As companhias aéreas também estão querendo estar em sintonia com as práticas ESG (AdobeStock) As companhias aéreas também estão querendo voar em céu de brigadeiro quando o assunto é estar em sintonia com as práticas ESG. Segundo a cientista social e política com especializações em ESG, Camila Diniz, a adoção de iniciativas nesse caminho tem se consolidado como um caminho não apenas necessário, mas estratégico, impactando diretamente a experiência de quem trabalha e de quem viaja. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! “Em um setor em constante transformação, onde os impactos do presente exigem respostas rápidas e eficazes, a implementação de práticas ESG se tornou um imperativo. O futuro da aviação está intimamente ligado à capacidade do setor de operar com responsabilidade, integridade e consciência, garantindo que tanto as companhias aéreas quanto os aeroportos estejam preparados para os desafios de um mundo cada vez mais atento à sustentabilidade e à ética”, afirma. O setor aéreo, historicamente marcado por um alto impacto ambiental, tem sido pressionado a repensar suas operações, buscando soluções que vão além do cumprimento de regulamentações, observa a especialista. Investimentos em frotas mais eficientes, o uso de combustíveis sustentáveis e alternativas para compensar emissões são algumas das iniciativas que, quando implementadas de forma consistente, podem contribuir para uma significativa redução da pegada ambiental do setor. “Essa postura reflete não apenas uma resposta aos desafios climáticos, mas também um compromisso crescente com a sustentabilidade, algo que tem se tornado cada vez mais importante na percepção dos consumidores, cada vez mais exigentes e atentos ao comportamento das marcas com as quais interagem”, explica. Bem-estar e governança Ao mesmo tempo, comenta Camila, as companhias aéreas estão cada vez mais atentas ao bem-estar de seus funcionários, o que se reflete diretamente na qualidade do atendimento ao público. A criação de ambientes de trabalho mais seguros, igualitários e motivadores impacta positivamente a experiência dos passageiros, especialmente em momentos críticos como atrasos ou cancelamentos. [/TEXTO] “Nessas situações, o cuidado com os consumidores passa a ser um reflexo de uma cultura organizacional que valoriza o respeito, a empatia e o acolhimento. Esse tratamento, muitas vezes negligenciado em momentos de crise, tem se mostrado um fator determinante na construção e fortalecimento da reputação das empresas”, argumenta. Diante disso, a governança, por sua vez, se torna o alicerce que sustenta todos esses compromissos, garantindo que as práticas adotadas sejam consistentes e duradouras, analisa a cientista social e política. “Transparência, ética e responsabilidade nos processos são fundamentais para assegurar a credibilidade das empresas diante de seus públicos, sejam eles passageiros, investidores ou reguladores. Essa integridade na gestão é o que diferencia as companhias comprometidas de iniciativas pontuais e superficiais, tornando a adoção de práticas ESG não apenas uma resposta a pressões externas, mas um diferencial estratégico e sustentável”, afirma. A especialista finaliza argumentando que a adoção de uma abordagem ESG é reconhecer que o futuro da aviação depende da capacidade do setor de operar com uma visão integrada de responsabilidade ambiental, social e institucional. “Em um cenário dinâmico e desafiador, onde os consumidores estão mais exigentes e as questões do presente exigem ações rápidas e eficazes, essa postura não é apenas desejada, mas essencial para a sustentabilidade e o sucesso a longo prazo”, projeta. Cumprimento de metas climáticas encontra obstáculos Reconhecidamente um dos mais desafiadores do ponto de vista ambiental, o setor aéreo precisa se adaptar às urgentes metas climáticas e às exigências de neutralidade de carbono, lembra a cientista social e política com especializações em ESG, Camila Diniz. “Embora muitas companhias aéreas já tenham incorporado o compromisso com a redução de emissões em seus discursos, a execução efetiva ainda encontra obstáculos, como as limitações tecnológicas e a alta dependência de combustíveis fósseis”, afirma. No entanto, investimentos estão sendo direcionados para a modernização das frotas, a otimização das rotas e, principalmente, para o desenvolvimento de combustíveis sustentáveis de aviação (SAF), uma alternativa promissora para a descarbonização do setor. Apesar disso, as estimativas da Iata (International Air Transport Association, em português, Associação Internacional