Gabriel: “A água vai dividir os negócios que ficam e os que não vão sobreviver” (Alexsander Ferraz/AT) No Dia Mundial da Água, a geógrafa e mestre em Ciências pela Universidade de São Paulo (USP) Gabriela Otero faz um alerta: a água potável será tão estratégica para a vida e os negócios como o petróleo. A tarefa de zelar por esse recurso natural finito é de governos, das empresas e do cidadão comum. Neste 22 de março, Dia Mundial da Água, o que você destacaria como a principal ou as principais preocupações deste momento de mundo? O mais premente é o acesso à água. Neste domingo (22), não existe mais água fácil. Neste domingo (22), a gente tem água difícil. Como é que a gente vai acessar essa água e que instrumentos de infraestrutura a gente terá que lançar cada vez mais para ter água acessível, potável? Escassez hídrica, com as mudanças do clima e do regime de chuvas, com as interferências em um território impactando outro território, também é uma preocupação muito forte. E a terceira preocupação talvez seja mais conceitual: a gente precisa tirar a discussão de água de um debate setorial. A gente fala de água e vem à cabeça a torneira abrindo dentro de casa, enchendo um copo d’água. A gente tem que pensar que a água é fundamental e soberana em qualquer camada de vida sobre a Terra. Precisamos pensar nos negócios, nos governos. Neste domingo (22), é um tema de segurança nacional também. Já temos refugiados climáticos precisando migrar de território para ter acesso à água. Então, a água neste domingo (22) é estratégica tanto quanto o petróleo. E você acha que nós, brasileiros, já adquirimos um pouco dessa consciência ou ela ainda está mais presente nos países que já enfrentam crises muito sérias de abastecimento? Eu acho que a gente tem, sim, a consciência, mas da consciência à prática existe um abismo. Só quem vive a escassez sabe a importância de fechar bem a torneira, de trocar a borrachinha para não pingar água, do horário restrito para tomar banho, de não poder lavar a louça por dois, três dias para guardar água para beber. Então, só quem passa por isso sabe e pratica o uso consciente. O resto de nós lava a louça de torneira aberta, lava o quintal mesmo em período de estiagem e, indo além, ainda não escolhe as marcas de produtos que tenham um posicionamento de conservação de água, e isso seria o top mesmo. Na semana que passou, dois estudos divulgados apontam para cenários desfavoráveis em relação à água: o ranking do saneamento básico no Brasil, do Instituto Trata Brasil, que mostra que 30 milhões de brasileiros ainda não têm acesso à água potável, e o Índice de Qualidade da Água dos municípios da Mata Atlântica, em que, dos 162 pontos de rios monitorados, apenas cinco tiveram classificação boa. Que leitura fazer desse cenário? Não consigo evitar fazer o paralelo com a gestão de resíduos sólidos. Eu acho que a gente tem lacunas de dados, que só quem está no setor consegue ter a leitura e falar. Há muitas ações informais que não são reportadas da mesma forma que concessões reportam. Há várias práticas no Brasil de esgotamento descentralizado. Não vou dizer que são as melhores, longe disso, porque contaminam tanto quanto, mas talvez a gente pudesse partir de ações descentralizadas para tentar formalizá-las, qualificá-las para que tenham níveis de qualidade passíveis de registro e, portanto, de dados. A falta de esgotamento é um dado duro, que impacta a saúde, a educação, o trabalho, mas eu acredito que a gente precisaria qualificar melhor, chegar a mais lugares para entender essas ações descentralizadas e tentar qualificá-las. Além disso, a falta de esgotamento também diz respeito à escassez hídrica e é onde o saneamento cruza com segurança hídrica. No Brasil, que boas práticas você identifica que podem ser replicadas nessa questão da água e do saneamento? Eu sempre me surpreendo positivamente com algumas empresas que têm ações que levam água para o sertão ou que você compra uma unidade da latinha e, aí, já migrou da garrafa plástica para a lata de alumínio e consegue reverter as vendas para projetos sociais, abrindo mão de um lucro excedente. Em Manaus (AM), com uma grande comunidade de palafitas, a concessionária só tem contrato para esgotamento e abastecimento de água, mas decidiu colocar toda a infraestrutura em comunidades de palafitas, mesmo não sendo objeto do contrato. Eu fui lá, inclusive, visitar. Deveríamos estimular essas práticas pensando em todos os benefícios sociais, ambientais e ecossistêmicos. A gente não precisa cruzar o Atlântico ou o Pacífico. Aqui, há soluções tipicamente brasileiras que podem ser potencializadas. No setor produtivo, inclusive, muitas empresas estão fazendo sua lição de casa, envolvendo também as comunidades ao redor, tentando impactar menos os recursos naturais. Você acha que no futuro, não muito distante, ter feito essa lição de casa pode ser um fator competitivo importante de sobrevivência no mercado? Vou brincar com o jargão: será um divisor de águas (risos). A água vai dividir os negócios que ficam e os negócios que não vão sobreviver. Literalmente. Porque a empresa que não cuidar do território não vai ter água. Ela vai ter que ou desmobilizar todo o seu processo para localidades com água ou pagar muito mais caro, porque ela vai ter que disputar com quem já estiver nesse território. Se não fizer, não resiste.