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Quarta-feira

15 de Julho de 2020

Tente, invente, um TamTam (bem) diferente (e virtual)

Na quarentena, ordem é não deixar a energia cair, mesmo de casa

A rotina da maioria das pessoas mudou radicalmente desde que a pandemia começou nos quatro cantos do mundo. E no TamTam não foi diferente. Afinal, tudo aquilo que era realizado junto e misturado, agora está em constante mutação devido ao distanciamento social obrigatório.

Assim, as atividades de teatro, dança, literatura e muito mais, realizadas presencialmente na ONG santista, foram transportadas para o mundo virtual, desde 19 de março.

Aulas de balé, drama-tizações, cantos, leituras e até produções literárias passaram a ser veiculas no Instagram e YouTube do projeto. Mas, para surpresa e felicidade geral dos envolvidos, o novo normal acabou se transformando em gratas experiências, igualmente enriquecedoras. E o melhor: extrapolou o espaço da ONG, que atua ativamente no espaço no Teatro Rolidei, montado no Teatro Municipal de Santos, há mais de 30 anos. Isto porque, pela internet, o alcance das atividades está chegando a outras cidades e estados. “A rotina está sendo uma verdadeira loucura, ao mesmo tempo que são adaptações, descobrimos novas formas de atuar, sem deixar cair a energia e o amor! Isso está sendo vital”, assegura Claudia Alonso, professora de dança e uma das coordenadoras da TamTam, junto com o diretor Renato Di Renzo. 

“As famílias – dos cerca de 190 beneficiários, entre pessoas com necessidades especiais ou não – estão mobilizadas. Todos juntos, fazem juntos, criam juntos e descobrem juntos novas formas de fazer nossas Artes Tamtam”, comemora Claudia. E com isso, como diz Di Renzo, “garantimos a grande saúde da nossa eterna loucura”. Afinal, como enfatiza Claudia, é super importante manter a saúde física global e especialmente a mental. “Estar pleno dentro de uma realidade posta, onde ninguém pôde escolher. Sentir que pode fazer, que consegue vencer a barreira da distância, mesmo longe. Isso é potência de vida!”
Para ela, muitos podem chamar de fé e por que não? “É a gente crer na vida e nos seus milagres e entender o nosso papel nisso tudo. É a gente ser solidário, empático e responsável. Não é pena, é cidadania”, destaca Claudia.

E é com esse pensamento e determinação que a família TamTam continua unida, mesmo a distância. Cada um na sua casa, se exercitando nas aulas diárias – abertas a todos os interessados, por sinal –, fazendo leituras e compondo poesias e até haicais. “Há respiração, alongamento, trabalho de tônus muscular e conceitos básicos de balé, jazz e dança livre! Temos pessoas de São Paulo, de várias cidades! E as famílias juntas, as mães filmando os filhos ou vice-versa... Uma delícia!”, conta Claudia.

Tudo feito e pensado com o propósito de manter uma rotina saudável, que preencha esse vazio que tanto assusta a todos mas que, confiamos, vai passar! “Penso nisso todos dias... O que é esta fase, a que veio, o que já mudou e o que vai mudar? Me coloco como finita, me entendo assim e penso: nada de perder tempo! Estou aqui, estou viva. Então vamos tecer redes gigantes, invisíveis, mas fortes, que potencializam a vida”, reflete Claudia.

Palavrório TamTam, um forte aliado

Além das aulas on-line, os professores e voluntários da ONG continuam a fazer as atividades internas. Como explica Claudia Alonso, são tarefas e aulas que cada um dos educadores e colaboradores gravam, escrevem ou filmam nas suas casas, de cada uma das atividades. 

“Temos um Informe TamTam interno e grupos por aulas e atividades. Todos recebem e fazem as atividades nas suas casas. Enviam pra gente por WhatsApp, direct (Instagram)ou messenger. A gente corrige, reexplica se precisa, faz chamada de vídeo... o que precisar”, detalha Claudia.

Na área de literatura, as escritoras Regina Alonso e Teresa Teixeira dão temas semanais aos beneficiários. Eles leem textos, ouvem músicas, refletem momentos e fazem poemas ou narrativas, que as mestras orientam a distância. Cria-se um texto com imagem, que é publicado no Instagram e facebook da TamTam. 

