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Quinta-feira

6 de Agosto de 2020

Odair José: de brega a cult após 50 anos de carreira

Aos 71 anos, cantor e compositor se diz 'reinventado' pelo rock

É impossível olhar pelo retrovisor da música brasileira sem falar dele. Corriam os anos 1970, e a polarização meio que já estava lá: com o AI-5 comendo solto, pairavam no ar ecos da música de protesto (Chico Buarque, Geraldo Vandré) e do tropicalismo (Gil, Caetano etc), enquanto a MPB “raiz” (Elis, Milton Nascimento, Tom, Vinícius..) desafiava a influência ainda perene da Jovem Guarda.

Nesse fogo cruzado musical, o rapaz caipira de Morrinhos, no interior goiano, que quase virou futebolista, surge de mansinho, com uma toada romântica de melodias simples, mas de temas explosivos que questionavam hábitos e costumes varridos para debaixo do tapete na época: gravidez indesejada, sexo descompromissado, casamento sem papel passado, divórcio, paixões por domésticas e prostitutas, dogmas religiosos – enfim, a vida como ela é.

Cronista de um Brasil que passava batido pela cena musical de então, Odair, dotado de faro popular incomum, estabeleceu régua e compasso a um inédito raio-x da classe média e média-baixa, o que o fez cair nas graças do gosto popular. Nem sempre foi compreendido, mas o grande público não estava nem aí.

 Se hoje o sucesso é medido por likes, difícil até explicar suas colossais vendagens de discos (média de 500 mil cópias por lançamento), e o quanto as rádios “martelavam” seus hits.

Falar aos subúrbios lhe rendeu alcunhas pouco elogiosas mas, vejam só, o “brega”, o “Bob Dylan da Central do Brasil”, venceu – ao completarem-se 50 anos do lançamento de seu primeiro disco, no longínquo 1970, o Odair José 2020, que nunca parou de gravar e excursionar, tem status de “cult”, é palatável a novos públicos e abrilhanta festivais de música alternativa.

 “Gosto de andar com pessoas e caminhos alternativos, sempre gostei”, afirma. “Nesse meio, sou entendido na minha criação e tenho parceiros nas minhas loucuras. É muito mais prazeroso e motivador, mesmo tendo um alcance menor”. Mais: execrada em 1977, a ópera-rock O Filho de José e Maria, na qual ele apostou alto e pagou caro pela ousadia, encontrou a redenção, reavaliada e consagrada, com direito a show antológico no Teatro Municipal de São Paulo, durante a Virada Cultural 2013.

Sem viver de glórias passadas, Odair mantém a verve afiada: “Incrível liquidação de armas de fogo / Você pediu, agora chupa / o assunto agora é a cultura da bala / na falta de argumento, a solução é uma vala”, vocifera “Chumbo Grosso”, faixa de Hibernar na Casa das Moças Ouvindo Rádio, seu elogiado álbum de 2019 (ver na próxima página) – semelhanças com a realidade? “Não precisava nem muito esforço. O pior do momento que estamos vivendo na política e na sociedade, como um todo, é a previsibilidade”, ironiza.

O que há em comum entre o Odair roqueiro de hoje e o autor de “Pare de Tomar a Pílula” e “Deixe Essa Vergonha de Lado” é justamente o cronista social atento, que não fica em cima do muro. “Sou do interior de Goiás. Sempre fui a favor da reforma agrária, não consigo ver um mundo melhor apenas com o agronegócio”, diz.

Prolífico, em plena forma física aos 71 anos, cravou, em tempos recentes, uma trinca de ótimos discos, arejados, de pegada irresistivelmente pop. “Me reinventei no rock. E agradeço por estar conseguindo me misturar com um novo tempo. Sem esquecer o passado, mas vivendo o presente”.

Na entrevista exclusiva à A Tribuna, Odair abre o jogo: sucesso, a amizade com Raul Seixas, os inúmeros problemas com a censura, drogas (“cheguei a viver um ano em uma noite acreditando que era o certo pra mim”), “sofrência”, o disco polêmico que quase lhe valeu (literalmente) um passaporte para o inferno, as falências, a redenção e de como manter a relevância artística após mais de cinco décadas na ribalta.

O que tem feito durante a quarentena?

