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Sexta-feira

6 de Dezembro de 2019

O fazer cinema em Santos, após o Selo de Cidade Criativa

Após quase quatro anos de o município ter recebido a chancela da Unesco, o que mudou nas produções locais?

Em 2004, a Unesco decidiu criar um título que promovesse a criatividade, a inovação e a cultura como um incentivo para a sociedade se desenvolver de forma mais sustentável e inclusiva. Dessa ideia surgiu o selo de Cidade Criativa, que foi distribuído para 180 municípios em 72 países.

O Brasil faz parte desse número, com oito selos de norte a sul: em Belém, Florianópolis, Paraty, Brasília, Curitiba, João Pessoa, Salvador e Santos.

Cada cidade tem seu selo voltado para um dos campos criativos, como gastronomia em Belém, Florianópolis e Paraty; música em Salvador; artesanato e arte popular em João Pessoa; e design, em Brasília e Curitiba. Santos recebeu seu selo em 2015, sendo a única cidade do País reconhecida no segmento de cinema.

Agora, três anos e meio depois, os realizadores da sétima arte da Cidade compartilham seus pensamentos sobre o que mudou e o que ainda precisa ser investido para tornar a Cidade um grande centro criativo.

“Antes de tudo, é preciso que a gente entenda que esse selo é uma conquista da Cidade”, acredita André Azenha, assessor do Cine Roxy e idealizador do Santos Film Fest. “O selo foi a junção de tudo isso, vários profissionais da área entregaram relatórios para o poder público e isso fez com que a gente recebesse essa oficialização como a cidade diferenciada no cinema”.

Na sua opinião, três anos é pouco tempo para grandes transformações. Mas ele já percebe melhorias na questão de apoios e parcerias.

A grande questão para Azenha é entenderem o significado do selo e se sentirem responsáveis por ele. “Não pode se esperar tudo do poder público. Quem lida com projetos culturais tem que buscar as parcerias de todas as formas”.

Ricardo Vasconcellos, organizador do festival Curta Santos, sente que a conquista do selo é um grande orgulho para os realizadores de cinema da Cidade. Mas Ricardo acredita que pouco utilizaram o título nesse tempo.“A gente tem quatro salas públicas de cinema. Ainda falta fazer uma circulação da produção local nessas salas, para que o produtor local tenha como mostrar seus trabalhos”, sugere.

Lei de fomento
A criação de uma lei de fomento exclusivo para o cinema e audiovisual é outra ideia que Vasconcellos considera fundamental para que a produção cinematográfica da região possa melhorar. “Poucos conseguem patrocínio ou recursos. É necessário que a Prefeitura, o governo municipal incentive essas produções com uma lei que também possa oferecer a circulação dessas obras nas salas públicas e privadas”.

O cineasta ainda enfatiza que em 2020 Santos irá sediar o encontro das Cidades Criativas da Unesco, quando vai receber as comissões dos municípios que têm o selo. “É necessário esforço para que a gente possa dar uma visibilidade para essas pessoas que vêm de fora, de que a cidade respira cinema. A gente já avançou bastante, mas para ter esse selo é preciso uma garantia de melhores condições de realização. É isso que a gente espera”.

Eduardo Ricci, responsável pelo Cine Clube e Cineme-se, tem várias questões sobre o investimento feito pelas secretarias após o selo. “Existem inúmeras questões para pautar sobre o assunto Selo de Cidade Criativa em Cinema. É uma conquista importante, mas ela precisa ser o resultado de uma política clara e co-criativa, aberta, inclusiva, objetiva e, para simplificar, tem de ser resultado da vontade política para expandir o que se faz de cinema em Santos. Claro que houveram realizações importante sobre o assunto, mas não pode ficar fechado em salas e gabinetes”.

Ele afirma que já questionou várias vezes a Secretaria de Cultura (Secult). “Sempre questiono a Secult e eles respondem que falta união ao segmento audiovisual. Daí vem uma pergunta: ‘se não há união necessária no segmento, por que o Selo Criativo foi meta de conquistada gestão atual?’”.

Já de acordo coma coordenadora de cinemas da Secult, Raquel Pellegrini, o selo foi uma conquista da Cidade. A paixão dos santistas pelo cinema fez com que os santistas recebessem o selo. “Por conta dos parceiros que Santos sempre teve, como por exemplo o Instituto Querô. A Prefeitura só está como um órgão social. Mas isso veio por conta da vocação que a cidade sempre teve”.

O secretário de Governo Rogério Santos não soube dizer quanto foi investido no cinema da Cidade a partir do selo. Mas garante que a Prefeitura investiu muito na economia criativa, mesmo antes do selo. “Graças ao título de Cidade Criativa construíram as Vilas Criativas, levaram cineastas a festivais renomados no exterior. E continuam investindo em projetos no audiovisual”.

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