E, acima de tudo, mulheres (Daniella Berkowitz e Jackeline Pereira) [[legacy_image_252009]] A Subseção Santos da OAB completa, neste mês, 90 anos. Uma instituição que conta com mulheres que deixaram sua marca não apenas em arquivos, como também na história da advocacia da região. Nos registros oficiais temos nomes e cargos. Como se elas se limitassem a uma função, escolhida por vontade própria, claro, mas congeladas no seu tempo. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! Longe disso. A mulher advogada vem trilhando caminhos partilhados por todas aquelas que sentiram que ousar também faz parte da vida. A crítica também. Se a OAB Santos surgiu em 1933, sete anos depois surge Maria Arruda Baccarat, com forte atuação no serviço público. Moderna para a época, Maria alçou voos para além de nossa Comarca. Em 1948, Nínive Calves tem sua inscrição na Subseção Santos, construindo carreira sólida em um círculo majoritariamente masculino. Pois bem. Chegamos no século 21 com os mesmos problemas do passado e que têm em comum o desrespeito. Hoje, Dia Internacional da Mulher, nossa palavra é para a mulher advogada, de todas as gerações. A razão deste artigo não é um seriado que virou moda. A mulher advogada tem todos os dias que provar, de um jeito ou de outro, que se encontra tão capacitada para enfrentar a profissão como seu colega. Todos os dias não sabemos quem vai entrar em nosso escritório. Uma consulta, que pode se tornar um trabalho, não garante ganho da ação. Sim, explicamos isso. Nem sempre somos entendidas, mesmo com a assinatura do contrato entre as partes. Para uma audiência, virtual ou não, existe e exige preparo profissional. Fazemos isso, inclusive em casa, muitas vezes em detrimento do tempo com a família, que não tem volta. Chegamos, assim, no dia tão importante para a pessoa que nos confiou sua vida, seus negócios, sua expectativa de justiça. Porém, corremos o risco de, no desempenho de nossa função, sermos alvos de ofensas relacionadas à nossa aparência e sobre as peculiaridades do nosso gênero. Comentários vindos de quem prestou o Exame de Ordem. Como nós. Que tem seu registro, ativo ou não, na Ordem dos Advogados do Brasil, em alguma seccional, como nós. Que se especializa, continuamente, como tantas de nós. Que se divide, em alguns casos, no ensino do Direito, como muitas de nós. Que se esforça por fazer valer aquilo que registra o Estatuto da Advocacia: as prerrogativas, como todos nós, que militamos nesta profissão. Portanto, quando chega o dia 08 de março, damos um profundo suspiro de reconhecimento às santistas Nínive Calves e Maria Arruda Baccarat, primeiras advogadas que Santos, a partir da década de 1940, começou a ver, nos fóruns e cartórios, na defesa da justiça. Não viraram série (ainda). Foram advogadas e, acima de tudo, mulheres. Como nós. Danielas e Micheles... apenas sejamos (Michele Divino) Era só o final de mais uma palestra, quando, como de costume, ficavam alguns poucos participantes para tirar dúvidas. Percebi então que uma participante, Daniela, ficou para bater um papo sobre sua trajetória na empresa para a qual prestava serviços de gerência. Na verdade, a dúvida dela era sobre a minha trajetória e como eu tinha conseguido “estar” ali e “falar” assim (com propriedade). Isso nos rendeu uma conversa franca e construtiva de mais de uma hora. E mais ainda: resultou numa descoberta que ressignificaria toda minha jornada como consultora. Aquela pergunta vinda de uma mulher preta para outra mulher preta me fez compreender o real significado de representatividade, que até então, a meu ver, era direcionado somente às mulheres pretas com altos cargos, visibilidade e alcance. Espelhar-se em mim, que graduei, pós-graduei, me especializei e trabalho modificando a vida de pessoas, era possível também para ela. E é! E foi assim que entendi que meu caminhar como consultora ia muito além de analisar negócios, compartilhar