Olha, estou em isolamento praticamente há dois meses e o que tenho feito é tentar me exercitar no espaço que tenho em casa, pois é importante para o corpo não perder o ritmo. Tenho lido, tenho estudado guitarra quase diariamente, e sempre pinta uma ideia pra uma nova canção. Tenho no meu repertório mais de 400 músicas e aproveito pra relembrar. E torcendo pra que esse momento passe logo e possamos todos voltar ao normal!

 

Hibernar, como sugere o título quase premonitório de seu mais recente trabalho, foi a reação ante ao nível no mínimo discutível de parte significativa da música feita no país hoje?

Sem querer, terminei sendo profético, como já aconteceu com outras composições minhas, ao tentar falar sobre observações do dia a dia. Foi minha reação ao conteúdo da “cena geral”, de um tempo que, a meu ver, perdeu o sentido lógico da razão. Andamos para trás! E começamos a fazer a colheita das escolhas erradas.

 

Seus discos mais recentes, a trilogia Dia 16 (2015), Gatos e Ratos (2016) e Hibernar, de 2019, são pop sem perder a lavra autoral. Você se reinventou no rock?

Felizmente, sim. Nessa minha recente trilogia, me senti livre de amarras e conceitos de um mercado musical pobre em sua observação sobre o seu tempo e, portanto, sem relevância a não ser pelo formato do negócio, onde só se busca o faturamento imediato sem se preocupar com a arte. E fico agradecido por estar conseguindo me misturar com um novo tempo... sem esquecer o passado, mas vivendo o presente. Viva o rock!

 

O primeiro disco, que leva seu nome, completa 50 anos de lançamento em 2020. É possível identificar nele elementos em comum com sua obra futura: textos confessionais na primeira pessoa, doses de romantismo, ecos de Jovem Guarda. Que releitura faz dele hoje, e quais suas memórias das gravações?

Ele foi gravado e lançado em 1970, pela CBS. Foi um momento único. Eu estava naquela “pilha” do início, com muita vontade de acertar, e acho que pra quem estava começando, fiz um bom trabalho. Era minha primeira oportunidade, mas estava ao lado de pessoas de muita qualidade. Rossini Pinto, Raulzito (Raul Seixas), Renato Barros, maestro Pachequinho e um engenheiro incrível de nome Eugênio. Era o início, mas foi muito legal. Lembro com saudade!

 

Àquela altura, já se sentia artisticamente pronto?

Acho que não. Já era um bom compositor, cantava sem desafinar e tinha sentido da interpretação, pois desde os 14 anos eu trabalhava em bandas, e fiquei uns dois anos tocando na noite do Rio, o que me ensinou bastante. Mas era com certeza um aprendiz sobre técnicas de gravações, na verdade, estou aprendendo até hoje. O mundo da música é cheio de possibilidades.

 

Qual sua primeira lembrança de música, e em que idade? Em que instante teve a certeza de que era aquilo que queria fazer na vida?

Olha, posso te garantir que desde o dia que pedi e ganhei o meu primeiro instrumento. Aos sete anos, pedi um violão e ganhei um cavaquinho, que aliás tenho até hoje. Na adolescência, fizeram de tudo pra me transformar em jogador de futebol profissional, por conta da minha desenvoltura em um torneio realizado entre escolas pela prefeitura de Goiânia, quando eu tinha 14 anos. Mas para a tristeza geral de todos, não me interessei, gostava mesmo era da música.

 

Décadas após o lançamento, sua revisão de O Filho de José e Maria, anos atrás, foi tão bem sucedida que virou CD e DVD ao vivo. Há hoje um culto em torno do álbum, que passou no teste do tempo. Por que acha que isso acontece?

Na época, ele não foi aceito. Quase me crucificaram, literalmente, como se eu tivesse cometido um pecado, um crime ou simplesmente um enorme erro, e que teria que pagar por isso. A censura do governo proibiu oito das 18 faixas, já que seria um LP duplo. Foi uma vingança contra o compositor popular que insistia em falar de temas que incomodavam a hipocrisia e a falsa moral estabelecida e protegida por um sistema insistentemente desigual e egoísta. Houve um bloqueio ao Odair José, aplaudido por todos.

 

Por todos, quem?

