[[legacy_image_245845]] Nas contabilidades da história, subtraia um possível novo Houdini e acrescente uma Menina Veneno. Se o mundo da mágica perdeu um talento, o da música, em especial o pop rock brasileiro, ganhou um clássico eterno. No meio desse transe, o mágico que nunca foi: o cantor e compositor Ritchie. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! “Eu me interessei por mágica na Inglaterra, com 5 anos. Meu avô incentivava a mim, meus irmãos e primos a fazer pequenas apresentações num palco que ele tinha em casa”, relembra Ritchie. “Eu teria sido mágico se não houvesse ouvido os Beatles. Essa passou a ser a mágica que eu queria fazer”, sorri. E eis que Menina Veneno, o seu primeiro grande truque na seara dos Beatles, completou 40 anos. A canção, lançada em compacto em 14 de fevereiro de 1983, vendeu em poucas semanas 500 mil cópias – um feito para a época e até para hoje em dia. Se o sucesso veio em um passe de mágica, esteve longe de ser uma unanimidade dentro da própria gravadora. O pessoal da antiga CBS (atual Sony Music) estava dividido: enquanto uns apostavam, outros duvidavam daquela canção que, com seus quase cinco minutos, extrapolava os três minutos e meio costumeiros para tocar no rádio – e ainda por cima, interpretada por um inglês! “Um divulgador foi visitar emissoras de rádio no Nordeste para apresentar uma fita e ver como era recebida”, relembra. “Acho que, em uma rádio de Fortaleza, ele chegou, perguntou: ‘o que você acha, será que toca?’. O radialista pegou a fita e sumiu para ouvir. Quando voltou, disse: ‘Toca. Já está tocando, fiz uma cópia e coloquei no ar’”, ri. A partir daí, acendeu-se um rastilho de pólvora. Em pouco tempo, a canção tocava em toda a Região Nordeste, com pedidos para compra. “E não havia ainda um compacto pronto”. A CBS, então, se viu obrigada a tirar um álbum da cartola e antecipar o lançamento, inicialmente previsto para abril. “Menina Veneno tocou no rádio, ‘apesar de’. A introdução e o final, que eram longos, acabaram usados para começar e terminar os programas, com o locutor falando por cima. Ou seja, às vezes, tocava duas vezes no mesmo programa”. Você vem não sei de onde Richard David Court chegou ao Brasil em 1972, aos 20 anos. Já envolvido com música, veio a convite de um grupo de brasileiros, entre eles Rita Lee e Liminha, ambos então nos Mutantes, que foram a Londres comprar instrumentos musicais. Por aqui, participou de vários projetos musicais. Em 1975, o mais expressivo deles: assumiu os vocais da banda de rock progressivo Vímana, ao lado de Lulu Santos e Lobão, na bateria (o grupo tinha ainda o baixista Fernando Gama e o tecladista Luiz Simas). Após gravarem um compacto com duas músicas, o grupo se dissolveu em 1977 e seus integrantes abandonaram as canções com mais de 20 minutos, com solos intermináveis, típicas do rock progressivo, para formatos mais enxutos. “Se a gente quisesse tocar no rádio, aumentar o nosso público, a gente precisava, não fazer concessões, mas adaptações, voltar às nossas raízes dos anos 60, que vieram antes do rock progressivo, e tentar reconstruir a carreira de uma forma mais popular”. O mundo é pequeno demais O que o psiquiatra Carl Gustav Jung e a pequena Mary, filha de Ritchie, com 2 anos de idade em 1982, têm em comum? É improvável, mas verdadeiro: ambos foram inspiração para Menina Veneno. De Jung, veio a figura da Ânima, a porção mulher que todo homem traz em si. “Estava lendo Jung, as lendas das mitologias, que ele cita, as mulheres devoradoras de homens, as sereias”, conta o cantor. E quanto a Mary? “Morava num duplex, ela estava aprendendo a subir a escada. A gente estava lá em cima, no quarto, compondo. Lá vinha ela, e o Bernardo (Vilhena, poeta e coautor da canção), começava: ‘ouço passos na escada/vejo a porta abrir”, sorri. “A canção nasceu dessa mistura, do épico, universal, e do que nos rodeava no momento”. A gravação da música foi realizada em 31 de dezembro de 1982, ‘por debaixo dos panos’: era o único horário disponível, mas o acertado era que Ritchie adaptasse para 24 canais as canções Voo de Coração e Baby Meu Bem (Te Amo), gravadas originalmente em oito. O cantor passou por cima do acordo e gravou do zero Menina Veneno. Mas nem preciso chamar A bem-sucedida ousadia também foi calcanhar de Aquiles. Menina Veneno não teve nenhuma estratégia especial de divulgação: tocou organicamente Brasil afora e comprovou que o cantor ‘tinha razão’ ao bancar a gravação inusitada para a época. Ainda mais que o primeiro álbum, Voo de Coração, lançado em junho, foi um dos mais vendidos no Brasil naquele ano. Além de Menina Veneno, trouxe hits como a faixa-título, Pelo Interfone, A Vida Tem Dessas Coisas e Casanova. Mas se o sucesso chancelou a visão de Ritchie, também o isolou na gravadora. “Deixa ele lá, ele sabe o que fazer’, diziam. Eu não era muito bom para me relacionar, poderia ter sido mais político, ter ouvido mais, ter sido menos dono da bola”. Quando lançou E A Vida Continua, o segundo álbum, em 1984, sentiu esse isolamento: ao precisar de apoio, viu-se sozinho. Embora não tenha sido um fracasso de vendas, passou longe do sucesso anterior. Da mesma forma, os álbuns seguintes. Mas Menina Veneno já tinha para sempre inscrito o nome de Ritchie na história do pop rock brasileiro. “Acho que não faria nada diferente: gravei os discos que queria; uns tiveram sucesso, outros não”. Carne ou carmim?É carne! “Alguém postou carmim como trolada, não é possível que não tenham lido a contracapa!”, diz, sobre a polêmica do trecho “...um abajur cor de carne...”, em que se postula que Ritchie canta ‘carmim’. “Carmim é uma palavra oxítona e não existe cor de carmim. O Bernardo estava lendo uma biografia de Marlene Dietrich, em que ela falava dos abajures cor de carne de um hotel. Aquilo ficou e dava uma ideia também de carnal, de ‘a carne é fraca’. Roberto CarlosHouve o rumor de que o Rei teria ficado enciumado com o sucesso e sabotado Ritchie na gravadora. O próprio Tim Maia, em uma entrevista, disse isso. Mas a história nunca foi comprovada. Fato é, já nos anos 90, após um show em Angra dos Reis, um radialista local o abordou e disse ter recebido um jabá da própria gravadora para não tocar A Mulher Invisível, do segundo álbum. Hoje em diaRitchie está com dois projetos musicais, baseados na obra de Simon Garfunkel e de Cat Stevens. O terceiro seria sobre James Taylor, mas a pandemia atrasou os planos. No entanto, dedica-se mais ainda à mágica. Para os 40 anos de Menina Veneno, talvez celebre juntando suas duas paixões. “Pode ser que faça algo on-line, cantando músicas acústicas, fazendo mágicas e conversando com o público, em salas com poucas pessoas, para todos terem a chance de perguntar”, revela.