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Segunda-feira

10 de Agosto de 2020

O Irlandês: a arte do crime

Novo filme de Martin Scorsese, lançado pela Netflix, é mais uma crônica definitiva do diretor sobre o submundo

Francis Ford Coppola inventou a mitologia moderna do gângster cinematográfico com o épico O Poderoso Chefão (1972). Foi imitado incansavelmente pelas décadas seguintes, mas só outros dois ou três diretores da mesma estatura conseguiram produzir obras comparáveis, no gênero. Deles, o colega de Nova Hollywood Martin Scorsese foi o único que se dedicou a continuar fazendo desse tipo de filme uma arte.

E é nada além de arte que ele apresenta, mais uma vez, no longa-metragem O Irlandês (The Irishman), recém-lançado na Netflix. A história é baseada num livro sobre o pistoleiro Frank Sheeran, que se envolveu com a máfia e os poderosos sindicatos norte-americanos de caminhoneiros na virada dos anos 50 para os 60, tendo como pano de fundo a Era Kennedy.

Esse é um terreno familiar para o diretor, que fez outros quatro filmes abordando o crime organizado – Caminhos Perigosos (1973), Os Bons Companheiros (1990), Cassino (1995) e Os Infiltrados (2006), todos eles entre os mais importantes de sua carreira.

A diferença é que, se antes Scorsese fazia filmes frenéticos e repletos de referências à cultura pop, com a idade e a experiência acumulada de décadas atrás das câmeras, ele mantém um tom bem mais reflexivo.

Até por isso, não é uma história tão fácil de seguir. Figuras e acontecimentos históricos vão surgindo ao longo das três horas e meia de filme, e assim como no recente Era Uma Vez em Hollywood, de Quentin Tarantino, algum conhecimento prévio dos personagens e situações ajuda muito a tornar mais claro o enredo.

Esses elementos já dão uma ideia da ambição conceitual de Scorsese, que se estendeu às questões técnicas. O aspecto visual mais imediato de O Irlandês são os efeitos de computação gráfica que rejuvenesceram os atores. É uma técnica que ainda precisa ser aperfeiçoada, mas que serve bem a uma história desenvolvida em flashbacks por épocas diferentes.

O que chega pronto é o entrosamento entre os três atores principais. Robert De Niro e Joe Pesci estrelaram juntos vários filmes de Scorsese, e Al Pacino, em seu primeiro trabalho (algo quase inacreditável) com o diretor, rouba cada cena em que aparece. É o que se chama de tour de force, com cada ator se superando na autoridade com que encarna o respectivo personagem.

Martin Scorsese não comete muitos equívocos artísticos, a essa altura da carreira, mas agora ele demonstra como ainda é capaz de não só acertar, como obter grandes triunfos autorais. O filme condensa longos períodos de tempo e situações complexas com a eficiência narrativa de Os Bons Companheiros e o ritmo controlado de Touro Indomável (1980).

O diretor sabe o que fala quando pede ao público que veja O Irlandês de uma vez, e não aos poucos. Assim que estreou na Netflix, no final de novembro, apareceu gente indicando as cenas em que se deve pausar para ver em capítulos. É o risco que qualquer autor de cinema corre, ao lançar filmes por streaming – esbarrar na cultura da minissérie que é parte integral do meio.

Ao mesmo tempo, é a autonomia que torna a plataforma de distribuição tão interessante para diretores de prestígio, como é o caso de Scorsese e Alfonso Cuarón, que também lançou seu Roma (2018) na Netflix. Isso não significa que O Irlandês tenha sido feito para TV. Sua linguagem é a da tela grande.

A exibição durante duas semanas nas salas de cinema não se deve só ao objetivo de cumprir uma das exigências para concorrer ao Oscar, mas a um imperativo estético cada vez mais abraçado pela tecnologia, que procura reproduzir, no ambiente doméstico, uma experiência semelhante à do cinema. E a maioria dos filmes de Martin Scorsese, como se sabe desde Caminhos Perigosos ou Taxi Driver (1976), se presta a repetidas reprises e ainda mais análises.

Como um cronista por excelência do submundo do crime, o diretor volta a revirar as entranhas da América para mostrar que, na terra da oportunidade, o sucesso pode estar a uma bala de distância de um inimigo, ou concorrente. E que, para um pistoleiro de aluguel, ser um pintor de paredes nem sempre significa andar por aí com uma lata de tinta. Nas mãos de Frank Sheeran, um revólver sempre fez o serviço melhor que um pincel.

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