[[legacy_image_109142]] Nem todos os internos que praticam atos infracionais têm como justificativa ajudar a família, como muitas pessoas podem pensar. Os apelos do consumo predominam, em uma faixa etária em que ter bens materiais é sinônimo de status e poder. “Fui pela ilusão de ganhar dinheiro, comprar minhas coisas, sem depender da minha mãe. Eu pegava o dinheiro e comprava as coisas que a minha mãe não tinha condição de me dar: tênis, roupa, boné, chinelo”, diz um dos internos, de 15 anos, ouvido por A Tribuna. De comunidade pobre da região, o jovem diz que a entrada no universo do tráfico aconteceu de ‘forma natural”, mas que não precisava ajudar a família. “No lugar onde moro é comum ter tráfico, ter gente oferecendo o trabalho pra gente. Aí fui crescendo vendo isso, meus amigos todos vendem droga também. E eu queria comprar as minhas coisas. A gente ganha dinheiro, e aí quer ganhar mais dinheiro ainda”, diz o jovem, internado na unidade de Guarujá, onde o tráfico representa 6% das internações, e o roubo, 91%. ValoresOutro detalhe que chama a atenção é o dinheiro que os meninos ganham vendendo drogas: de R\$ 300,00 a R\$ 800,00 por dia, dependendo de quantas horas estejam disponíveis para o trabalho. “Eu trabalhava das 8 da noite às oito da manhã. É o melhor horário, porque as pessoas vêm comprar nesse horário. Rende mais”, diz outro interno, prestes a completar 18 anos. Para Natália Cristina Torres Antônio, juiza auxiliar da Vara da Infância e Juventude em Santos, os valores pagos pelo tráfico ou mesmo pela participação em roubos são o principal motivo para que muitos acabem retornando a essa vida após cumprirem medidas socioeducativas na Fundação Casa. “Em curto prazo, é difícil competir com o tráfico. Se eles encontram um trabalho simples, que pague um salário mínimo por mês, é muito menos do que ganhavam traficando”, diz. Para ela, é possível, sim, “trazer o adolescente de volta”, mas com esforço e programas sociais permanentes e eficientes. “Ele precisa ser convencido que a vida no crime não vai levá-lo a lugar algum, e que ele vai passar a vida se arriscando. A diferença toda está na estrutura que esses jovens recebem, ou na falta dela. E por isso o foco deve ser a formação, a educação em tempo integral e toda atividade que tire ele do tempo livre, do ócio”. Tráfico faz assistência nas comunidadesNas comunidades carentes há, também, o que Josy Caetano de Almeida, pós-graduanda em Ciências Criminais pela Universidade de São Paulo (USP), chama de ‘tráfico assistencial’. Segundo a universitária, também formada em Comunicação e Direito pela UniSantos, essa é a forma como os traficantes que agem nas comunidades carentes conquistam o público. “Há uma naturalização do tráfico. E eles ajudam a comunidade atendendo necessidades básicas”, diz. Estudiosa do assunto há anos, Josy acredita ser possível mudar essa realidade por meio de programas sociais, esportivos e culturais nessas comunidades, para que outros valores e outras referências sejam apresentadas aos jovens. “O índice de reincidência de jovens que passam por medidas socioeducativas é bem menor que os adultos que saem no sistema penitenciário. Ou seja, é possível, sim, resgatar esses jovens. Vale a pena fazer isso”. PandemiaOutro alerta feito pela pós-graduanda é em relação aos efeitos da pandemia que, segundo ela, só serão sentidos daqui cinco ou seis anos. Josy acredita que, nesses 20 meses de pandemia, muitos adolescentes tenham deixado de frequentar a escola, ainda que virtualmente. “E eu estou falando de crianças de 11, 12 anos. Mas o efeito disso sentiremos mais tarde, porque eles, em geral, só serão apreendidos por atos infracionais quanto tiverem 15, 16 anos”.