Com reservatórios ou baldes no quintal, cidadãos contornam um problema que não foi gerado por eles e os afeta há, pelo menos, dois meses (Vanessa Rodrigues/AT) A falta de água nas torneiras tem atormentado moradores de cidades da Baixada Santista. As chuvas dos últimos dias podem ter dado um alento, mas a solução ainda parece distante. Assim, moradores de localidades como o Distrito de Vicente de Carvalho, em Guarujá, precisam “se virar”. Seja com pequenos reservatórios ou baldes espalhados pelo quintal, a ideia é contornar um problema que não foi gerado por eles, mas que os afeta diretamente há, pelo menos, dois meses. Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! A Tribuna conversou nesta segunda-feira (16) com moradores da Rua São Miguel, no Pae Cará. Vizinhas, cada uma com sua rotina, compartilhavam a mesma sensação: resignação diante da falta de água, que forçou mudanças de hábito. “Nossa rotina agora é essa. Acordar cedo e recolher a água, quando tem. Aí, você joga para cima (envia para uma caixa d’água), graças à utilização de bombas. Quem não tem precisa recorrer a baldes espalhados”, explica a aposentada Andréa Mesquita, de 46 anos. “A vizinha ainda me dá um suporte com água de filtro para as crianças, porque o filtro dela ainda enche. O meu não”, reforça. Rotina de Andréa é acordar cedo e juntar toda a água que puder (Vanessa Rodrigues/AT) Segundo ela, foi preciso comprar dois pequenos reservatórios, cada um com capacidade para 240 litros, para conseguir fazer a “operação” de bombeamento. O custo para driblar as falhas da Sabesp: R\$ 500,00. “No final de semana, esqueça a água por aqui. Semana passada, teve uns dias de forte calor, e ficamos sem água”, acrescenta a aposentada. Mais problemas A doméstica Regina Fortunato dos Santos, de 68 anos, não utiliza as bombas. Os baldes são as suas armas na luta contra o desabastecimento. Em um canto da casa, nada menos que sete varais de chão lotados de roupas para secar — fruto da espera pela pouca água disponível para lavagem. Regina lavou a roupa que pôde: acumulou durante desabastecimento (Vanessa Rodrigues/AT) “Tem que guardar para beber, para tomar banho, para lavar. E adianta reclamar? Dar caminhão-pipa para nós? E depois, adianta? Resolve na hora, e uma solução definitiva fica só na promessa”, queixa-se. A técnica em enfermagem Solange da Conceição Correia de Lima, que também faz uso de bombas para manter o mínimo de abastecimento, já tem outra preocupação: a conta de luz, turbinada pelo uso de energia para a solução forçada. “A gente liga a bomba, mas a conta de energia será bem alta. Se pago R\$ 200,00, vai vir o dobro”, especula, às voltas com a necessidade de manter as roupas brancas, usadas em atividades médicas, impecáveis em meio ao desabastecimento. Com bomba ligada para ter água, Solange prevê conta de luz maior (Vanessa Rodrigues/AT) O autônomo Marcos Bezerra, de 53 anos, que mora no Parque Estuário, relata que a situação melhorou ontem — mas não alivia o estresse dos últimos tempos. “Todos os dias, durante meses, era constante a diminuição da vazão da água, que começava a diminuir a partir das 18 horas e, às 22 horas, já não tinha água nas torneiras, o que só era normalizado no dia seguinte a partir das 6 horas. O pessoal, já sabendo disso, corria para encher os tanques e baldes para usar na limpeza de louça, na descarga e no consumo. Chegamos a ficar mais de 24 horas sem água”, sintetiza. E está gastando dinheiro: “Na última sexta-feira comprei R\$ 30,00 de água para beber e, no sábado, R\$ 50,00 de água para beber e lavar a louça”. Respostas Em nota, a Sabesp afirma que nesta segunda-feira (16), os níveis de reservação dos sistemas da Baixada Santista tiveram melhora devido às chuvas recentes. “No momento, a reservação está em aproximadamente 80% da capacidade total. A situação permitiu à companhia ampliar a produção e distribuição de água, mas ressalta que a regularização do abastecimento depende da normalização das chuvas”, explica. A Prefeitura, que chegou a suspender as aulas na semana passada em função dos prejuízos a atividades como preparação de refeições, higiene de crianças e serviços gerais, afirma que “as aulas presenciais na rede municipal de ensino foram retomadas” e que, “durante o último fim de semana, os equipamentos educacionais foram abastecidos de água pelos caminhões-pipa da Sabesp, após cobrança da Administração Municipal quanto à necessidade emergencial do reforço das ações por parte da empresa”.