Inaugurada em junho de 1956 na Cota 200, em Cubatão, a Capela já faz parte da história da cidade. (Divulgação) Escondida em meio à natureza e distante das chaminés, indústrias e área urbana de Cubatão, a Capela São Pedro é um daqueles lugares que parecem ter parado no tempo. O acesso não é dos mais simples. Fica a 200 metros do nível do mar, em um bairro que leva o mesmo numeral: Cota 200. Justamente por isso, preserva um clima de tranquilidade e contemplação em meio à Mata Atlântica. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! No último dia 29, essa parte da história de Cubatão completou 70 anos de história, que conta com vários exemplos de superação, assim como o padroeiro que leva o nome do local, São Pedro. Ele, que viveu no século I, foi um pescador da Galileia que se tornou o principal apóstolo de Jesus Cristo e era conhecido por superar as fraquezas com uma personalidade humana. Felipe Araújo Gonçalves é ministro da Eucaristia, mas já coordenou a Capela. Conta que a história dela também faz parte da própria história. “Minha família ajudou a construir ela. Meu avô materno trabalhou no DER e foi um dos fundadores. Quando faleceu, meu outro avô, o paterno, também a coordenou”. A inauguração foi no ano de 1956. Mas tudo começou com uma imagem do padroeiro. “Ela foi construída junto com a Rodovia Anchieta. Na época, uma imagem de São Pedro foi doada pelos funcionários do DER (Departamento de Estradas e Rodagem), mas não havia espaço para ela ficar. Com o passar do tempo, a comunidade foi crescendo e as pessoas foram construindo casas perto da pista. Daí, o DER doou um terreno que existe hoje, onde fica a igreja”, disse. Vinculada à Paróquia Nossa Senhora da Lapa e à Diocese de Santos, realiza missas às quintas e sábados à noite, a partir das 19h. Mais do que um templo religioso, a Capela São Pedro é reconhecida pela ligação com a vida comunitária. O local reúne fiéis em celebrações, encontros e atividades que ajudam a manter viva a tradição religiosa e cultural do bairro. “Essa comunidade é importante por ser um destaque, ponto de referência do bairro. Todos a conhecem. Nossos fiéis vêm de todos os cantos aqui da Cota 200, se reúnem aqui para rezar durante a semana e, sobretudo, na celebração eucarística que acontece aos sábados”, afirmou o padre Wilson Ribeiro Júnior, administrador do local. Missas são celebradas no local às quintas e sábados à noite, às 19h (Divulgação) Dificuldades Apesar da importância para a comunidade, a distância acaba sendo um dos grandes desafios para manter essa programação. “(No início), não havia missas. Os padres não queriam vir aqui por conta do acesso, que era muito ruim. Essa situação continua, é um sacrifício muito grande. Porque, de vez em quando, a pista fecha e os padres ficam perdidos. Então, muitas vezes a gente encontra um certo tipo de preconceito em relação a isso. A gente convida padres para vir aqui, mas não conseguimos”. Em 2021, a capela sofreu um dos momentos mais difíceis de sua história. Criminosos invadiram o espaço e furtaram objetos litúrgicos e equipamentos de som. Na época, o prejuízo foi estimado em cerca de R\$ 6 mil. “A tesoureira não conseguia falar e (ficou) apontando para o Santíssimo. Quando olhei para a capela do Santíssimo, o sacrário não estava lá. Fiquei apavorado. Não lembrei das outras coisas, mas sim do sacrário. É onde está Jesus. Então, fiquei desesperado”. Mesmo diante das dificuldades, Araújo afirma que a união da comunidade permitiu recuperar o que havia sido perdido. “Quando a gente precisa, todos se unem e fazem a diferença”. Visita ilustre, pagode gospel e muitas histórias para contar Ao longo dessas sete décadas, o espaço também recebeu uma visita inesperada. Após acompanhar o empate sem gols entre Inglaterra e Costa Rica, durante a Copa do Mundo de 2014, o príncipe Harry visitou a Cota 200. Na ocasião, conheceu o sistema de monitoramento e previsão de riscos da Serra do Mar e passou pela Capela São Pedro. Segundo integrantes da comitiva na época, foi o próprio príncipe quem demonstrou interesse em conhecer a região. Príncipe Harry visitou a Cota 200 em 2014 e conheceu a Capela (Reprodução/TV Tribuna) “Ele até plantou uma árvore acima da capela, mas foi uma passagem rápida. Algumas pessoas da comunidade fizeram comida para ele. Nossa, foi um dia de bastante alegria, nem acreditamos. Porque a gente não consegue trazer gente nem de Santos, quem dirá de fora do país”, relembrou o ex-coordenador da capela, Felipe Araújo Gonçalves. Pagode na igreja? Em busca de atrair todos os públicos, o espaço também conta com o pagode gospel, que mistura ritmos de samba e pagode com letras de adoração e vem conquistando espaço entre os fiéis. Araújo é um dos fundadores. “Em nossas festas de São Pedro não tínhamos ninguém, nem havia dinheiro para contratar ninguém. Aí, eu e meus irmãos, que fomos criados no meio do pagode, resolvemos tocar”. Sete décadas depois da inauguração, a Capela São Pedro continua representando muito mais do que um espaço de celebração religiosa. Cercada pela Mata Atlântica e distante do movimento da cidade, permanece como um símbolo da identidade da comunidade da Cota 200, preservando tradições, fortalecendo os laços entre os moradores e a fé, que resiste ao tempo.