Considerada no passado como “Vale da Morte”, Cubatão virou símbolo de recuperação ambiental e se tornou a cidade com melhor qualidade do ar do estado de São Paulo. Após o município registrar uma das maiores tragédias da Baixada Santista durante o incêndio na Vila Socó, que matou 93 pessoas em 1984, indústrias e autoridades públicas uniram forças em um plano que reduziu 95% dos poluentes do ar e garantiu títulos de símbolo de recuperação ambiental para Cubatão. Clique aqui para seguir o canal de A Tribuna no WhatsApp! Chegando a registrar níveis de poluição do ar dez vezes maiores do que os recomendados pela Organização Mundial da Saúde (OMS), a cidade ficou mundialmente conhecida, na década de 1980, como o “Vale da Morte” devido à concentração de empresas químicas e petroquímicas, indústrias e fábricas, que emitiam mais de 300 fontes de poluentes no ar, água e solo. Compostos como o dióxido de enxofre, proveniente da queima de combustíveis fósseis e processos industriais, causadores da chuva ácida, e partículas suspensas no ar provocavam problemas respiratórios nos munícipes. Outra substância, o chumbo, afetava o sistema nervoso, especialmente de crianças. Além disso, óxidos de nitrogênio contribuíram para a formação do smog fotoquímico, uma fumaça acinzentada arroxeada que se forma no céu, e compostos orgânicos voláteis, como benzeno, prejudicaram a saúde das pessoas e o meio ambiente. Trabalho no Vale da Morte O técnico de operação de utilidades, Claudinei Pudo, trabalhava na Refinaria Presidente Bernardes, da Petrobras. Na empresa, atuava na casa de força, no setor de distribuição de energia elétrica, térmica e de tratamento de água. Ele entrou na estatal em 1987 e enfrentou o medo de trabalhar no "Vale da Morte". “Eu ficava muito preocupado. Minha mãe não queria que eu trabalhasse em Cubatão, porque ela dizia que muitos amigos estavam morrendo por leucopenia e câncer de pulmão”, revelou. Claudinei explica que, nessa época, os trabalhadores contraíam doenças como a tuberculose, devido à ingestão de alimentos contaminados, contato com a água do rio, chuva e inalação dos gases. “Aquilo deixava as pessoas com a taxa de leucócitos baixa e sem defesa no organismo. Eu tinha bastante medo, mas era uma oportunidade de trabalhar numa grande empresa. Sabia que a Petrobras tinha uma boa assistência médica e cuidados com os funcionários. Então, foi um desafio, com medo e por necessidade mesmo”, explica. Anomalias e má formação A geração de contaminantes causou um caso chocante. O bairro residencial Vila Parisi, localizado próximo à zona industrial, era ocupado por uma população de imigrantes de baixa renda que absorviam todos os metais e fertilizantes presentes no ar. Como resultado, o local registrou o nascimento de crianças com diversas malformações nos membros e no sistema nervoso. Devido à constante inalação desses poluentes, as gestantes desenvolviam problemas respiratórios, reduzindo a oxigenação que o feto em desenvolvimento recebia da mãe, fazendo com que os bebês nascessem sem cérebro. Chuva ácida Constantemente, os moradores reclamavam que a chuva “pinicava” ao encostar na pele. O responsável por isso era o dióxido de enxofre, um gás incolor, tóxico e irritante, com cheiro semelhante ao de um fósforo queimado, proveniente da queima de combustíveis fósseis. A liberação desses gases reagia com o oxigênio do ar e o vapor de água, transformando-se em ácidos. Por isso, durante as chuvas, os moradores de Cubatão reclamavam da sensação de ardência, que na verdade era proveniente dos vapores ácidos que compunham a chuva e causavam queimaduras na pele. Além disso, a cidade registrava diversos locais sem vegetação, já que a água das precipitações queimava plantas e árvores. Incêndio O incêndio na Vila Socó matou, oficialmente, 93 pessoas em 1984, mas os números podem ser até cinco vezes maiores. Foi neste momento que o Estado resolveu intervir e mudar a situação no município. “Vale da Vida” Conforme explica a Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb), a situação era tão grave que, em 1983, o Governo do Estado solicitou à companhia que desenvolvesse um programa de combate e controle dos gases, resíduos e efluentes gerados no polo industrial. Após quatro décadas de implantação do programa, Cubatão apresenta hoje reduções de poluentes impressionantes. Divididos em projetos, o Plano de Ação para Controle da Poluição Ambiental de Cubatão realizou o controle de fontes de poluentes com maior potencial. A partir disso, o plano especial Operação Inverno se voltou para as ocorrências de episódios críticos de poluição do ar. Em 1989, após quatro anos da primeira medida, foi realizado o controle das “poeiras fugitivas”, para reavaliação do perfil das emissões que afetam a qualidade do ar da região. Claudinei explica que a quantidade de vazamentos e emissão de poluentes no ar era alta. Ele presenciou o trabalho conjunto entre o Gverno do Estado, a Cetesb e a Prefeitura de Cubatão.“As empresas injetaram bastante dinheiro e começaram a colocar filtros nas chaminés das fábricas, que tinham muito enxofre e benzeno. Atualmente, Cubatão é uma cidade que tem um controle ambiental bem rígido e as empresas são multadas com qualquer tipo de vazamento, seja para o rio ou para a atmosfera”, ressaltou. Como resultado, a cidade diminuiu em 97% a emissão de poluentes atmosféricos, reduzindo o risco de doenças respiratórias, além da geração de 85% menos resíduos sólidos. No total, há 95% a menos emissões de poluentes diversos. O trabalho recebeu reconhecimento mundial e fez com que Cubatão recebesse o título de Cidade Símbolo de Recuperação Ambiental na Eco-92, durante a conferência da Organização das Nações Unidas (ONU) pelo meio ambiente, realizada no Rio de Janeiro, em 1992.