conhecimento e expor números – meu propósito também é o de fomentar o ser e o estar feminino. Como sempre cito em palestras sobre empreendedorismo, por trás de todo CNPJ existe um CPF com sonhos, medos e anseios. Mas é importante também ter objetivos e que estes tenham um significado pessoal. Empreender somente para lucrar possivelmente não irá sanar sua fome de realização pessoal – até porque meta é número e número se alcança. E depois aumenta-se a meta, e mais, e mais... Mas e depois? Compreender o que será feito com o lucro que a tal meta gerou será o resultado do conhecimento sobre o seu impacto na vida de outras pessoas e também sua real missão como mulher num mundo tão cheio de cobranças, julgamentos e conectividade. A partir do momento que sua missão é descoberta, o sucesso será conse-quência e as Danielas aparecem! Então, sejamos Danielas que alertam, mesmo sem perceber, a missão das outras. E sejamos Micheles que agradecem e torcem pelo sucesso das Danielas. Apenas sejamos! Nada além do barro (Vera Leon) Pode ser que os 92 anos da mãe, lúcidos e ainda a dar-lhe autonomia e uma certa teimosia leonina, a remetam tanto, ultimamente, à infância no Nordeste, como a querer juntar as pontas da vida e assim me dizer com qual argila foi moldada. Barro da melhor qualidade, penso eu, quando tento imaginar a mãe menina, a fazer boneca com sabugo de milho (criança sem brinquedo cria mundos!) ou a ir à casa de farinha para ralar mandioca e de lá tirar o beiju para encharcar com leite, matar a fome e lamber os beiços. Criaram-se assim os 12 filhos de Joventina Maria dos Santos, a mãe da mãe, a avó que só vi uma vez na vida, e cujo olhar, na foto recuperada pelas minhas primas, me diz que para algumas mulheres a vida não se cansa de ser Severina nem permite que se lhe dê as costas. Criaram-se entre a roça, a casa de farinha, o “terreiro” onde inventavam presepadas de criança, e a escola, para os que tiveram a sorte de ir, ainda que por um bocadinho de tempo, aprender o “abc” e a “assinar” o nome. Criaram-se assim, sem o pai, meu avô Elias, morto tão cedo que não combinava nada a avó ser chamada de viúva aos 37 anos de idade. Altiva e orgulhosa, guardiã do posto assumido desde que pariu o primeiro filho, no começo dos anos 1900, a avó não se intimidou com a rasteira e passou a ser pai, também, para alimentar, defender e encaminhar 12 pequenos aprendizes. Minha mãe, órfã aos 3 ou 4 anos de idade, conta que pessoas insistiram para ficar com alguns filhos de Joventina, para serem criados onde teriam mais garantia de comida, mas isso soava como insulto ao seu brio, à fidelidade ao seu compromisso. Dizia que onde comia um, comiam todos. E “vingaram”, com dentes bons e ossos fortes. Nos meus exercícios de perscrutar a história que me antecedeu, sempre me detenho ante uma cena que não foi ficção para Joventina: 12 bocas a esperar comida, 12 pares de olhos a lançar sobre ela perguntas, 12 vidas que moldou com as mãos, o instinto, uns tapas e a fé. Como terá sido isso e como é que deu conta? Defendeu-os da seca, da sucuri na caatinga, da falta de respostas. Não pôde defender da morte um filho, quando ele tinha só 18 anos, e conteve essa dor sem nome no silêncio. Do jeito que fez, não duvido que fez o melhor. Então, quando ouço a palavra empoderamento, dita nas abordagens mais diversas por uma sociedade a firmar direitos no mundo contemporâneo (dos quais não nego o mérito), penso na Joventina Maria dos Santos e seu poder de encaminhar vidas, sem receitas na mão, sem consultores, sem influencers e sem grupos de WhatsApp. Tento enveredar com minha mãe pelos atalhos por onde ela desaparece para ir ao encontro da própria mãe, a avó minha que deixou tamanho legado. Nos olhos de Joventina, nas memórias de Noêmia, construo as Veras que sou e não careço de ser nada além do barro com que me fizeram. Resistência a um mundo moldado por homens (Marcia Rosa de Mendonça Silva)