O 3º Relatório Mundial sobre a Situação do Oceano reúne o trabalho de mais de 550 especialistas de 86 países em cinco anos (Imagem ilustrativa/Adobe Stock) Para uma região que vive de frente para o mar, abriga o maior porto do Hemisfério Sul, depende da pesca, do turismo, dos manguezais e da qualidade das praias, o novo diagnóstico da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre os oceanos traz um recado direto à Baixada Santista: os desafios estão crescendo, mas há margem para agir. O aumento do nível do mar, a poluição, as mudanças nas correntes marinhas e a perda de biodiversidade exigem planejamento no litoral de São Paulo. Ao mesmo tempo, políticas de conservação, ciência aplicada e soluções baseadas na natureza podem reduzir riscos e abrir oportunidades na economia azul. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! O 3º Relatório Mundial sobre a Situação do Oceano reúne o trabalho de mais de 550 especialistas de 86 países em cinco anos e analisa dimensões ambientais, sociais e econômicas do oceano global. Entre os pesquisadores está Ronaldo Christofoletti, professor do Instituto do Mar da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), em Santos. Ele coordenou o capítulo dedicado a praias, costões rochosos e recifes biogênicos, ambientes diretamente ligados à realidade da Baixada Santista. A participação dele envolveu a organização de uma equipe internacional de 12 pesquisadores, responsável por reunir dados globais, avaliar evidências científicas e escrever o capítulo, que passou por revisão de especialistas e dos Estados-membros da ONU antes da publicação. A Ciência e o Brasil O Brasil teve participação expressiva no relatório. Segundo o professor, o País foi o terceiro com maior número de autores, com cerca de 40 pesquisadores. A equipe brasileira também se destacou pela presença feminina, superior à média global. Na Baixada Santista, a Unifesp teve papel relevante: apesar de o Instituto do Mar ser uma unidade com apenas 14 anos, foi a segunda instituição brasileira com maior contribuição no grupo nacional e a única a coordenar dois capítulos. O relatório confirma tendências que já preocupavam cientistas, agora com números mais claros. Uma delas é a aceleração da elevação do nível do mar. A taxa global, que era inferior a 2 milímetros por ano antes de 2015, chegou a cerca de 4,3 milímetros por ano em 2023. Para cidades costeiras, esse dado não significa apenas uma mudança distante: ele interfere no planejamento urbano, na drenagem, na ocupação de áreas vulneráveis, na proteção de manguezais e na infraestrutura instalada junto à costa. Para Christofoletti, a discussão precisa sair do campo abstrato. “O dado do aumento do nível do mar e das soluções baseadas na natureza talvez seja o mais urgente para a Baixada”, afirma. Para ele, o poder local deve olhar para o relatório como ferramenta de planejamento, especialmente em políticas de adaptação climática, recuperação de áreas costeiras e proteção de ecossistemas naturais. Ronaldo Christofoletti, professor do Instituto do Mar da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), em Santos, coordenou capítulo (Silvio Luiz/AT) Saneamento O documento também aponta mudanças nas correntes marinhas, em parte associadas ao aquecimento do oceano e ao derretimento de gelo continental nas regiões polares. Essas alterações podem interferir na distribuição de espécies ao longo da costa. Na prática, organismos marinhos podem expandir ou reduzir suas áreas de ocorrência, com impactos ecológicos, econômicos e culturais. Poluição Christofoletti chama atenção para um dado novo: em quatro anos, triplicou o número de espécies registradas com microplásticos em sua composição. Há ainda a presença crescente de contaminantes como fármacos no ambiente marinho. O relatório identifica dezenas de substâncias desse tipo, um problema global que também abre espaço para questionamentos locais. Para o professor, cidades como Santos e as demais da Baixada precisam discutir se os sistemas de saneamento existentes dão conta de lidar com poluentes que não estavam no centro das preocupações quando muitas estruturas foram planejadas. “Os sistemas de coleta e tratamento de esgoto foram pensados para uma realidade, mas hoje falamos também de fármacos e outros contaminantes”. Pesca A pesca também aparece como tema sensível. O relatório mostra queda na proporção de estoques explorados de forma sustentável. Embora a redução pareça pequena em termos percentuais, Christofoletti lembra que, em escala global, 2% representam volume expressivo de recursos. “Pesca sustentável é aquela em que se retira, mas o ambiente consegue repor. Quando se tira mais do que o ambiente repõe, estamos comprometendo o futuro”. Recuperação de manguezais O documento não traz só alertas. Um dos pontos positivos é a redução da taxa de desmatamento de manguezais no mundo. Para Christofoletti, esse resultado mostra que ações de conservação funcionam quando há governança, monitoramento e áreas protegidas. Na Baixada Santista, onde os manguezais têm papel essencial na proteção costeira, biodiversidade e qualidade ambiental dos estuários, o dado reforça a importância de políticas permanentes de preservação e recuperação. Outro campo promissor é a bioeconomia azul. O relatório destaca o potencial do oceano para inspirar novos medicamentos e soluções biotecnológicas. “O oceano pode ser a nossa próxima farmácia”, resume o professor. A descoberta de moléculas e organismos marinhos capazes de inspirar novos tratamentos depende, porém, de mais pesquisa. Hoje, só 27% do fundo oceânico mundial está mapeado. Para Christofoletti, esse desconhecimento revela tanto uma limitação quanto uma oportunidade. Ele lembra que a sociedade costuma se mobilizar mais por descobertas espaciais do que por imagens inéditas do fundo do mar, embora o oceano esteja diretamente ligado à vida cotidiana. O 3º Relatório Mundial sobre a Situação do Oceano integra o Regular Process, mecanismo da ONU criado para oferecer aos governos uma base científica sobre a situação dos mares. O relatório não propõe políticas específicas a cada cidade ou país, mas funciona como referência para decisões públicas. O próximo passo, segundo Christofoletti, é fazer o documento circular entre gestores, escolas, universidades e sociedade civil. “Os países precisam olhar para a sua realidade. Devem pensar no que podem fazer melhor, seja para reduzir impactos, seja para se proteger. Esse é o parecer médico do momento do planeta”, compara. Na Baixada Santista, esse “exame” aponta temas conhecidos, mas cada vez mais urgentes: adaptação ao aumento do nível do mar, fortalecimento do saneamento, proteção de manguezais, monitoramento da poluição, gestão da pesca, educação oceânica e incorporação da ciência ao planejamento urbano.