. Além dele, também subirão ao palco DJ Marcelinho, Dênis e Banda, Conexão do Som, Grupo Quanta Loucura e Forró Sanfonado. A iniciativa integra o calendário cultural da Cidade. “É uma celebração das nossas raízes, da força da cultura popular e da contribuição do povo nordestino para a construção da história de Cubatão”, destacou o secretário de Cultura, Omar Bermedo.