Especialistas apontam que áreas urbanizadas da Baixada Santista, como a orla de São Vicente, estão entre as mais vulneráveis aos impactos da elevação do nível do mar e das mudanças climáticas (Davi Ribeiro / Arquivo AT) O alerta feito pela Organização das Nações Unidas (ONU) sobre o aumento do nível do mar e seus impactos nas cidades costeiras acendeu um sinal de atenção para os municípios da Baixada Santista e do resto do litoral de São Paulo. Segundo o pesquisador Ronaldo Christofoletti, professor do Instituto do Mar da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), as cidades da região não enfrentarão os efeitos das mudanças climáticas da mesma forma. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Em entrevista para A Tribuna, o especialista explicou que as cidades que preservaram seus ecossistemas naturais, como manguezais e restingas, estão em posição mais favorável para enfrentar o aumento do nível do mar. Já os municípios que urbanizaram intensamente a orla e substituíram áreas naturais por concreto tendem a sofrer impactos maiores nos próximos anos. "O mar vai avançar em direção ao continente. Onde ele encontrar manguezais, restingas ou praias arenosas, parte dessa energia será absorvida. Mas onde encontrar concreto os impactos serão muito maiores", observa o pesquisador. Para o professor da Unifesp, um dos maiores erros foi considerar que o desenvolvimento urbano significava ocupar toda a faixa litorânea. Durante décadas, áreas de manguezais, restingas e marismas deram lugar a avenidas, prédios e empreendimentos imobiliários. Agora, com a elevação gradual do nível do mar, esse modelo cobra seu preço. "O mar está retomando um espaço que sempre foi dele. A diferença é que, onde antes encontrava areia, vegetação e manguezais capazes de absorver sua força, hoje encontra concreto. Isso aumenta os processos erosivos, as ressacas e os alagamentos", explica. Segundo o pesquisador, cidades como Bertioga, Peruíbe e Itanhaém preservaram parte importante desses ambientes naturais e, por isso, apresentam condição mais favorável diante das mudanças climáticas. Já municípios da região central da Baixada, onde a urbanização avançou até a linha da praia, terão desafios maiores para adaptar sua infraestrutura. Manguezais são aliados naturais Na avaliação do professor, preservar manguezais e restingas representa uma das estratégias mais eficientes e econômicas para enfrentar a elevação do nível do mar. Esses ecossistemas funcionam como barreiras naturais contra as ressacas, ajudam a reduzir a erosão costeira e ainda filtram parte dos poluentes antes que eles cheguem ao oceano. "O manguezal faz gratuitamente aquilo que muitas cidades gastam milhões para tentar resolver com obras de engenharia. A natureza já construiu essa proteção. Nosso papel agora é preservá-la", afirma Ronaldo Christofoletti, que cita como exemplo a orla de Santos. Segundo Christofoletti, em alguns trechos da praia de Santos, a restinga voltou a crescer naturalmente e já começa a demonstrar sua eficiência durante episódios de ressaca. "Quando existe restinga, a areia permanece no lugar. Ela segura sedimentos, protege a praia e reduz a erosão. É uma defesa que trabalha sozinha". Aumento do nível do mar é apenas um dos problemas Embora o avanço do nível do mar seja o aspecto que mais chama atenção, ele está longe de ser o único risco apontado pelo relatório da ONU. O pesquisador da Unifesp destaca três grandes ameaças para a Baixada Santista. A primeira é justamente a elevação do nível dos oceanos. A segunda é o aumento da poluição, principalmente por microplásticos, resíduos químicos e medicamentos descartados de forma inadequada. Já o terceiro desafio envolve a pesca artesanal. Segundo o professor, o aquecimento das águas e a sobrepesca industrial reduzem os estoques pesqueiros, afetando comunidades tradicionais que dependem diretamente do mar para sobreviver. "São problemas que se somam. Menos peixes, águas mais poluídas e mudanças nas correntes marinhas pressionam ainda mais a biodiversidade e a economia regional". Porto de Santos também precisará se adaptar As mudanças climáticas também terão impactos diretos sobre o maior porto da América Latina. De acordo com Christofoletti, o Porto de Santos precisará investir continuamente em adaptação. O aumento da frequência de ressacas, nevoeiros e eventos climáticos extremos pode dificultar a navegação e exigir novas tecnologias para garantir segurança às operações. Além disso, o aquecimento das águas aumenta o risco da chegada de espécies invasoras transportadas pelos navios. "O porto já avança na agenda da descarbonização, mas também precisará olhar para soluções baseadas na natureza e fortalecer o diálogo com a cidade. Porto e município serão afetados juntos". Poluição volta para o prato do consumidor Outro alerta feito pelo pesquisador diz respeito aos microplásticos e aos resíduos de medicamentos que chegam ao oceano. Segundo ele, esses contaminantes entram na cadeia alimentar e acabam retornando à mesa da população. "O oceano não faz desaparecer aquilo que descartamos. Os organismos marinhos absorvem esses resíduos e eles retornam para nós por meio da alimentação". O especialista ressalta que isso não significa deixar de consumir pescado. O problema, afirma, não está nos peixes, mas na poluição produzida pela própria sociedade. Além dos microplásticos, a presença crescente de resíduos farmacêuticos pode favorecer o surgimento de bactérias resistentes e alterar o equilíbrio dos ecossistemas marinhos. Saneamento ainda está longe do ideal Na avaliação de Christofoletti, a infraestrutura de saneamento da Baixada Santista ainda não é suficiente para enfrentar os novos tipos de poluentes identificados pela ciência. O pesquisador explica que boa parte dos sistemas atuais consegue remover apenas resíduos maiores, enquanto contaminantes químicos permanecem na água e acabam sendo lançados no oceano. "Nós coletamos o esgoto, mas muitas vezes não tratamos adequadamente aquilo que não enxergamos. Esses compostos permanecem na água e voltam para nós". A solução depende da região inteira Outro ponto destacado pelo pesquisador é que nenhuma cidade conseguirá enfrentar sozinha os efeitos das mudanças climáticas. Segundo o professor da Unifesp, o mar não respeita fronteiras municipais. "O mar não sabe onde termina Santos e começa São Vicente ou Guarujá. As soluções precisam ser regionais", destaca. Ronaldo Christofoletti defende que os nove municípios da Baixada Santista trabalhem de forma integrada, compartilhando conhecimento científico e planejando ações conjuntas de adaptação. Para isso, considera essencial aproximar universidades, gestores públicos e sociedade. "As decisões precisam ser tomadas com base na melhor ciência disponível e não apenas pensando no próximo mandato. Os resultados aparecerão em alguns anos, mas precisamos começar agora". Economia azul pode transformar a Baixada Santista Apesar do cenário desafiador, Christofoletti enxerga uma oportunidade. Na visão dele, a Baixada Santista pode se tornar referência nacional em economia azul, modelo de desenvolvimento que alia crescimento econômico, inovação e conservação dos oceanos. A região reúne universidades, centros de pesquisa, o maior porto do Hemisfério Sul, uma extensa faixa costeira e atividades ligadas ao turismo, à pesca e à logística. "Quem investir em ciência, saneamento, preservação ambiental e inovação vai atrair novos investimentos e fortalecer sua economia. A Baixada Santista tem todas as condições para liderar esse processo". Para o pesquisador, o maior desafio agora é transformar o conhecimento científico em políticas públicas permanentes. "A mudança climática não é mais uma previsão. Ela já está acontecendo. O que vai definir o futuro da Baixada Santista é a forma como a região decidir agir a partir de agora", conclui.