Parasita: a luta de classes vai ao paraíso

Ganhador da Palma de Ouro e do Globo de Ouro, filme do diretor sul-coreano Bong Joon-Ho é um dos melhores da década

A década de 2010 termina com uma das melhores safras recentes do cinema. Em 2019, Jordan Peele se consolidou como um diretor capaz de renovar o gênero de terror com o brilhante. E o nova-iorquino Ari Aster cumpriu, no aterrador Midsommar, a promessa da sua surpreendente e bem-sucedida estreia, em 2018, com Hereditário.  

O Coringa, de Joaquin Phoenix e Todd Philips, levou o filme de super-herói ao mundo adulto. Martin Scorsese elevou a Netflix à estatura do Oscar, na ópera de gângsteres O Irlandês. E todo ano com lançamento de Quentin Tarantino já tem pelo menos uma obra memorável no currículo – no caso, Era Uma Vez em Hollywood, um sarcástico réquiem para os anos 60. 

Mas o melhor filme de 2019 não foi produzido nos Estados Unidos. Ele veio da Coreia do Sul. E conseguiu ser reconhecido no próprio ano de lançamento, ao conquistar a Palma de Ouro, no Festival de Cannes, e o Globo de Ouro, além de obter indicações ao Oscar. Parasita, do diretor Bong Joon-Ho, é não só um filme ainda mais original na temática que todos os outros mencionados, como na ousadia narrativa fica em pé de igualdade com o de qualquer grande diretor ocidental. 

O filme traz de volta uma questão cara aos cineastas europeus mais politizados da década de 70, mas que hoje parece inusitada, por andar há tempos fora de moda, ou longe da preocupação dos realizadores. Parasita fala sobre a luta de classes, nada menos, mas de uma perspectiva pós-ideológica. 

Bong Joon-Ho não se interessa por discursos, e muito menos mensagens de qualquer tipo. É possível ver o filme de uma perspectiva política, mas ele é muito mais uma impiedosa observação sociológica das relações entre a moderna elite coreana e as camadas populares que ficaram de fora do milagre econômico das últimas décadas. 

Os destituídos de Parasita cansam de viver como espectadores da afluência e decidem ir em busca de um lugar ao sol. Não estão atrás de dignidade, e sim de um bom sinal de wi-fi. Não são coitadinhos, ou heróis, mas predadores em potencial, só à espera de uma oportunidade para virar um jogo no qual a única regra é se dar bem. É uma temática que se situa no mesmo território de Assunto de Família (Shoplifters), do japonês Hirokazu Koreeda, que levou a Palma de Ouro de 2018, também colocando uma família disfuncional e especializada em trambiques no centro da ação. 

E se barra a ideologia, Bong Joon-Ho abre as portas para elementos de todos os gêneros com os quais trabalhou em seus outros filmes, da comédia de humor negro ao terror, passando pelo drama policial e o suspense. O diretor, nos últimos 20 anos, tem emplacado no mercado internacional (Brasil incluído), alguns dos melhores exemplares do cinema asiático, como os ótimos O Hospedeiro (2006), Memórias de um Assassino (2003) e a superprodução de ficção científica Expresso do Amanhã (2013). 

Uma das novidades mais impactantes do século atual foi o acesso inédito à produção cinematográfica vinda do oriente. Nos anos 2000, a onda do J-Horror, o terror japonês inspirado em histórias de fantasmas, mostrou a viabilidade comercial desse segmento. No rastro do sucesso, foram revelados (ou se consolidaram) autores que passaram a figurar entre os mais importantes da atualidade – além de Joon-Ho, seu compatriota Park Chan Wook (Oldboy, Sede de Sangue) e os japoneses Takashi Miike (Audição, Ichi, the Killer) e Takeshi Kitano (Brother, Hana-bi - Fogos de Artifício). 

Os sul-coreanos, em particular, têm um sentido estético menos espetacular que os japoneses e tendem a compensar o perfil discreto com abordagens mais surpreendentes. No caso de Bong Joon-Ho, além da evidente variedade do repertório criativo, ainda se pode reconhecer nele uma consistência rara entre cineastas de qualquer origem.  

‘Parasita’ se alinha com a filmografia de todos os melhores diretores contemporâneos, ao propor um enfoque inovador para um tema que se imaginava esgotado por clichês e estruturas narrativas esquemáticas. A década não poderia fechar as cortinas com uma obra capaz de representar melhor o potencial de renovação permanente – e global – do cinema. 

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