Até os meus colegas vibraram com aquele corte, já que eu incomodava muito, e se um projeto daquele porte desse certo, naquele momento, muitos teriam que sair de suas zonas de conforto em busca de novas ideias. Fui taxado de louco, ignorando a qualidade de um trabalho à frente do seu tempo. Sou feliz por ter vivido para ver o reconhecimento de que eu não estava errado, sou grato a isso. Eu seria uma pessoa pela metade se não existisse esse disco.

 

Por conta desse disco, comenta-se até hoje sobre uma suposta excomunhão sua pela Igreja Católica. Você foi ou não excomungado?

Sobre esse lance da excomunhão, sinceramente preferi não procurar entender, pois nunca precisei de intermediários pra falar com Deus, e caso tivesse sido, não mudaria nada na minha vida.

 

Que balanço faz do fenômeno musical “sofrência” enquanto regra de mercado, sob a perspectiva de quem vem de Goiás, a terra onde o ritmo é consagrado?

Sou filho de pequenos agricultores de Morrinhos, interior de Goiás. Sempre fui a favor da reforma agrária, não consigo ver um mundo melhor apenas com o agronegócio. Essa minha visão pode ser a resposta para sua colocação. A verdadeira música sertaneja é a agricultura familiar que alimenta as pessoas. Esse outro estilo é o agronegócio, que apenas aumenta o lucro de grandes empresas.

 

Muito do universo que suas letras retratam ainda está “lá fora”, as empregadas domésticas, as classes menos privilegiadas, a quem você falava diretamente como poucos. Esse lado de crônica social é o que preserva até aqui muito da força de sua obra?

Literalmente, e obrigado pela pergunta. Em 1964, na Praça Cívica de Goiânia, vi o golpe militar tirar à força o governador Mauro Borges, eleito pelo povo, do Palácio das Esmeraldas. Ali, percebi que meu destino estaria ligado à missão de ser um alerta para o que é tirado das pessoas mais simples. Fui para o Rio, onde morei em casa de estudantes, e observei uma luta justa, existente no momento. Mais tarde, numa convivência mais íntima com Raulzito, percebi que o meu caminho como compositor seria o das crônicas. Por vezes me perdi, e não consegui fazer com que o meu trabalho tivesse sempre essa relevância. Mas acho que tive bons momentos, estou tentando não me perder mais e con tinuar a judando as pessoas através das canções.

 

Olhando em retrospecto, acha que sua amizade com Raul Seixas poderia ter sido mais prolífica, poderia ter deixado mais frutos?

Poderia sim, e teria dado bons frutos! Mas a vida foi seguindo seu curso e por mais que a gente pensasse nessa possibilidade, ela terminava não acontecendo. Estive bem próximo do Raul, nós dois éramos da CBS. Ele me ajudou na gravação do meu compacto com “Vou Tirar Você Desse Lugar”. Meu produtor era o Rossini Pinto, que não gostava de ficar no estúdio, então o Raul sempre me acompanhava, dava ideias, às vezes tocava uma guitarra ou violão, me ajudava, e também recebia por isso! Com o enorme sucesso da música, comecei a viajar muito, você vive correndo, acaba sem tempo pra sentar com as pessoas. Depois, fui para a (gravadora) Phonogram, e ele també m foi, m as outras coisas continuaram atrapalhando. Inclusive, o sucesso dele “Medo da Chuva”, ele fez pra que eu gravasse no meu disco de 1973, mas a canção chegou atrasada. Mas mesmo longe, sempre estivemos perto um do outro.

 

Em plena ditadura, você era altamente popular através de temas bastante incômodos, e teve muitos problemas com a censura. Comenta-se até sobre um possível autoexílio seu no exterior. Em algum momento temeu ser preso, como aconteceu com outros artistas?

Meu primeiro encontro com a censura foi assim que “Vou Tirar Você Desse Lugar” alcançou enorme sucesso nacional, em 1972. Tive que comparecer a um prédio que ficava próximo aos Arcos da Lapa, no Rio, e ouvir que o refrão da música não era apropriado para o momento e que as minhas próximas músicas, antes de serem gravadas, deveriam ser enviadas para uma liberação ou não. Começaram aí as minhas dificuldades com a censura do governo militar. Nessa época, viajei bastante, fiquei entre Londres e Estados Unidos, mas foram viagens normais. Nunca cheguei a pensar que pudesse ser preso, mas por três vezes, ao terminar shows, fui levado para depor sob o argum ento de desobediência ao cantar músicas proibidas. Houve ainda uma carta endereçada para a gravadora sugerindo que não gravassem comigo, já que na opinião deles eu era uma péssima influência para os jovens.

