[[legacy_image_272335]] Terapeuta e docente do Departamento de Políticas Públicas de Saúde Coletiva da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Luciana Surjus aborda as ofertas públicas para as pessoas em situação de rua e o papel da universidade em relação a elas. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! Muitas prefeituras oferecem abrigos às pessoas em situação de rua, mas ainda existe resistência. O que falta para que essas pessoas aceitem? Isso tem sido um desafio para muitas prefeituras: ter a disponibilização de vagas de abrigo tradicionais e ter baixa adesão — e com aumento dessa baixa adesão ao longo do tempo. Como a população em situação de rua é um grupo bastante heterogêneo, as necessidades são muito distintas. A variedade de ofertas tem de responder ao momento de vida em que a pessoa está. Quando essa população é tratada como um grupo homogêneo, muitas delas não veem na oferta pública algo palpável para responder às suas necessidades. Algumas prefeituras até deixaram vaga para os animais, geralmente os fiéis companheiros das pessoas em situação de rua... Sim, algumas prefeituras têm os abrigos com os animais. Algumas têm o canil, mas isso não tem uma adesão, porque eles querem ficar com o animal. Algumas prefeituras montaram casas específicas para gestantes em situação de rua e uso de drogas. Também existem casas para pessoas trans, vítimas de muita violência nesse contexto de rua. As respostas diferenciadas vão tendo maior adesão porque, de fato, respeitam essas peculiaridades, e as pessoas se sentem tratadas a partir de sua história e de seus desejos de seguir pela vida. Essa identificação parte da abordagem feita pelas equipes? Sim. Acho que as equipes volantes têm papel fundamental. É uma população que encontra uma resistência muito grande de acesso aos serviços fixos: a Unidade Básica de Saúde, o Centro de Referência em Assistência Social... É uma população que já vem tão violada dos seus direitos que nem se sente no direito de ir a um lugar como esse buscar ajuda. As equipes móveis, tanto da Assistência Social quanto do SUS, são fundamentais para construir uma relação de vínculo e de confiança, ajudando a articular recursos necessários. Em Santos, o túnel do Veículo Leve Sobre Trilhos (VLT), no José Menino, é conhecido pela presença de pessoas em situação de rua e usuários de crack. Ele está passando por obra para que ninguém fique nele. Que vai acontecer? Elas vão procurar outros lugares para garantir o que acessavam ali e que é muito pouco, às vezes, só o teto. Planejar ações como essa, incluindo as pessoas nessa solução, costuma ser mais resolutivo, trazendo-as para um lugar de protagonismo, para que também possam construir e fazer parte dessa solução. E estão muito disponíveis para isso. Como a universidade tem trabalhado para atender a essa população? A gente tem vários projetos na Unifesp, que é universidade pública e tem essa responsabilidade pública na sua gênese. A gente tem tentado trabalhar em conjunto, para produzir conhecimento que informe as políticas públicas para melhor atendê-las. Coordeno um projeto, a partir de um grupo de estudo e pesquisa, em que a gente tem se surpreendido com as conquistas: pessoas que não queriam deixar a rua e resolveram sair, que voltaram a estudar e têm agora o seu diploma, além de duas que tinham entrado como pessoas em situação de rua para um projeto de extensão e, recentemente, viraram acadêmicos do curso de Serviço Social, o que nos orgulha muito.