Aos 8 anos, Bento é apaixonado por matemática, programação, tecnologia e astronomia (Arquivo Pessoal/Helen Medeiros) Por trás das mais de 15 medalhas conquistadas em Olimpíadas Científicas, existe uma rotina de desafios enfrentados diariamente por Bento Medeiros Versuti, de 8 anos, morador do Jardim Imperador, em Peruíbe. Com QI de 134 e percentil de 99% (índice que o coloca acima de 99% da população), o menino se destaca em áreas como matemática, astronomia e tecnologia, enquanto seus pais lutam para garantir um atendimento educacional adequado às suas necessidades. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! A mãe, a psicóloga Helen Medeiros Versuti, de 40 anos, afirma que a maior dificuldade continua sendo fazer com que as escolas reconheçam e coloquem em prática os direitos assegurados aos estudantes com altas habilidades e superdotação. “A maior dificuldade é que as escolas aceitem fazer essas adaptações necessárias e façam o plano educacional individualizado que a criança superdotada e neurodivergente tem direito. Na maioria das vezes existe uma resistência muito grande”, relata. Segundo ela, a primeira escola frequentada por Bento, quando tinha 4 anos, não aceitava sua condição e não realizava adaptações, mesmo diante dos laudos apresentados pela família. Hoje, embora estude em outra instituição, a situação ainda está distante do esperado. “Ele não possui um plano individualizado, que é um direito da criança superdotada. Infelizmente, essa é a realidade da maioria dessas crianças”, afirma. O abandono invisível Para Helen, a falta de atendimento especializado provoca aquilo que especialistas chamam de 'abandono invisível'. “A escola não oferece os desafios necessários e a criança acaba desmotivada. Ela deixa de produzir e aprender porque o ambiente não estimula seu potencial”, explica. Os impactos vão além do desempenho escolar. A mãe destaca a chamada assincronia do desenvolvimento, característica comum em pessoas com altas habilidades. “Hoje o Bento tem 8 anos, mas cognitivamente está próximo dos 12. Emocionalmente, porém, continua sendo uma criança de 8 anos. Quando faltam estímulos e acolhimento, isso afeta diretamente o comportamento e o bem-estar emocional.” Segundo ela, problemas como ansiedade e depressão podem surgir justamente pela ausência de preparo das instituições para lidar com esses estudantes. “Esse atendimento especializado é um direito respaldado pela legislação, mas ainda vemos muitas crianças sendo negligenciadas porque isso não é colocado em prática.” Além da sala de aula Para suprir as lacunas encontradas no ensino regular, a família investe em atividades complementares no contraturno, por meio da Amplexo Educação. “Compreendemos o quanto o enriquecimento curricular é necessário para o bem dele. Antes, ele buscava conhecimento sozinho, assistindo a canais educativos porque queria entender mais sobre determinados assuntos. Hoje, esse complemento é essencial”, conta a mãe. A rotina familiar também foi reorganizada em função das necessidades acadêmicas do filho. “Nós organizamos nosso tempo em torno do que ele quer e precisa estudar. Além da dedicação diária, existe um investimento financeiro importante, já que muitas Olimpíadas são pagas e algumas competições internacionais podem custar mais de R\$ 1.500 por etapa.” O pai, Gabriel Medeiros Versuti, de 31 anos, diretor de marketing, afirma que a família assumiu funções que deveriam ser desempenhadas pela escola e pelo poder público. “A parte acadêmica é algo que trabalhamos todos os dias para compensar o que a escola não fornece. Muitas vezes, a adaptação se resume a oferecer tarefas um pouco mais difíceis, sem considerar aquilo que ele já domina ou os conteúdos que realmente poderiam estimulá-lo”, avalia. Ele também relata dificuldades no acesso aos serviços públicos especializados. “Conseguimos terapia ocupacional pelo município, mas depois de alguns meses houve muita dificuldade para agendar as sessões. Existe uma inconsistência que prejudica a continuidade do atendimento.” Bento à esquerda, a mãe, Helen, o pai, Gabriel e ao meio, o irmão mais novo de Bento, Otto (Arquivo Pessoal/Helen Medeiros) Desafios que inspiram Apaixonado por matemática, programação, tecnologia e astronomia, Bento mantém uma rotina de estudos que vai além das aulas tradicionais. “Eu gosto das Olimpíadas de matemática porque têm muitos desafios”, conta. Entre as conquistas favoritas, ele destaca a medalha de ouro na Olimpíada Brasileira de Astronomia e Astronáutica e uma premiação internacional de matemática. Na escola, porém, sente falta de conteúdos mais estimulantes. “Eu gostaria que tivesse coisas mais difíceis”, resume. Os planos para o futuro já estão definidos. “Quero ser engenheiro civil ou astronauta. E ainda quero participar e ganhar algumas Olimpíadas fora do Brasil”, afirma. Mudança esperada por milhares de famílias A nova política nacional voltada aos estudantes com altas habilidades e superdotação representa, para a família, a esperança de mudanças concretas. “Ela tira o desenvolvimento dessas crianças da dependência da sorte ou das condições financeiras da família. Espero que a identificação precoce e o atendimento especializado finalmente aconteçam na prática”, diz Helen. Segundo ela, a ausência de profissionais capacitados ainda é uma realidade em muitos municípios. “Aqui mesmo já me disseram para desistir porque não existe o teste nem um profissional que faça essa avaliação.” Para a psicóloga, o maior legado da legislação pode ser o sentimento de pertencimento. “Quem sabe essas crianças não precisem mais se apagar para caber no sistema.” Conhecimento e vivências Além da rotina de estudos e das competições acadêmicas, Bento e sua família compartilham o dia a dia por meio do perfil @falabentopodcast no Instagram. O espaço reúne conteúdos sobre superdotação, desafios da inclusão e experiências vividas por crianças com altas habilidades e seus responsáveis. A iniciativa surgiu como uma forma de trocar informações e dar visibilidade a uma realidade que, segundo os pais, ainda é pouco compreendida pela sociedade e pelas instituições de ensino. O perfil também funciona como um ponto de encontro para outras famílias que enfrentam dificuldades semelhantes na busca por atendimento especializado e adaptações escolares. Por meio das publicações, Bento divide algumas de suas paixões, como matemática, astronomia, tecnologia e Olimpíadas Científicas, mostrando que a curiosidade e a vontade de aprender fazem parte de sua rotina desde muito cedo.