Estudos apontam que, em Santos, avenidas dos canais como a Washington Luís têm diferença até 1,5°C para menos em relação às outras vias (Vanessa Rodrigues/AT) Temperaturas próximas a 40°C com sensação térmica de 45°C, janeiro mais quente da história, escolas com desconforto térmico e alunos passando mal. Não faltam notícias, neste início de ano, para ilustrar o que a comunidade científica alerta há anos: o planeta está ficando mais quente. A boa notícia é que está nas cidades um caminho para atenuar os efeitos do calor extremo, ampliando o conforto térmico das cidades, bairros e condomínios. A arborização urbana não é apenas estética, mas uma aliada no combate ao calor, reduzindo a temperatura, melhorando a umidade do ar e tornando o ambiente mais agradável e sustentável. O engenheiro agrônomo Cleber Ferrão, diretor do Centro de Ciências Exatas, Arquitetura e Engenharia da UniSantos, diz que não faltam estudos que comprovam a redução da temperatura ambiente em locais arborizados. Em Santos, por exemplo, há diferença de até 1,5°C para menos nas avenidas dos canais em relação às outras vias. “Os canais são verdadeiros corredores verdes, onde o conforto térmico é maior”. Essa relação se dá por meio de vários mecanismos, como sombreamento, solo mais permeável com retenção de água e retirada de carbono no processo de fotossíntese. “O ambiente se torna mais úmido para respirar, o solo fica mais permeável e o sombreamento reduz a retenção de carlos nos imóveis e no solo”, diz. Ação metropolitana Cleber Ferrão também integra o Conselho de Desenvolvimento da Região Metropolitana da Baixada Santista (Condesb), em uma das vagas destinadas à sociedade civil, e diz que ações integradas precisam ser adotadas por todos os municípios. “Estamos enfrentando os impactos das mudanças climáticas independentemente de onde moramos. É importante que os municípios tenham seus planos municipais de arborização, e que haja uma conectividade entre eles”. O especialista cita que as cidades deveriam implantar corredores verdes, que são faixas contínuas de vegetação que conectam áreas naturais fragmentadas, permitindo o deslocamento de animais e a dispersão de plantas. Os corredores têm papel essencial na preservação da biodiversidade, pois evitam o isolamento de populações de espécies e ajudam a reduzir os efeitos do calor extremo em toda a cidade. Além dos canais, ele cita avenidas que cortam toda a Cidade, como Afonso Pena. “Imagina ela toda cheia de árvores e o benefício que traria para toda essa faixa”. Conectando esses corredores, explica, o conforto térmico poderia atingir toda a cidade: “A Avenida Moura Ribeiro conecta com os morros, que conectam com a Avenida Jovino de Melo, na Zona Noroeste”, exemplifica. Plantar 10 mil mudas Em Santos, o Plano Municipal de Arborização prevê o plantio de 10 mil árvores nas vias públicas nos próximos quatro anos e a substituição de ao menos 1% do piso asfáltico por material permeável, aumentando a retenção da umidade no solo. A informação é do secretário de Meio Ambiente, Desenvolvimento Urbano e Sustentabilidade de Santos, Glaucus Farinello. Com o plantio de 10 mil árvores, a Cidade atingiria o total de 45 mil árvores, “o que representaria uma árvore para cada imóvel de Santos”, diz. O secretário admite que a Cidade precisa ter mais bolsões verdes, que se conectam para ampliar a cobertura arbórea e reduzir os efeitos do calor extremo. “Temos a Praça Rebouças, a Praça Aparecida, a Praça Palmares, mas precisamos de mais”. Uma das iniciativas, explica, é arborizar as calçadas opostas aos canais, mas de tal forma que não prejudique a iluminação pública. Para reduzir o conflito das árvores com os postes de energia elétrica, um dos caminhos é fazer o plantio desalinhado do poste, ou seja, mais distante. “Há espaços ociosos no meio da rua, onde o crescimento da árvore não vai atrapalhar em nada a posição do poste”. Outra opção, diz o secretário, é solicitar à CPFL a substituição dos postes de nove metros por modelos que têm 15 metros de altura. Diálogo e educação ambiental Outras iniciativas estão em curso na secretaria comandada por Glaucus, como a criação de grandes bolsões verdes em espaços privados. Uma dessas ações deve ocorrer na área de estacionamento do Assaí Atacadista, na Avenida Ana Costa. “Estamos conversando para que ali sejam plantadas 500 mudas de árvores, formando uma pequena mata urbana dentro da Cidade”. As árvores e o clima Sombreamento: Árvores fornecem sombra para ruas, calçadas, edifícios e veículos, reduzindo a incidência direta da radiação solar e, consequentemente, a temperatura do solo e das superfícies urbanas. Evapotranspiração: A liberação de vapor d’água pelas folhas das árvores resfria o ar ao redor, funcionando como um sistema natural de climatização. Diminuição do calor retido por superfícies urbanas: Áreas pavimentadas e construções absorvem calor ao longo do dia e o irradiam à noite. A presença de vegetação reduz essa absorção e melhora a dissipação do calor.