"A internação exige tempo, paciência com esses meninos. (...) É preciso estar junto deles", diz Esaú (Alexsander Ferraz/AT) Foram 60 anos como professor universitário nos cursos de Direito, Jornalismo e Serviço Social. Mas a conversa com Esaú Cobra Ribeiro é farta de histórias e reflexões sobre uma área que foi marcante em sua vida: sua atuação como diretor do antigo Instituto Santa Emília, em Guarujá, instituição substituída pela Fundação Estadual para o Bem-Estar do Menor (Febem), que depois se transformou no que é hoje a Fundação Casa. Ribeiro nasceu em São José do Rio Pardo, no interior paulista, quis ser padre, mas, como essa opção não prosperou, foi cursar Direito na Faculdade do Largo de São Francisco, da Universidade de São Paulo (USP). Estimulado por um amigo, ingressou também na Faculdade de Serviço Social e levou os dois cursos de forma paralela. No governo de Carvalho Pinto (1959-1963), foi convidado para trabalhar no Serviço Social de Menores, quando assumiu como diretor do Instituto Santa Emília. Ali, aplicou os conceitos que defende até hoje e que implicam fazer do período de internação de jovens infratores uma oportunidade pedagógica, com paciência e insistência. Quando o instituto deu lugar à Febem, no início dos anos 1970, deixou a instituição. Continuou como professor universitário até os 80 anos, também defendendo que deveriam fazer da faculdade um propósito prático, de transformação. Há uma semana, Esaú Cobra Ribeiro completou 90 anos. Advogado, professor ou assistente social? "O que me apaixonou foi o social, no sentido de intervenção prática. O social está em todos os lugares, necessitando de ações. Veja hoje o que há de discussão sobre a população em situação de rua e a necessidade de ações práticas e efetivas para tratar essa questão. Eu fui de uma época em que se discutia muito a implantação da Febem. Lutei muito para que não viesse do jeito que veio, confinando os meninos. É preciso ter uma visão diferente para trabalhar com menor abandonado ou infrator." O que era diferente no trato com esses jovens quando o senhor foi diretor do Santa Emília? "Olha, um dia me chamaram às pressas porque eles estavam revoltados, porque também ficavam presos lá. Eu abri tudo. Acabei com as salas fechadas e transformei em salas de aula. Devidamente orientados, eles podiam sair, ir trabalhar e depois voltavam para lá." Hoje, um dos problemas enfrentados pelos jovens que saem da Fundação Casa após o período de internação é conseguir vaga de emprego. "É exatamente essa a questão, o retorno deles à sociedade. E, se o período deles de internação foi muito fechado, confinado, a chance de retornar melhor é muito menor. Eu trabalhava nesse sentido." Que ações o senhor adotava para minimizar essa situação na hora do retorno? "Muitas vezes, eu fui pessoalmente conversar com comerciantes e empresários do bairro onde o jovem infrator tinha cometido algum deslize e o convencia a abrir vaga para esses meninos. Eu dizia: ‘Agora é que o senhor precisa empregá-lo, porque ele precisa mostrar que é capaz’. O que eu quero dizer é o seguinte: o castigo tem que ser pedagógico e não uma punição pelo que fez, entende? Se ele roubou, o conceito não é que precisa ser castigado, mas recuperado, para retornar à sociedade. A internação exige tempo, paciência com esses meninos. Não é do dia para a noite que as coisas acontecem. É preciso estar junto deles. A resposta não é uma qualquer. A resposta está nos estudos que já existem sobre esse tema, nas pesquisas." Como assim? "O que eu quero dizer é o seguinte: as ações precisam se basear em estudos, em pesquisas, em dados concretos, e não em imaginação e fantasia. Qual o perfil desse jovem hoje? Por que ele está se envolvendo com o tráfico? Onde está o ponto fraco da família, da sociedade? Se você se baseia nesse conhecimento científico e sociológico, a forma de lidar com o problema se torna mais real. Não é a política pela política. Não é a caridade pela caridade. As ações precisam transformar uma realidade." O senhor foi professor universitário por 60 anos. O que de mais diferente sentiu mudar nas gerações de jovens ao longo desse tempo? "As novas gerações perderam um pouco a visão sociológica de mundo. Isso precisaria ser resgatado, mas não é o que vejo acontecer. Estamos na era da inteligência artificial, do imediatismo das coisas, mas o que esses jovens precisam é aprender a viver em sociedade." O senhor foi professor, assistente social, diretor de unidade com jovens infratores, advogado. Em qual atividade teve mais prazer profissional? "Sempre que eu conseguia estabelecer um relacionamento, sair dos livros e entrar na vida real, na vida prática. Acho que como assistente social, porque eu via resultados práticos daquilo que aplicava. Como professor também, mas sempre quis dar aos alunos a noção de que o estudo deveria levá-los a uma ação prática. Eu perguntava a eles: ‘O que você veio procurar aqui na faculdade? Você está se encontrando com o que veio procurar?’. Sempre defendi que os jovens precisam entender o que se passa ao redor deles, como a sociedade funciona. Sempre tive a preocupação de que meus alunos vivenciassem o mundo e encontrassem propósito no curso que escolheram."