[[legacy_image_316311]] Mais de 160 nações estão representadas, desde quinta-feira (30/11), em mais uma conferência mundial do clima promovida pela Organização das Nações Unidas (ONU): a COP 28, que acontece em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, até dia 12. No centro das discussões, duas abordagens principais: como reduzir as emissões de gases de efeito estufa — que comprometem a camada de ozônio e impactam o clima — e como será o fundo de recursos para ajudar os países pobres a enfrentar as mudanças climáticas existentes. Já faz tempo que as alterações no clima deixaram de ser um debate apenas entre lideranças mundiais, porque já vêm sendo sentidas pela população de todos os países, tanto em ondas de calor extremo quanto no regime de chuvas mais intenso, secas e tempestades jamais registradas em algumas cidades. Neste ano, os picos de calor, antes mesmo do início do verão, já chegaram a 42 graus em São Paulo, com sensação térmica superior a 45. Os municípios da Baixada Santista não estão isentos dessa trajetória de elevação das temperaturas e podem ser ainda mais impactados por estar localizados na costa brasileira, com influência direta do aquecimento dos oceanos e regime de chuvas diferenciado. Diante desse cenário, especialistas e pesquisadores alertam: a região precisa criar mecanismos de proteção e de resiliência climática, adotando, preferencialmente, soluções baseadas na natureza (SBN). Trata-se de iniciativas que usam o próprio meio ambiente para proteger as cidades e os cidadãos de alagamentos, deslizamentos nas encostas de morros e com áreas mais frescas para combater o calor intenso. Os municípios da região já se mobilizam para instituir medidas que reduzam esses impactos. Prefeitos engajados“Estamos falando de um processo de mudanças do clima há muitos anos e, agora, elas já estão sendo sentidas”, diz Ronaldo Christofoletti, coordenador do Maré de Ciência, da Unifesp Baixada Santista, especialista em oceanos e uma das principais fontes locais para o tema. Ronaldo está em Dubai para a COP28 e entende como preocupante o estudo divulgado durante a semana, pela ONU, indicando que Santos é uma das dez cidades que podem ter 5% ou mais do território submerso pelo mar, de forma permanente. até 2050, se o atual nível de emissões de gases poluentes persistir. “Até 2050, vamos ter pelo menos mais seis prefeitos nos municípios. Então, quem são os prefeitos que querem assumir o compromisso realmente necessário?”, questiona. “Precisamos de ações que só vão surtir resultados em 10 ou 15 anos.” O professor lembra que o tema das mudanças climáticas vem ocupando espaço no noticiário desde o início do ano, quando ocorreram deslizamentos no Litoral Norte, e até agora, com chuvas intensas e ondas de calor. “Estou levando para a COP um pouco do que tem sido o noticiário no Brasil. Passamos o ano quebrando recorde de temperatura, de chuva, de elevação do oceano...” O não retornoComo pesquisador para temas relacionados ao oceano, Ronaldo Christofoletti destaca um dado pouco debatido: a temperatura média do oceano está há mais de seis meses acima da média, e ninguém previu esse fato. “Esse é um sinal de alerta muito claro. Já estão ocorrendo fenômenos que a ciência não conseguiu prever. O sinal de alerta é claro, de que o ponto de não retorno que a gente imaginava talvez esteja mais próximo do que pensávamos.” Saídas no meio ambientePara combater os efeitos das mudanças climáticas, a própria natureza pode ajudar. Esse é o conceito de um termo que vem ganhando espaço nas cidades: soluções baseadas na natureza, ou apenas SBN, que são ações que utilizam processos e ecossistemas naturais para enfrentar desafios urgentes da sociedade, como o risco de falta de água ou impactos de eventos climáticos extremos que refletem na segurança e na saúde da população: enchentes, alagamentos, deslizamentos de terra e ondas de calor, por exemplo. “Só que, para poder ter uma solução baseada na natureza, é preciso ter uma natureza preservada. É aí que ela ganha, porque entrega benefícios para a biodiversidade”, diz Juliana Baladelli Ribeiro, gerente de Projetos da Fundação Grupo Boticário, especialista em Mudanças Climáticas e Soluções Baseadas na Natureza (SBN). Antes de pensar em SBNs, é preciso entender qual é o problema a ser enfrentado, diz Juliana. “Primeiro, você entende qual é o desafio a enfrentar. Depois, escolhe qual solução adotar, porque existem muitas, e elas já vêm sendo usadas nos municípios brasileiros.” ConhecimentoA Fundação Grupo Boticário acabou de lançar a publicação Cidades do Futuro, que coloca em evidência 14 possíveis SBNs para problemas ambientais já presentes nas cidades brasileiras (veja quadro). “As mudanças climáticas só estão potencializando problemas que as cidades já enfrentavam, como os alagamentos e enchentes, ou para tratamento de efluentes, tanto urbanos como industriais.” Juliana chama a atenção para uma questão bastante evidente nas cidades da Baixada Santista, densamente ocupadas: as ondas de calor, que há duas semanas superaram 42 graus. Elas podem ser atenuadas com a implantação de corredores verdes, com espécies adequadas ao meio urbano. Ela destaca os resultados de pesquisa divulgada durante a semana sobre a percepção dos brasileiros a respeito das mudanças climáticas: oito em cada dez brasileiros estão preocupados com a mudança do clima, e 71% dos entrevistados percebem que, com o passar do tempo, os eventos climáticos extremos estão ficando cada vez mais frequentes e intensos. Porém, apenas 1% dos entrevistados sabem o que é SBN. “Mas, quando você explica o que é e como funciona, todos são favoráveis. Quem é que não quer ruas mais arborizadas, por exemplo? E essa é uma das SBNs que podem ser usadas”, compara. Algumas cidades brasileiras já se tornaram referência no uso de SBN, como Niterói (RJ), que criou o maior jardim filtrante da América Latina: uma área de 35 mil metros quadrados que recebe efluentes e contaminantes de vários lugares, trata a água por meio das raízes de plantas e encaminha a água limpa para a Lagoa de Piratininga. “Tem um caráter de inovação e transformação local que contou com o apoio dos moradores locais, o que é fundamental.” O sucesso da medida, explica a especialista, vai além da despoluição da água que chega à lagoa: pessoas de diferentes camadas sociais passaram a frequentar o parque, a biodiversidade retornou, com a volta de espécies de animais que não eram vistos há anos. Baixada SantistaPara regiões costeiras como a Baixada Santista, Juliana aconselha: é fundamental preservar o que ainda resta de ecossistemas naturais, como a restinga e os manguezais. “É certo que onde há restinga e manguezal há retenção da energia das ressacas, por exemplo, e maior proteção da infraestrutura urbana.”