<p data-end="549" data-start="0">Desafios e oportunidades ainda não exploradas. Em linhas gerais, é assim que <span class="hover:entity-accent entity-underline inline cursor-pointer align-baseline">Alexander Turra</span>, professor do Instituto Oceanográfico da USP, coordenador da Cátedra Unesco para a Sustentabilidade do Oceano e idealizador da <span class="hover:entity-accent entity-underline inline cursor-pointer align-baseline">São Paulo Ocean Week</span>, define a relação da sociedade com o oceano. Turra lidera a sexta edição do evento, que será realizada de 20 a 24 deste mês, no Memorial da América Latina, reunindo ciência, cultura, educação e sustentabilidade em um dos maiores movimentos de cultura oceânica do mundo.</p> <p data-end="549" data-start="0"><a href="https://www.whatsapp.com/channel/0029Va9JSFuGehEFvhalgZ1n">Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp!</a></p> <p data-end="761" data-start="551"><strong data-end="761" data-start="551">Professor, chegamos à metade da Década do Oceano (2021-2030). O que você acha que já caminhou bem nessa década em termos de difusão de conhecimento, ações e conscientização e o que ainda é desafio até 2030?</strong></p> <p data-end="1538" data-start="763">A Década do Oceano significa construir, experienciar, entender, viver a década. É um processo de co-construção que demanda aprendizado coletivo, troca. E isso tá acontecendo no mundo inteiro, em especial no Brasil, que é um campeão nessa agenda de promoção da cultura oceânica, porque quando a gente fala de ciência, a gente tá falando de duas coisas: conhecimento que precisa ser gerado e que não existe, e conhecimento que precisa ser compartilhado. Esses são os esforços da Década do Oceano. Um oceano produtivo, utilizável sustentavelmente só vai acontecer se ele estiver limpo, saudável e resiliente. Então, a década passou por vários momentos: de sensibilização, de envolvimento, de trazer os atores e falar, depois colocar todo mundo junto. Agora, o momento é de ação.</p> <p data-end="1700" data-start="1540"><strong data-end="1700" data-start="1540">O senhor entende, então, que a sociedade já tem conhecimento suficiente sobre o papel do oceano no equilíbrio ambiental? Por exemplo, na regulação do clima.</strong></p> <p data-end="2282" data-start="1702">Esse é um processo continuado. No ano passado, por exemplo, na Conferência das Nações Unidas sobre o Oceano, o presidente <span class="hover:entity-accent entity-underline inline cursor-pointer align-baseline">Luiz Inácio Lula da Silva</span> teve a oportunidade de fazer dois discursos de cinco minutos só falando de oceano. Isso tem um simbolismo. A gente também conseguiu colocar a temática no G20, na COP30. A gente tem essa escalada desse convencimento permeando esses movimentos multilaterais, não só na ONU, mas esses outros. Minha meta no momento é fazer um processo pedagógico junto às empresas e eu chamei esse movimento de Be To Blue, Business To Blue.</p> <p data-end="2480" data-start="2284"><strong data-end="2480" data-start="2284">Mas as pesquisas não mostram, ainda, números muito animadores para o oceano. Ele está mais quente e mais ácido. O senhor considera que essas ações possam reverter esse cenário em quanto tempo?</strong></p> <p data-end="3585" data-start="2482">Não, não é fácil mesmo, mas o caminho está dito, o que precisamos é trabalhar uma visão de país e de mundo em que se tenha muito claro o que a gente quer. E temos alguns avanços, sim. O Brasil tem hoje uma estratégia nacional, o Oceano Sem Plástico, um plano de ação nacional para combate à progressão plástica. Isso é concreto. A gente tem um tratado internacional sendo estruturado. O fato de você dialogar com a indústria plástica não significa que a questão vai ser resolvida já. Significa que a gente está incorporando diferentes visões que são importantes. O Brasil tem 12.500 empresas e 300 mil pessoas são empregadas pela indústria. A gente tem parte do PIB nacional dependendo disso, não dá para desconsiderar. O que não pode é estar lá no oceano. Temos que agir de duas formas: ações emergenciais e ações de fundo, e as duas têm que andar juntas. E a gente tem que ter um aliado importante do nosso lado, que é a sociedade. E dentro da sociedade, a iniciativa privada, que vai perder muito dinheiro e oportunidades se tivermos insegurança hídrica, energética, insegurança até de entrar no mar.</p> <p data-end="3638" data-start="3587"><strong data-end="3638" data-start="3587">E parte das cidades costeiras vive de turismo..</strong></p> <p data-end="3856" data-start="3640">Exatamente. Você imagina o turismo de sol e praia sem praia? 40% das praias brasileiras são em cidades avançadas de erosão. E aí vêm as ideias mirabolantes: vamos engordar a praia. E aí todo ano você engorda a praia.</p> <p data-end="4038" data-start="3858"><strong data-end="4038" data-start="3858">O senhor falou sobre ações emergenciais, quais seriam essas ações para uma cidade como Santos, que tem forte ligação econômica com a atividade do maior porto da América Latina?</strong></p> <p data-end="4677" data-start="4040">A conciliação é possível, sim, desde que a gente esteja convergindo para essa ideia. Então, por exemplo, não faz sentido trocar manguezal por porto. A gente tem que ter o porto como um aliado da recuperação do manguezal, porque o manguezal deu lugar ao porto no passado, ele é fundamental pra gente continuar sustentando outras atividades importantes, desde a pesca artesanal e industrial até a pesca submarina, a pesca recreativa. O porto tem que ser um instrumento de renovação do manguezal. E tem que pensar: vai precisar expandir, vai expandir pra onde? Aí tem toda uma lógica que a China já faz, que é a expansão offshore, pra fora.