“A partir disso, passamos a fazer as Leituras Abertas Outras Palavras, aos sábados, às 17h30”, avisa Claudia, também pelo seu Instagram. Já a Thays Ayres, arte-educadora da ONG, lê as produções, enquanto a Claudia as transforma em Linguagem Brasileira de Sinais (Libras). “É top! Um monte de gente assiste, opina, fala o que sente com os textos”.

Aliás, a partir dessas leituras, Claudia conta que uma senhora, a dona Beth, cujo filho é colaborador da TamTam e as duas netas são alunas, escreveu um texto espontaneamente, como um desabafo. Com ele nasceu o que chamaram de Palavrório TamTam. “Nele, qualquer pessoa pode escrever, desabafar, tipo ‘vômito de palavras’ e nas quartas à tarde, às 17 horas, lemos no mesmo esquema: Thays lê e eu faço libras!”.

“Posso dizer que estamos com uma rotina muito intensa, talvez até mais puxada porque estamos de ‘plantão’, disponíveis a maior parte do dia e enfrentando novos desafios na forma de fazer que é diferente, desafiadora”, avalia Thays. “Trabalhamos com pessoas, cuidamos... fazer isso via internet é um desafio, mas acho que estamos nos redescobrindo e desenvolvendo um trabalho inovador de arte em todas as suas potências”.

Como destaca Renato Di Renzo, todos estão fora de suas estabilidades e de seus controles. E como avalia, depois de alguns dias confinados, por mais que se queira manter a “norma (lidade)”, todos se percebem outro, ou vem à tona um ‘outro’ que também habita em nós, frágil, com medo. “Ou melhor, com medos, no plural. É muito corte pra pouco mercúrio, band-aid”, compara o diretor da TamTam. “Mas todos nós, juntos, somos mais bonitos que isso tudo. E temos que continuar expondo o lado melhor de uma dor que parece não doer! E assim nos refazendo e nos religando... em nós !”

“Todos nós, juntos, somos mais bonitos que isso tudo. E temos que continuar expondo o lado melhor de uma dor que parece não doer! E assim nos refazendo e nos religando... em nós”, disse di Renzo (Foto: Rogério Soares/Arquivo/AT)

Rotina diária on-line é um alento

Todo esse empenho e carinho, mesmo que virtual, chega com intensidade às casas de todos os beneficiários e suas famílias, educadores e voluntários. E funcionam como um alento e tanto. 

Como destaca a Elizabeth Pellilini, mãe da Francisca, 27 anos, que tem Síndrome de Down, as aulas diárias de dança e ginástica têm ajudado sua filha a criar uma expectativa boa, que a tira do quarto e a faz se movimentar. “Desde que a quarentena começou, a Francisca só queria ficar no quarto, de pijama. Mas assim que a nova rotina da TamTam começou, ela fica animada e faz as aulas, diariamente. Isso a ajuda muito. É estar junto, apesar de separados”, destaca Beth, que também acompanha a filha nos exercícios e até poemas já escreveu nas dinâmicas de literatura.

Emileine Julia, mãe da também down Bruna, de 20 anos, afirma que a filha também se ressentiu bastante da falta das aulas presenciais na ONG. “Ela é uma menina muito ativa, com muitas atividades diárias. E com a quarentena tudo mudou. Foi quando a Claudia (Alonso) teve a magnífica ideia de dar aulas on-line pelo Instagram. Isso foi a salvação para Bruna, que já acorda como antes, sabendo que tem aula na live”, conta Emileine. “Mesmo de casa ela consegue fazer todas as aulas e estar em movimento, tanto pela coordenação do corpo quanto da cabeça estar ativa”.

Leonardo Morais, de 22 anos, se formou recentemente em Engenharia e pôde retornar ao TamTam no final de 2019. E agora, mesmo que remotamente, não perde uma aula de teatro e dança. “Estou fazendo as aulas de dança, de segunda a sexta, e está me fazendo muito bem. Está me ajudando a manter a rotina de um modo agradável, é um ‘escape’”, relata Leonardo, que começou a frequentar o TamTam em 2012. “Fora isso, estou fazendo as atividades de teatro e leitura de textos teatrais duas vezes por semana. No começo fiquei desanimado com a ideia, porque o teatro é estar presente, é se comunicar com o outro. Mas com o tempo vi que está dando certo. Estamos fazendo teatro on-line pela câmera e áudio. Me sinto mais saudável e feliz participando de tudo isso”.

Leonardo realiza as atividades teatrais e de dança: “Me sinto feliz” (Foto: Divulgação/Projeto TamTam)

 

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