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Sexta-feira

22 de Novembro de 2019

Peça traz Denise Fraga sozinha em cena pela primeira vez

"Eu de Você" é uma espécie de síntese de um projeto antigo, que Denise põe em prática desde 2008, quando estreou "A Alma Boa de Setsuan"

Pela primeira vez, Denise Fraga está sozinha em cena. Acostumada a trabalhar com elencos numerosos, com mais de uma dezena de atores ao seu lado, a atriz agora encena o monólogo Eu de Você. A escolha por um espetáculo solo poderia sugerir uma mudança de rumos na carreira. Ou uma necessidade de se adequar aos novos tempos - de orçamentos curtos e temporadas reduzidas. Mas não é nada disso o que está em jogo na peça em cartaz no Teatro Vivo.

Eu de Você é uma espécie de síntese de um projeto antigo, que Denise põe em prática desde 2008, quando estreou A Alma Boa de Setsuan. Para montar o texto do alemão Bertolt Brecht, e transformá-lo em um sucesso de público, a intérprete jogava com uma ideia: conciliar o humor, pelo qual ficou reconhecida, com um convite à reflexão. Como ser boa em um mundo em que é preciso competir pela sobrevivência?, questionava com a obra de Brecht.

Nas montagens que vieram na sequência: Galileu, Galilei (2015), também de Brecht, e A Visita da Velha Senhora (2017), de Friedrich Dürrenmatt, sabemos que a vontade de dialogar com a plateia persistia. Ao lidar com os dilemas éticos de Galileu - que acreditava ser possível aliar-se ao poder sem renunciar à sua liberdade - ou com os métodos de vingança da velha senhora, a atriz não parecia interessada apenas em montar grandes títulos do teatro universal. Mas, sobretudo, em levar seus espectadores a um percurso de questionamento e autoanálise. Primeiro, desarmando-os com o humor; depois colocando-os diante da dualidade entre o indivíduo e a sociedade em que vive.

O que muda nesta peça dirigida por Luiz Villaça é o formato. As histórias são mais curtas e os personagens vieram de episódios verídicos que a equipe de dramaturgia recolheu. Isso, porém, não altera o essencial. A intérprete volta a usar não apenas o riso, mas todo o seu poder de comunicação, para dialogar sobre assuntos encobertos pelo cotidiano frenético das grandes cidades O que existe por trás dos funcionários sobrecarregados, das pessoas que já foram assaltadas, daquelas que vivem em condição de violência psicológica sem nem se dar conta disso? O que eu tenho a ver com isso?

Há uma personagem, Tânia, que funciona como uma espécie de fio organizador. Ela acorda cedo, tem de dar conta da casa e das crianças, e passa o dia trancafiada em um escritório tendo de lidar com um chefe obtuso. A partir dela, outras figuras vão surgindo, homens e mulheres quaisquer, com dramas a um só tempo comuns e extraordinários. Em meio a esses fiapos de narrativa, a dramaturgia também costura canções e trechos retirados de poemas ou romances. Tudo muito naturalmente, sempre sustentando um pacto de cumplicidade com quem assiste. É como se essa voz nos dissesse: Não estamos apartados da poesia - a beleza é também o que nos une, um lugar onde podemos nos reconhecer como semelhantes.

Para fazer da plateia sua cúmplice, a atriz se apoia em uma interpretação calculada, balanço delicado de verborragia e silêncios. Breves intervalos inertes, sem som e sem movimento, nos quais Denise transforma sua presença em um espelho para cada um dos seus espectadores.

No teatro contemporâneo, não se espera mais de um ator que transponha e imite um determinado indivíduo. O que essa artista faz, e faz com maestria, é gerir suas emoções com tal domínio a ponto de dar ao público a chance de entrever muitos seres em um só corpo. Enquanto é uma professora primária ou um homem que canta em um karaokê, Denise é sempre ela mesma. Ou a imagem que fazemos dela.

A ausência de um esforço mimético - ou seja, da intenção de replicar a realidade - confere a toda encenação um oportuno ar de simplicidade. Quando encontramos cada um desses esboços de personagens, descobrimos também o olhar amoroso que a encenação lhes dedica. Não é nunca um olhar que busca a falta, o erro, a culpa. O que se dá ali é um encontro de iguais - com suas fraturas e suas pequenas glórias. Com suas misérias e um fiapo de esperança.

O que essa atriz faz é nos guiar, como se fosse portadora de uma verdade antiga, como alguém que conhece a força dos rituais. Ela sobe ao palco e nos diz que está só. Não acreditamos. Denise Fraga, em Eu de Você, é uma multidão.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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