[[legacy_image_232271]] Em espanhol, um dos significados de cañas é cana, o bambu que padece à ventania, curva-se, enverga, mas jamais se parte. Na música brasileira, hoje, há uma Ana que já teve da vida o tom da ventania e, como o bambu, inclinou-se para sobreviver. Hoje, aos 42 anos, após encarar o desafio de trabalhar um álbum com canções de Belchior pouco complacentes ao intérprete, e prestes a lançar um DVD com essas mesmas canções, Ana Cañas olha para trás e vê a música como a sua tábua de salvação. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! “Nunca vislumbrei a carreira de cantora. Minha história é muito diferente. Sempre gostei de arte, fui envolvida com teatro, mas eu gostava do texto, dirigir, montar trilha sonora... nunca quis ser atriz. E cantar é também estar no front, é se expor”. A necessidade fez a música na vida de Ana: aos 18 anos, o jeito de pensar e de estar no mundo a colocaram em conflito com a mãe. Os desentendimentos a levaram a sair de casa e ir morar com a avó paterna. “Era na Cidade Dutra (distrito na Capital), perto da Favelinha 19. Na casa havia várias marcas de bala na parede. Era um local hostil”, recorda. Ganhar a vida nessa época não era fácil. De distribuição de amostra grátis em supermercado a panfletagem em farol, Ana se virava. Contudo, o epicentro do trabalho sempre era muito longe da distante Cidade Dutra, no Sul de São Paulo. “Levava duas horas cada viagem”. Mudança e amadurecimento A solução veio da avó, que sugeriu à neta que se mudasse para o pensionato de uma amiga, mais bem localizado. “Era um pensionato simples e acabei conhecendo várias mulheres, prostitutas... Foi uma mudança de rota muito brusca, que requereu um amadurecimento muito forte”. No cardápio salgado desse amadurecimento, constava dormir em quartos sem janela ou ter que esconder a comida, porque as outras moradoras acabavam pegando. “Por necessidade”, enfatiza. Em meio a esse choque da vida a uma menina de 18 anos que, além de tudo, teve pouco contato com o pai, certo dia, um amigo perguntou a ela se sabia cantar. Ana foi sincera: não sabia. Mas a necessidade a fez ousar: “Se eu aprender, você vai me arrumar trabalho?” O amigo disse que sim e que no dia seguinte passaria para deixar um CD com as músicas que Ana teria de aprender. Para ela, que já fazia tantos bicos, seria apenas mais uma fonte para “arrumar um troco”. “Mas quando eu ouvi as músicas... eram canções de Ella Fitzgerald, Billie Holiday... Nunca vou me esquecer quando ouvi as duas”, resume o impacto. “Era para cantar em um hotel e esse era o repertório. Nem roupa eu tinha. Mas aquilo começou a me transformar”. Impacto Óbvio, Ana já tinha ouvido muita música em sua vida. Mas a emoção de ouvir Ella e Billie foi o que a despertou para a música. “É uma coisa de alma, envolve até o aparelho vocal que a gente tem... |Um povo que sofreu muito, tem uma questão de dor, do racismo... São capazes de produzir coisas e sentimentos cantando muito forte”. Ana passou no teste para o trabalho de cantora e não parou mais. Os compromissos foram se avolumando e, em pouco tempo, estava cantando jazz e bossa nova todos os dias, mas em pequenos bares e casas simples. Cultura Assim como os Estados Unidos, o Brasil é formado pela arte e cultura africanas – também na música. Mas, se o blues e o jazz de lá tendem à introspecção – há exceções –, o samba e o pagode daqui transbordam alegria, seja na temática ou no próprio ritmo. Para Ana, o brasileiro tem essa difusa vocação para a alegria. “Já me perguntei de onde isso vem. Walter Firmo, que fotografou o povo preto... Tem uma foto em um presídio, acho que nos anos 50, em que os presos estavam fazendo uma pirâmide humana e gargalhando para a foto”, recorda. “Longe de romantizar o sofrimento e a miséria, mas é uma característica nossa. O nordestino, por exemplo, é muito afetuoso: costuma-se dizer que na Bahia não se tem medo do afeto”. Reencontro com a mãeDez anos sem falar com a mãe terminaram em uma catarse, durante as gravações do DVD sobre Belchior. “Percebi que estava me tornando uma pessoa amarga e agressiva, eu afastava as pessoas de mim, eu agredia antes de ser agredida. Sou muito analítica, percebi que havia algo que eu precisava resolver na minha história, para não me tornar esse poço de amargura”, relata. Da constatação ao telefonema: do outro lado da linha, ao ouvir a voz da filha propondo um encontro, a mãe nem conseguiu falar. As lágrimas deram o tom do ‘sim’ para um almoço temperado por sentimentos acumulados há uma década. Passaram a se encontrar toda semana. “Falava tudo o que eu sentia, todas as dores, ela nunca me confrontava, me acolhia”, relembra. “Um dia, fiquei mal: falei tanta coisa a ela... Era minha mãe, sempre sustentou a mim e a meu irmão com muita dificuldade... Reatamos nossa relação e hoje falamos sobre tudo”. Belchior Dos seis álbuns da carreira, cinco são de canções autorais. O mais recente, Ana Cañas Canta Belchior, é o único dedicado a outro compositor. A ideia de voltar a ser intérprete como no tempo dos bares da vida foi amadurecida nas lives da pandemia, em que reunia canções de compositores que admira. Cazuza e Rita Lee são apenas dois deles. Mas, na hora de gravar, por que Belchior? “Durante dois ou três anos, em meu shows, cantei Alucinação e fui aplaudida de pé, era o ápice. Em um Carnaval, cantei para 1 milhão de pessoas. Quando olhei, estava todo mundo chorando”. Como se falasse para si em um espelho, Ana confessa: “Olhei para mim e pensei: ‘a sua estrela está em cantar as músicas de quem admira’. Tem músicas (minhas) que eu gosto, mas são poucas; a Rita Lee, por exemplo, não pode olhar para si e dizer que a estrela dela não está na composição”. Mas Ana não estaria pegando pesado consigo mesma? “Não... Acho que essa compositora ainda está por vir...”. A julgar por sua exuberância e visceralidade no palco, esse lugar da composição não tardará a surgir. Para conhecer mais sobre o trabalho de Ana Cañas, basta acessar o site.