 

Por outro lado, apesar desses problemas, avalia que o fato de não ser visto exatamente como uma “ameaça subversiva”, por fazer música romântica, lhe permitiu certa liberdade artística de tocar em temas sociais delicados de uma maneira como ninguém fazia?

Creio que sim. Eles não viam o meu trabalho como uma contestação política, mas uma insubordinação aos tais “bons costumes”.

 

Por ser um cantor identificado como de música romântica em uma época socialmente turbulenta, chegou a sofrer patrulhas ideológicas no meio artístico?

Não cheguei a perceber. Com o sucesso nas rádios, as expressivas vendas de discos, a agenda cheia, os shows sempre lotados, não prestei atenção em nenhuma restrição. E, pelo o que me lembro, tanto os colegas da MPB como a crítica especializada sempre demonstravam respeito pelo meu trabalho. E se alguém não gosta, faz parte.

 

Em declarações, você menciona que teve que “procurar seu lugar”, identificar um nicho, na música brasileira, no começo de carreira. Como foi isso?

Pois é, voltamos às minhas conversas com Raul. A gente pensava como poderíamos encaixar nosso trabalho num cenário aparentemente pronto... e o nosso caminho foi praticamente o mesmo, claro, cada um fazendo do seu jeito. Mas como ele mesmo costumava definir, fazíamos um “popular realista”. Ou seja, crônicas.

 

Existe no showbusiness a expressão “cilada do sucesso”. Você não faz rodeios sobre um período de sua vida de envolvimento com substâncias não exatamente lícitas. Que lições tirou desse período?

No meu caso, não foi o sucesso ou a falta dele. Escolhi meus próprios caminhos e o meu jeito de fazer as coisas, e quando você não segue uma conduta esperada, corre riscos. Nunca fui um cara totalmente limpo, “careta”. Sempre fui a favor do “tudo liberado”. E de repente, fui perdendo o interesse por regras de conduta, e “chutei o balde”. Aí, conheci todas as falências: artística, por ter feito um disco que o sistema não queria, financeira, por ter perdido o crédito profissional, e pessoal, por deixar de prestar atenção nos meus verdadeiros valores. “Dei mole” para os contrários da vida e fui ao fundo do poço, de onde você não consegue ter uma boa visão de si mesmo.

 

Você atravessou a era de ouro das gravadoras, vendeu milhões de discos por multinacionais e foi “indie”, artista independente, antes até da popularização do termo. Como se posiciona hoje, ante à força do streaming e das redes sociais?

Estou feliz com o meu momento. Só de saber que estou de novo fazendo as coisas da maneira certa, com disciplina e com uma boa orientação para onde estou querendo ir. Sei que os tempos são outros, entendo e respeito. Nunca fui de contestar o novo e também não fico forçando pra ser aceito nele, acredito que se eu conseguir fazer o meu melhor já valeu a pena, pois é o que fica.

 

71 anos e em muito boa forma física. Há um segredo?

Olha, depois de tanta loucura, sou agradecido, porque o estrago até que não foi tão grande. Estou limpo há mais de 15 anos... troquei meus vícios, agora sou viciado em cuidar do corpo, até porque, na minha idade, com certeza é o certo a fazer. Vamos ver até onde chegamos!

 

Cinco décadas do primeiro disco, 36 álbuns gravados, produção recente elogiada, respeito da crítica, sucesso em festivais de música independente, um público renovado – é essa a melhor resposta aos vários epítetos com que lhe “brindaram” ao longo da carreira?

Olhando para esses 50 anos, mesmo com erros, dá pra ver muitos acertos, e isso me deixa feliz. Não que me sinta realizado, pois sou um otimista teimoso e gostaria de fazer trabalhos que ainda possam ter importância. Não sei se a vida vai continuar me permitindo esse privilégio, mas ainda penso e acredito nisso. Quem sabe?

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