[[legacy_image_181682]] De 3 a 15 de junho de 1992, o mundo parou para balanço. Todos os olhos do planeta se voltaram para o Rio de Janeiro, onde 175 chefes de Estado se reuniram para discutir o que seria do futuro próximo e da economia do planeta frente aos desafios ambientais que começaram a ganhar proporção, como as mudanças do clima, a escassez de água em alguns países, a crise energética que já se colocava, a devastação das florestas. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! A Conferência Internacional da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre Meio Ambiente, também chamada de Eco-92 ou Cúpula da Terra, está completando 30 anos neste mês. No Dia Mundial do Meio Ambiente, comemorado hoje, A Tribuna ouviu especialistas, ambientalistas e pesquisadores que acompanham as questões que foram pauta daquele encontro, e analisam o que mudou de lá para cá, quais são os avanços e novos desafios que se impõem ao planeta. Estocolmo, 50 anosO ambientalista Fábio Feldmann, um dos maiores especialistas em mudanças climáticas do País, era deputado federal em 1992 e chefiou a delegação parlamentar brasileira na conferência da Eco-92. Feldmann destaca que as primeiras discussões sobre desmatamento na Amazônia surgiram 20 anos antes, na Conferência de Estocolmo (Suécia), em junho de 1972, a primeira realizada pela ONU para debater uma agenda ambiental de forma global. Três temas formavam a base da Eco-92, lembra Feldmann: a Agenda 21 (instrumento de planejamento para a construção de sociedades sustentáveis), a convenção para o clima e a biodiversidade. Mas o ambientalista destaca como ganho do encontro do Rio a abertura das portas para que a sociedade civil participasse. “A sociedade não tinha voz”. Fábio Feldmann diz que, 30 anos depois da conferência, houve um ganho significativo em termos de consciência ambiental, até do setor empresarial e de governos, mas ainda falta muito. “Veja a questão do desmatamento, a perda da biodiversidade, a poluição dos rios, só para dar um exemplo do Brasil”. Aos desafios de 1992 que ainda existem hoje, o ambientalista acrescentaria mais um: debater os oceanos. Cosnciência e atitude“São momentos de mundo bastante diferentes. Em 92, logo após o fim da Guerra Fria, as agendas ambientais reunidas no Rio trabalhavam em um cenário de que seria possível que o século 21 fosse de prosperidade e paz, sem enfrentamentos bélicos. E como a agenda ambiental era global, ensejava um espírito de solidariedade e cooperação”, lembra o professor Fernando Rei, do Doutorado em Direito Ambiental da Universidade Católica de Santos (UniSantos). “Hoje, não temos esse espírito de cooperação. Tivemos retrocesso nas expectativas de que a agenda ambiental seria capaz de construir um futuro mais justo e inclusivo”. Trinta anos depois, Rei coloca: “A sociedade está disposta a dar sua contribuição para que tenhamos um mundo mais sustentável?” Ele acredita que existe, sim, essa consciência, mas não a tomada de atitudes. AgendaO professor acrescenta que um dos desafios que se impõem nestes 30 anos pós-Eco-92 é a sociedade entender que as questões ambientais não são “da agenda exclusiva dos governos, mas de todos, de cada cidadão”. O melhor exemplo para demonstrar essa certeza, diz, é a definição, pela ONU, da Agenda 2030, com os 17 objetivos do desenvolvimento sustentável (ODS). “Podemos ali escolher uma, duas, três metas que possamos alcançar”. A mesma opinião é compartilhada pelo professor Ronaldo Christofoletti, da Unifesp-Baixada Santista. “Nenhum setor vai resolver os problemas que temos de forma isolada. O processo é junto, não tem outra forma”, observa o professor, que também insere o debate sobre os oceanos entre as pautas mais relevantes da atualidade. Christofoletti é representante da Unesco no Brasil para a Década dos Oceanos, criada pela ONU em 2021. “Hoje, a sociedade civil está bastante organizada e mobilizada. Todos os setores já entenderam que são parte do que chamamos de meio ambiente”. Desenvolvimento sustentávelAndré Ferretti, gerente sênior de Economia da Biodiversidade da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza e membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza (RECN), lembra que a Eco-92 estava em busca de um modelo de desenvolvimento que considerasse as questões ambientais, no que depois começou a ser chamado de desenvolvimento sustentável. “Até o final dos anos 80, ninguém falava sobre isso. Hoje, evoluímos muito nesse conceito”, diz. Ferretti vê como positivas várias ações que decorreram da conferência, como os tratados de clima e os pactos mundiais assinados pelos países. “É fato que essas questões evoluíram, se popularizaram e ganharam espaço nos debates, mas muito aquém do necessário”. “Naquele momento, parecia distante o século 21. Passou super-rápido, já estamos falando em metas para 2050 e 2100. E por quê? Porque estamos muito distantes daquilo que foi consenso como primordial na Eco-92. Fomos protelando”. O especialista, que é engenheiro florestal por formação, lamenta que o mundo “já esteja em um nível onde é necessário adotar medidas de adaptação a um cenário que parecia muito distante em 92”. Outro ponto que André Ferretti destaca diz respeito à antiga ideia de que, no Brasil, jamais faltariam recursos naturais, jamais seria atingido por catástrofes antes vistas em outros países. “Hoje, há uma consciência de que não é bem assim. Além disso, a demanda por recursos naturais cresceu. O estilo de vida exige mais consumo”. Perguntado sobre quais seriam, hoje, as pautas de uma nova versão da Eco-92, o especialista destaca as mudanças climáticas como primordiais. “Se naquela época se discutia reduzir as emissões de gases de efeito estufa, hoje o desafio é zerar, é carbono zero”, ressalta. A boa notícia, diz, tem sido o surgimento de negócios novos, especialmente na área da tecnologia, que ajudam as pessoas e as empresas a seguirem por esse caminho da sustentabilidade. “As empresas demandam por isso. A sociedade também. É uma questão de necessidade, de urgência”.