Representante de comitê exemplifica que nem todo medicamento usual é adequado para tratar negros (Ascom/Secretaria de Saúde de Salvador) “O meu cabelo não é opinião médica”, afirma Gabriela Carvalho, de 23 anos. Ela é estudante de Psicologia e uma das representantes do Coletivo Dona Ivone Lara da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! “Fui ao médico com dores no pescoço, e ele me disse que podia ser pelo peso do meu cabelo. E isso é uma opinião dele, um preconceito mesmo”, reforça ela. Apesar dos avanços nas garantias de direitos, a comunidade preta ainda é alvo constante de atos discriminatórios em segmentos da sociedade, inclusive na área da saúde. “O racismo começa com a falta de preparo do profissional no atendimento à pessoa preta”, complementa a também estudante de Psicologia e representante do Coletivo Dona Ivone Lara na instituição, Rayssa Batista, de 20 anos. “A formação de médicos, biomédicos e enfermeiros ainda é muito embranquecida. Estamos acostumados a ver sempre o corpo branco nos materiais de estudo, e isso influencia a falta de uma visão de cuidado com o outro corpo”, considera. Equidade no SUS Thayana Evangelista é membro do Comitê de Saúde Integral da População Negra de Santos. Criado há um ano, o comitê técnico, ligado à Prefeitura, visa a formular políticas públicas para promover equidade no acesso ao SUS e contra o racismo institucional. A profissional citou como exemplo a hipertensão, doença comum em pessoas pretas. Thayana destaca que nem todos os medicamentos usuais contra essa doença são adequados ao tratamento dessa população. Ela destacou o papel do comitê, que tem buscado uma equipe de profissionais de saúde para garantir uma rede qualificada para necessidades, projetos e campanhas a esse público. “Temos que tratar como diferente o diferente, para o tornarmos igual.” O secretário de Saúde de Santos, Fábio Lopez, destacou a importância do grupo. “O atendimento adequado deve considerar fatores genéticos, sociais e ambientais que podem trazer o agravamento de doenças.” Há necessidade de entender a questão Entre as especificidades da população negra, o coordenador de Promoção à Igualdade Étnica e Racial de Santos, Ivo Evangelista, cita a anemia falciforme. “Devemos buscar pessoas que já estejam intrinsecamente ligadas ao que é inerente à população negra, para que nós possamos efetivamente avançar com os protocolos que são importantes para essa comunidade”, comenta o coordenador. Saúde mental Outra questão consiste na saúde mental. Evangelista observa que 55% dos suicídios no Brasil entre 2012 e 2016 foram de jovens pretos, conforme dados do Sistema de Informação sobre Mortalidade do Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde (SUS) do Ministério da Saúde. Segundo o coordenador, a discriminação e a baixa autoestima desses jovens fortalecem os estigmas e desencadeia problemas psicológicos, devido às vivências e ao estresse do dia a dia. Incidência maior “Em comparação a pessoas brancas, nós temos uma incidência maior de sífilis, tuberculose, pressão alta, glaucoma e miomas. E, em 2021, 60% das pessoas que morreram com aids eram pretas. Isso mostra como ainda há um fator diferenciado nesse atendimento”, enfatiza o coordenador Ivo Evangelista. “Isso, obviamente, é resultado do racismo que acomete o nosso País”. De acordo com o Censo 2022, a população negra em Santos é de 28.016 pessoas. *Reportagem feita como parte do Projeto Laboratório de Notícias A Tribuna - Unisantos sob supervisão da professora Lidiane Diniz e do diretor de conteúdo do Grupo Tribuna, Alexandre Lopes