de Transporte Aéreo) indicam que, até 2025, o SAF representará menos de 1% do total de combustível utilizado globalmente. Trata-se de uma condição que destaca a necessidade urgente de ampliar a escala de produção e de estabelecer parcerias entre governos, indústrias e investidores para garantir a viabilidade dessa transição. A Iata é uma entidade global que reúne as companhias aéreas, ajudando a definir normas, políticas e melhores práticas para o setor, além de promover a cooperação entre as empresas aéreas e garantir que as operações sejam seguras e eficientes. “Além disso, estudos apontam que, em mercados como o europeu, as emissões do setor aéreo podem ultrapassar os níveis pré-pandemia ainda este ano, o que coloca em risco o cumprimento das metas climáticas de médio prazo”, completa a especialista. Empresa aérea tem iniciativas variadas O gerente de Sustentabilidade e Governança da Azul Linhas Aéreas, Filipe Alvarez, afirma que uma ampla gama de práticas ESG já está incorporada na estratégia da empresa de forma concreta e articulada com o negócio principal da aviação. No pilar ambiental, uma das iniciativas mais relevantes da Azul, de acordo com o gerente, foi a definição e aprovação de metas de descarbo-nização de longo prazo pela SBTi (Science Based Targets initiative). “Foi a primeira companhia aérea do mundo a conquistar esse reconhecimento. Isso demonstra o compromisso real da empresa com a redução de emissões, indo além de discursos teóricos. A Azul também tem investido em combustíveis sustentáveis de aviação (SAF), tanto por meio de atuação junto ao governo brasileiro — como na construção da Lei do Combustível do Futuro — quanto no apoio à criação de um mercado nacional”, lista. Outra frente ambiental da Azul, lembra Alvarez, é a modernização de frota com aeronaves mais eficientes, como os Airbus A320neo e os Embraer E2, que emitem menos CO2 por assento. “Além disso, a empresa oferece a clientes corporativos um serviço de cálculo e compensação de emissões, com a venda de créditos de carbono de alta integridade, ampliando sua atuação para além de sua operação direta”, completa. No aspecto social, o gerente argumenta que a Azul se destaca pelo investimento em sua malha para dar conectividade com regiões remotas, contribuindo para a inclusão social e o desenvolvimento econômico local, algo que, segundo o gerente, poucas empresas conseguem fazer em escala nacional. “Um exemplo concreto é o programa Movimento Ara - Todas as Amazônias Sob o Mesmo Céu, que além de promover a sociobioeconomia amazônica, já transportou mais de 90 toneladas de produtos de comunidades tradicionais para centros consumidores, gerando renda e reconhecimento para essas populações”. “Para se ter uma ideia, se forem somadas as áreas de preservação apoiadas pelos projetos e iniciativas do Movimento Ara, o total ultrapassa 10 milhões de hectares (o equivalente ao tamanho de Portugal)”, lembra Alvarez. “Internamente, a Azul investe em programas de valorização dos tripulantes, como treinamentos em liderança, programas de bem-estar físico e mental, e políticas de diversidade e inclusão, especialmente no que diz respeito à equidade de gênero e oportunidades para pessoas com deficiência”, detalha. No campo da governança, a Azul estruturou sua área de Governança e Disciplina de Gestão, com foco em antecipação de riscos e geração de valor, explica Alvarez. “A empresa estabeleceu comitês temáticos internos e atua de forma ativa em fóruns nacionais e internacionais, sendo voz relevante na formulação de políticas públicas para a aviação sustentável”, afirma. Além disso, a Azul foi premiada por duas vezes consecutivas como a companhia aérea mais sustentável do Brasil no ranking da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac, com o prêmio Sustentar), e conquistou o segundo lugar no prêmio da Associação Brasileira das Companhias Abertas (Abrasca) pelo melhor relatório de sustentabilidade. “Isso demonstra robustez nos seus processos de reporte (comunicar informações, dados ou resultados de forma clara e concisa) e transparência em 2023 e 2024”, afirma. Desafios significativos Apesar dos avanços, Filipe Alvarez afirma que os desafios para o setor ainda são significativos. “O principal deles é o custo elevado e a baixa disponibilidade de SAF no Brasil, o que dificulta a escalabilidade da descarbonização. Além disso, há dificuldades regulatórias, especialmente em relação ao licenciamento ambiental em aeroportos e à fragmentação das políticas públicas relacionadas à compensação de carbono e à tributação verde”, explica.