Associação oferece acolhimento, orientação e resgate da autoestima (Divulgação) O cabelo é, para muitas mulheres, muito mais do que uma questão de aparência. É parte da identidade, da autoestima, da maneira como se reconhecem diante do espelho. Por isso, quando o diagnóstico de câncer chega e o tratamento provoca a queda dos fios, uma batalha física e emocional é travada, tanto para quem recebe o diagnóstico quanto para familiares e pessoas próximas. Em 2014, a cabeleireira Kátia Maria Silva recebeu uma notícia que mudaria a maneira como enxergava o próprio trabalho. Uma das clientes dela, a artesã Lucimar Rodrigues, havia sido diagnosticada com câncer de mama e precisaria deixar os cabelos curtos antes de raspar os fios durante o tratamento. Ao ouvir a notícia, Kátia não conseguiu se conter. “Ela me disse que estava com câncer de mama, que eu iria cortar o cabelo dela curto e depois ia raspar. Quando ela saiu, desabei... Comecei a chorar. Não estava preparada para isso.” Há 34 anos à frente de um salão na Vila Nova, em Cubatão, Kátia conta que a reação foi espontânea. Lucimar havia recebido o diagnóstico com tranquilidade. Ela descobriu um nódulo na mama esquerda durante um autoexame feito em casa e, após os exames, confirmou a doença. “Kátia ficou muito triste, tensa. Não queria cortar meu cabelo. As pessoas ficaram preocupadas com a situação. E ela foi uma dessas”, contou Lucimar. Depois de atender a cliente, Kátia decidiu procurar uma forma de ajudar a artesã e amiga. Foi quando buscou orientação no Instituto Neo Mama, em Santos. “Conversei com a ex-presidente, Gilze (Maria Francisco), que me explicou que poderia separar mechas de cabelo com pelo menos 15 centímetros e que poderia trabalhar com perucas.” Kátia Silva criou associação após atender cliente diagnosticada (Divulgação) Foi a partir daquele primeiro atendimento que a cabeleireira resolveu criar a Associação Mulheres Fantásticas Guerreiras, também na Vila Nova. A entidade busca acolher mulheres, fortalecer a autoestima e oferecer apoio, especialmente, àquelas que enfrentam o câncer de mama ou vivem em situação de vulnerabilidade social. Com o apoio de amigas e parentes, a iniciativa cresceu e ampliou as atividades. Atualmente, a associação atende 60 mulheres afetadas pelo câncer, com ações de acolhimento, orientação e resgate da autoestima. O trabalho inclui acompanhamento psicológico, atividades comemorativas, palestras educativas e encontros de conscientização. A associação também organiza bazares de empreendedoras locais e promove debates sobre temas como a Lei Maria da Penha e o combate à violência contra a mulher. São arrecadadas mechas de cabelo para fazer perucas para as mulheres. Para Kátia, manter as mulheres ativas e próximas umas das outras também faz parte do processo de acolhimento. “Essas mulheres têm que ter uma ocupação, alguma coisa. Seja dança ou artesanato”, afirmou. Onde fica O atendimento é prestado na sede da associação, na Rua Treze de Maio, 417, na Vila Nova. Para participar, as interessadas devem se cadastrar no WhatsApp (13) 99601-4015. Lucimar: persistir é fundamental (Divulgação) Força para encarar Lucimar Rodrigues é uma das que reconhecem a importância desse cuidado. Durante o tratamento, encontrou na cabeleireira apoio que ia além dos serviços de beleza. “Ela sempre cuidou de mim. Amarrava meus lenços, fazia maquiagem e passava muita força. Apesar disso, sempre disse que eu dava força para ela”, contou. A disposição de Kátia para ajudar outras pessoas tem raízes também na própria família. A mãe dela, Rosa Amélia Pinto Almeida, morreu em 2011, vítima de câncer de intestino. Deixou uma lição que a filha leva para a vida: a importância de fazer o bem ao próximo. “Minha mãe tinha um coração muito bom e sempre ajudava as pessoas.” Mas o mais importante, independentemente do diagnóstico, é nunca desistir. “(A doença) Nunca será uma sentença de morte. Somente mais uma adversidade da vida. Perdi meus cabelos, fiz mastectomia total (retirada total da mama). Mas nunca perdi minha alegria de viver”, disse Lucimar.