</p> <p data-end="4787" data-start="4679"><strong data-end="4787" data-start="4679">O Instituto Oceanográfico da USP estuda há anos a elevação do nível do mar. O que há de fato sobre isso?</strong></p> <p data-end="5885" data-start="4789">Existe um termo técnico que usamos, que é ‘nível relativo do mar’, que tem relação com diferentes fenômenos. Só para você ter ideia, isso significa que o mar pode estar subindo e o continente estar descendo. Então, há locais em que o nível relativo do mar sobe mais que outros, porque o mar está subindo de diferentes maneiras e a terra também está afundando de diferentes formas. E aí a gente tem o quê? O avanço do mar em relação ao continente, que é outra coisa, e não necessariamente tem a ver com esse movimento. É o processo de erosão costeira. E você tem as duas coisas acontecendo ao mesmo tempo. O processo de erosão costeira depende muito, hoje, dos padrões de ocupação costeira, especialmente dos espaços que são estoques de areia, como restinga e duna. E também depende do que a gente faz nos rios e como o rio perde a capacidade de trazer areia para engordar a praia. Isso é o que acontece no norte do Rio de Janeiro. O Rio Paraíba do Sul tem uma vazão menor em função do uso da água, e chega menos areia lá. Então, mais erosão. A gente tem fenômenos que ocorrem longe, longe, longe.</p> <p data-end="5923" data-start="5887"><strong data-end="5923" data-start="5887">E sobre isso pouco se fala, não?</strong></p> <p data-end="6478" data-start="5925">Exatamente. Por exemplo, o que significa construir uma barragem? Muitas vezes significa você ter praia erodindo numa cidade turística que vai perder a praia e vai ter que ficar gastando dinheiro com uma engorda que não vai funcionar, muitas vezes, se não for feito direito. A gente tem, em termos de subida do nível do mar, o segundo dado mais antigo do Hemisfério Sul. O segundo da série temporal mais longa do Hemisfério Sul tem 70 anos. E ela mostra uma subida média de 4 milímetros por ano. Parece pouco, mas e se você pensar em 10 anos, em 20 anos?</p> <p data-end="6521" data-start="6480"><strong data-end="6521" data-start="6480">E em Santos temos as ressacas também.</strong></p> <p data-end="7528" data-start="6523">É o que a gente chama de maré meteorológica, que quando vem associado com chuva muito forte, muito intensa no continente, temos a tempestade perfeita. Muita água aqui querendo vir e um monte de água aqui querendo segurar. É o que aconteceu na Lagoa dos Patos, na tragédia do Rio Grande do Sul. A Lagoa dos Patos ficou entupida, entre aspas, por conta de maré meteorológica que ocorreu no mesmo momento que a água estava querendo descer. Então, tem um alagamento maior do que aconteceria se não tivesse sentido a maré meteorológica. Então, elevação do nível do mar, eventos extremos de maior intensidade e magnitude, tudo conjugado é a tragédia perfeita, não é? A gente tem outros fenômenos que vão tirando a vitalidade, e eu chamo isso de comorbidades ambientais. E com isso a gente tem a resultante disso trazendo vulnerabilidade pra atividades humanas, pra equipamentos públicos, pra casas. A gente vai vulnerabilizando a zona costeira. É o que está acontecendo em Santos, que vai gastar muito dinheiro.</p> <p data-end="7703" data-start="7530"><strong data-end="7703" data-start="7530">O senhor diria que, por outro lado, também há um potencial que ainda não está devidamente explorado, que é o que se chama de economia azul, a economia que vem do oceano?</strong></p> <p data-end="8747" data-start="7705">Então, essa é uma abordagem importantíssima. Sem biodiversidade você não tem isso, você perde a sua oportunidade. Ou seja, uma coisa tá muito relacionada a outra. E a gente está falando de bem-estar, prosperidade, saúde, vitalidade. E quando a gente fala de economia azul, a gente tem que pensar de forma muito abrangente. Por exemplo, as empresas de saneamento são empresas de economia azul. Por exemplo Santos, onde é complicado para colocar estações de tratamento de esgoto tradicionais, tem uma solução específica para o esgoto. Porque Santos tem toda uma economia gerada a partir da praia, com gente comprando e vendendo imóveis, consumindo, usando transporte por aplicativo, tudo isso gera receita. Não dá para arriscar ter uma praia sem tratamento de esgoto. Essa geração de receita a partir da economia azul é subliminar mas fundamental, e pouca gente presta atenção. A economia da praia é a economia que vai fazer com que a Baixada Santista tenha menos violência do que ela teria se ela não tivesse a vitalidade da economia da praia.</p> <p data-end="8761" data-start="8749"><strong data-end="8761" data-start="8749">Por quê?</strong></p> <p data-end="9106" data-start="8763">Porque você tem geração e distribuição de renda de forma muito mais democrática, ainda que seja pouco dinheiro, ele está mais bem distribuído e está na periferia. Então, as pessoas conseguem, na praia, ter atividades econômicas razoavelmente dignas. Então, a economia azul é tudo isso e pra isso a gente precisa desenvolver ela de forma certa.</p>