Cada 0,1°C a mais na temperatura da água significa 584 eventos extremos adicionais no País, diz estudo (Alexsander Ferraz/AT) Para cada aumento de 0,1 grau Celsius (°C) na temperatura média global do ar, houve alta de 360 registros de desastres climáticos no Brasil nos últimos quatro anos (2020-2023). No oceano, que desempenha um papel relevante na regulação climática do planeta, o impacto foi ainda maior: para cada aumento de 0,1°C na temperatura média global da superfície oceânica, houve elevação de 584 registros de eventos extremos no País no período. Os dados integram o mais novo relatório lançado pela Aliança Brasileira pela Cultura Oceânica — coordenada pelo Programa Maré de Ciência da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e pela Unesco —, em parceria com a Fundação Grupo Boticário. O estudo revela que ocorreram 250% mais desastres climáticos no Brasil entre 2020 e 2023 em comparação com registros da década de 1990. A base do estudo foi extraída do Sistema Integrado de Informações sobre Desastres (S2ID) do Ministério da Integração e Desenvolvimento Regional, de 1991 a 2023. O estudo também analisou dados de temperatura média do ar e da superfície oceânica dos últimos 32 anos, a partir de informações da agência europeia Copernicus, obtidos por meio da plataforma Climate Reanalyzer. Segundo os pesquisadores, quando os dados deste ano forem consolidados, se confirmará a escalada de desastres climáticos nos anos mais recentes. “A Ciência já comprovou que o aumento da temperatura, seja do ar ou do oceano, leva a um desequilíbrio climático. Logo, se esse aumento da temperatura vem ocorrendo ao longo dos anos e os desastres climáticos também, podemos estabelecer essa relação de forma bastante clara”, diz o professor e pesquisador Ronaldo Christofoletti, do Instituto do Mar da Unifesp-Baixada Santista e um dos coordenadores do estudo. Em alta O levantamento aponta que foram registrados 6.523 desastres climáticos em municípios brasileiros na década de 1990, enquanto, de 2020 a 2023, ocorreram 16.306. O levantamento também mostra que 5.117 municípios brasileiros reportaram danos causados por desastres climáticos entre 1991 e 2023, ou 92% das cidades do País. Principais ocorrências: secas (50%), inundações, enxurradas e enchentes (27%) e tempestades (19%). Dois cenários Com base nas projeções do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês) e considerando a atual taxa de registros de desastres, os números podem aumentar nas próximas décadas. O estudo aponta dois cenários climáticos até o final do século: um otimista, no qual as metas do Acordo de Paris para limitar o aumento da temperatura a 1,5°C sejam cumpridas, e um pessimista, no qual o aquecimento do planeta ultrapassa 4°C. No cenário otimista, o Brasil poderá registrar até 128.604 desastres climáticos entre 2024 e 2050. No pessimista, quase 600 mil, nove vezes o registrado entre 1991 e 2023. Soluções “Apesar das projeções negativas, ainda há tempo para agir. Além de reduzir as emissões de gases de efeito estufa, é essencial buscar a resiliência das comunidades e a adaptação às novas condições climáticas. Nesse sentido, as soluções baseadas na natureza são ferramentas eficazes para fortalecer a resiliência de cidades costeiras, enfrentando desafios ambientais, sociais e econômicos de forma integrada”, destaca Janaína Bumbeer, pesquisadora do estudo e gerente de projetos da Fundação Grupo Boticário. Recuperar manguezais e dunas, por exemplo, promove “adaptação aos ambientes urbano e costeiro, aumentando a resiliência contra eventos climáticos extremos”. Próximas etapas destacarão Baixada Santista A Baixada Santista, pela localização geográfica e pela importância climática, econômica e social dentro do Brasil, será uma das áreas a receber um olhar específico dos pesquisadores nas próximas etapas do estudo, segundo o professor Ronaldo Christofoletti. O pesquisador explica que, a partir do próximo ano, a proposta é refinar o estudo, dividindo-o por categorias de desastres e os impactos de cada um deles por região. “São trabalhos muito demorados para fazer. Em fevereiro, faremos apenas sobre as chuvas, considerando o verão e o que ele trará a mais neste ano. Virão vários recortes por aí, para entendermos melhor esses impactos”, diz. Oceano e impactos E por que o aumento da temperatura dos oceanos gera mais desastres climáticos em comparação com o aumento da temperatura do ar? Christofoletti explica: “Não é que gera mais impactos, é que está mais correlacionado com o aumento dos desastres. Essa correlação é mais forte porque os oceanos representam 70% do planeta e controlam de forma mais clara o clima. Por isso, fazer essa associação é mais forte. No ar, existem vários outros fatores que influenciam, além da mudança do clima. Com o oceano, se ele representa 70% do planeta, a resposta de qualquer mudança é dada de forma mais clara”.