Várias mensagens ofensivas foram postados na página de Maria (Reprodução / Arquivo pessoal) Maria Silvino Alves dos Santos Borges, conhecida como Maria Sil, de 34 anos, construiu boa parte da trajetória profissional na cultura da Baixada Santista, no litoral de São Paulo. É atriz, roteirista, produtora cultural e também trabalha com captação de recursos. Nos últimos anos, porém, passou a conviver com uma dificuldade cada vez maior para encontrar uma oportunidade de trabalho mais estável. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Segundo ela, em cerca de dois anos foram aproximadamente 500 currículos enviados e apenas três entrevistas de emprego. Foi nesse cenário que Maria publicou, mais uma vez, um vídeo nas redes sociais pedindo uma oportunidade. (Veja vídeo mais abaixo) A postagem ganhou repercussão e reuniu mensagens de apoio, mas também comentários ofensivos e transfóbicos. Maria conta que esse tipo de publicação já fazia parte de sua rotina, justamente pela dificuldade de conseguir trabalho. “Esse tipo de vídeo é o milésimo que faço na minha vida de dois anos para cá. (...) Esse, em específico, caiu em bolha de ódio. Antes, nunca tinha acontecido isso”, afirma. Natural de Santos e criada em São Vicente, Maria diz que começou a sentir mais dificuldade de recolocação profissional a partir de 2023, quando passou a buscar vagas com vínculo formal, além dos trabalhos ligados à cultura e de freelancers que já realizava. Segundo ela, a publicação recebeu quase 200 comentários, entre manifestações de apoio e mensagens ofensivas. Diante do teor de parte das publicações, Maria pretende procurar a Defensoria Pública na região onde mora, na Zona Leste de São Paulo, para avaliar quais medidas poderá tomar. “Essa semana eu vou à Defensoria Pública da minha região para começar a tomar as medidas cabíveis”, conta. -Vídeo pedindo emprego (1.532150) Repercussão não virou oportunidade Apesar da visibilidade do caso, Maria afirma que nenhuma empresa entrou em contato oferecendo emprego ou trabalho freelancer. “Não existiu nenhum tipo de movimento desse de contratação. Eu faço meus freelancers, a empresa onde eu faço freelancer hoje não pode me contratar e, assim, eu sigo sem uma renda fixa, sem um trabalho fixo”, lamenta. Maria tem formação técnica em Artes Dramáticas e acumula experiências em diferentes áreas da produção cultural, audiovisual e de elaboração de projetos. O cineasta e gestor cultural Eduardo Ferreira, de 41 anos, afirma trabalhar com ela desde 2012, em curta-metragens, webséries e oficinas de cinema. Nesse período, Maria atuou como atriz, roteirista e produtora. “Maria é sempre dedicada e comprometida em tudo o que se propõe a fazer. Sua criatividade é um grande diferencial”, diz. Segundo Ferreira, Maria sempre teve boa relação com as equipes de trabalho e ele nunca presenciou situações de preconceito ou discriminação contra ela no ambiente profissional. Ao descrevê-la para um possível empregador, afirma que Maria é “uma profissional de muita dedicação e criatividade” e que sua presença na equipe representa “um grande ganho e a certeza de que as produções serão executadas com eficiência e dentro dos prazos estabelecidos”. Experiência também na elaboração de projetos A atuação de Maria também passa pela área de captação de recursos. Jairo Basilio Araldi, CEO e diretor de Relações Institucionais da PIALC, conta que ela prestou serviços para a empresa como analista de projetos, trabalhando na elaboração de propostas para editais governamentais e fontes internacionais. Para ele, Maria demonstrou facilidade para aprender e se adaptar ao trabalho. “É uma pessoa supercomprometida, com uma curva de aprendizagem bastante alta e muito comunicativa. Sabe expressar onde havia lacunas e é muito aberta para aprendizado”, afirma Araldi. Ele também destaca que, durante o período em que Maria trabalhou com a empresa, não houve episódios de discriminação no ambiente profissional ou no contato com clientes. Segundo Araldi, a empresa mantém uma política de respeito à diversidade. Para o executivo, entretanto, a inclusão de profissionais trans precisa ir além da contratação. “Acho que falta um pouco das empresas terem um verdadeiro posicionamento. A gente tem a transfobia muito presente na sociedade, mas um posicionamento das empresas fortaleceria mais do que só uma contratação”, afirma. Trajetória na cultura O diretor, roteirista e empresário Vitin Allencar, de 36 anos, também acompanha a trajetória de Maria há cerca de 11 anos. Ele conta que trabalhou próximo a ela em projetos ligados à música e ao audiovisual. Ao longo desse período, segundo Vitin, a relação profissional acabou se transformando também em uma parceria duradoura. “Ela tem esse comprometimento muito grande com o que acredita”, afirma. Ele diz que não presenciou diretamente episódios de preconceito contra Maria, mas afirma ter acompanhado as dificuldades enfrentadas por ela para conseguir espaço tanto no mercado artístico quanto em outras áreas profissionais. “A Maria não se cansa de tentar se colocar num mercado que a exclui, que a coloca como invisível. Mais do que presenciar, eu acompanho essa violência que ela sofre de não acolhimento profissional”, diz. Poucas entrevistas Maria diz que um dos pontos que mais chama sua atenção é a dificuldade de chegar até a fase de entrevistas. “Eu não chego nem na fase de entrevistas”, afirma. Para ela, a situação não é individual e também é vivida por outras pessoas trans, inclusive aquelas com diferentes níveis de formação e experiência profissional. A artista também defende que a inclusão no mercado de trabalho não deve terminar na contratação. Segundo Maria, as empresas precisam estar preparadas para receber e manter profissionais trans em suas equipes. Maria lembra de uma das últimas experiências profissionais, quando integrantes da própria equipe erravam repetidamente seu gênero. “Eu fiquei três meses em uma empresa em que toda semana, praticamente, alguém errava o meu gênero. E eu me demiti”, relata. Maria acrescenta que, na época, acreditava que conseguiria uma nova oportunidade rapidamente. Quase um ano depois, porém, segue sem trabalho fixo e realizando apenas freelancers. Rede de apoio Atualmente, Maria afirma que os trabalhos freelancers não são regulares. Por isso, conta principalmente com o apoio do companheiro. Ela perdeu os pais e diz ter uma rede familiar pequena. “Se não fosse o meu companheiro e uma ou outra amiga, eu não sei, talvez eu já estivesse em situação de rua, provavelmente”, relata. Apesar das dificuldades, Maria diz que continua buscando uma oportunidade em que possa desenvolver seu trabalho e ser valorizada profissionalmente. “Quero trabalhar e trabalhar bem. Em um trabalho em que eu seja valorizada. Tenho consciência do meu valor. E não estou falando de dinheiro. Estou falando de valor mesmo”, afirma. Para ela, ampliar o acesso de pessoas trans ao mercado de trabalho passa não apenas pela abertura de vagas, mas também pela criação de ambientes em que esses profissionais possam permanecer e construir uma trajetória.