[[legacy_image_174462]] Há infinitas maneiras de definir o que é ser mãe. E uma verdade absoluta: o exercício da maternidade é desafiador. Se a missão sempre foi árdua, as mamães da pandemia tiveram que se desdobrar ainda mais para cuidar dos filhos num mundo dominado por um vírus letal, que causou milhões de mortes e provocou confinamentos e muitas incertezas sobre o futuro. Os contratempos pandêmicos, porém, não as impediram de comemorar a chegada do melhor presente de suas vidas. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! A arquiteta Adriene Moreira dos Santos, de 31 anos, descobriu que estava grávida um mês antes do Brasil virar de cabeça para baixo com o início do lockdown em vários estados, em fevereiro de 2020. A expectativa pela chegada da primeira filha misturou-se com a tensão de conviver com uma doença até então desconhecida, que se disseminava pelo planeta com uma rapidez assustadora. “Fiquei sem conseguir trabalhar e tive dificuldades pra fazer exames básicos de acompanhamento de pré-natal, por conta da pandemia. Meu marido não acompanhou o primeiro ultrassom por conta das restrições, foi bem complicado. Fora o transtorno psicológico que a gestação já traz, ainda tinha a incerteza sobre uma doença nova, que não existia vacina e ninguém sabia como ia ser” conta. Além de ter passado muito mal nos três primeiros meses de gestação, com enjoos e perda de peso, Adriene ficou tão apreensiva com o ‘fator covid-19' que deixou de assistir ao noticiário na televisão. “Fiquei uns dois meses sem ver notícia, pra ficar bem psicologicamente e lidar com aquela situação. Quando voltei a assistir, tinha mais de cinco mil mortos e vi que não poderia ficar tão alienada, precisava ter noção do que estava acontecendo. Foi um cansaço mental muito grande”. Redobrando os cuidados e mantendo-se longe de familiares e amigos, em razão das medidas de distanciamento social, Adriene e o marido, o portuário Arthur Firmino dos Santos, foram contando os dias até a chegada de Catarina, em outubro de 2020. “Eu, mãe de primeira viagem, tomava todos os cuidados possíveis e ficava com muito receio até de pegar no colo. As avós não acompanharam muito o crescimento da Catarina, porque a gente não podia se encontrar muito”, lembra Adriene. Hoje, com um ano e sete meses, Catarina entrou na escolinha para que a arquiteta retomasse a carreira. E, apesar do pico da pandemia ter passado, Adriene ainda se mantém alerta. “Tive que me libertar de alguns medos, preocupações que eu tinha, mas ainda sou bem cautelosa, evito ir em lugar fechado sem máscara. Entre aspas, sou vista como neurótica (risos)”, reconhece. [[legacy_image_174463]] Longo caminho até a felicidadeA representante comercial Cláudia Fernandes Lopes, 55, percorreu um longo caminho até realizar o sonho de ser mãe. Depois de um tratamento de fertilização, que durou quatro anos, e seis cirurgias realizadas para resolver problemas uterinos, ela engravidou aos 52 anos. Anthony nasceu quando a China registrava os primeiros casos de coronavírus, em novembro de 2019, mas Cláudia não imaginou, à época, que a vida de sua família seria tão impactada com a nova doença. “O pai dele é inglês e veio de Londres para o nascimento, mas teve que voltar à Inglaterra em janeiro de 2020 para resolver pendências do trabalho. O Stuart voltaria ao Brasil em abril, mas em março a pandemia estourou e os aeroportos fecharam. Foram longos meses só com a minha mãe, que abriu mão da vida tranquila em Praia Grande para me ajudar. Em contrapartida, ela vivenciou novamente a maternidade, já que trabalhava quando eu e meus dois irmãos éramos pequenos e não conseguia ficar muito tempo com a gente”, conta Cláudia, que mora na Capital. A distância do marido era compensada por quatro sessões diárias de conversas através do Skype. “Conversávamos muito para que o Stuart estivesse presente na vida do Anthony. E foi incrível, porque quando ele conseguiu voltar ao Brasil, em agosto de 2020, o Anthony, que já tinha nove meses, abriu um sorrisão e esticou os bracinhos na direção do pai quando ele chegou em casa”, relata Cláudia. Família finalmente reunida, os desafios continuaram no confinamento provocado pela covid-19. Evitando contato com familiares e amigos, Claudia acredita que a falta de vida social teve consequências no desenvolvimento do filho. “O Anthony apresentou atraso na fala, ficou muito protegido dentro de casa. Acho que essa falta de convívio interferiu na vida das crianças conhecidas como os bebês da pandemia. Ele tem pegado muita gripe também, mas apesar dos problemas causados pela covid-19, os laços de família se fortaleceram”, aponta. Feliz com o arrefecimento da pandemia, que ela credita à vacinação, Cláudia terá um Dia das Mães mais relaxado este ano. “A maternidade é a coisa mais linda do mundo, o amor mais puro. Graças a Deus que o Anthony estava aqui na pandemia, porque ele me manteve sã, eu tinha que me manter bem por conta dele. Às vezes eu me fechei no meu mundo, não via notícias e a gente passava o dia brincando, rindo, fazendo estripulias de criança. Isso me manteve serena, apesar dos todos os medos. Um bebê em casa deixa a vida da gente mais leve, apesar de todo o trabalho que ele dá (risos)”. [[legacy_image_174464]] Relato de uma mãe que teve covid na gestação“Descobrir a gravidez no meio da pandemia gera uma apreensão além do normal. É preciso um cuidado a mais e não saber qual seria a situação no momento do parto trazia uma certa ansiedade. Logo no início, com poucas semanas de gestação, veio a necessidade de afastamento do trabalho e de outras atividades. Com isso, as trocas de experiências com outras mães e até com amigas e parentes se limitaram a raras visitas e muito WhatsApp. O objetivo era evitar qualquer tipo de contato que pudesse causar riscos do contágio da covid-19. Porém, mesmo assim, eu e meu marido contraímos a doença na 31ª semana de gravidez, em janeiro. Os testes positivos vieram acompanhados de ainda mais tensão. Desta vez, o receio era de uma evolução da doença que pudesse causar danos ao bebê e um parto prematuro. Graças às três doses da vacina, não tive grandes intercorrências, a não ser muito cansaço, pouco fôlego e algumas alterações em exames do pré-natal. Constatei que mesmo com a imunização, não é possível subestimar um vírus tão traiçoeiro. Dois meses depois, com a queda do número de casos, após a explosão da variante ômicron, Julia nasceu saudável, na semana em que o uso de máscaras foi liberado, depois de dois anos. Uma nova era em que podemos rever sorrisos, mesmo que seja em locais abertos. Ainda me protejo como antes em ambientes fechados. Acredito que o cuidado deve continuar, já que a pandemia ainda não acabou. A saúde da minha filha é prioridade. Mas, nesta nova fase, o medo deu espaço à esperança de dias melhores! E o que mais uma mãe pode esperar?” Fernanda Balbino, jornalista, de Santos