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Quinta-feira

19 de Setembro de 2019

O beijo da discórdia

Polêmica em torno de imagem da revista da Marvel provoca indignação por aqui

Uma briga judicial envolvendo o recolhimento de publicações da temática LGBTI+ marcou esta edição da Bienal do Livro do Rio de Janeiro, encerrada no último domingo (8), e que deixou como símbolo do festival a resistência da livre expressão artística e literária.

A polêmica decisão da Prefeitura do Rio de Janeiro de recolher títulos que tratassem de homossexualidade –com liminares derrubadas durante o final de semana pelo Supremo Tribunal Federal (STF) – foi considerada como um ato de censura e provocou uma reação de indignação no público, autores e editores.

Mas a intenção oficial da administração municipal carioca era “proteger nossas crianças”de “conteúdos impróprios para menores”, conforme postou o prefeito Marcelo Crivella, no Twitter. E promoveu um efeito oposto. Muitas editoras perceberam o aumento de vendas dos livros que tratavam do tema. A graffic novel da Marvel, 'Vingadores, A Cruzada das Crianças', que teria escandalizado o prefeito com um beijo entre dois homens, desapareceu das prateleiras. Não pela ação dos fiscais, mas pelo aumento da procura.

A escritora e moradora de São Vicente Inês Bari, que participou do evento, acredita que a decisão do recolhimento das publicações é um símbolo do momento vivido no País e dos desafios para preservar os direitos de liberdade e de expressão artística.

“De início, foi um susto pela censura. Depois, o alívio e orgulho da decisão dos ministros do STF, impedindo que a Bienal continuasse sofrendo o assédio à literatura e seus conteúdos. Acredito que uma Bienal deva dar voz a todos os públicos”, avalia a autora.

Já a escritora Helena Gomes, que também participou da Bienal e escreve para o público infanto juvenil, diz que crescimento do conservadorismo está acontecendo no Brasil e no mundo, atrelado à intolerância, desinformação, perda de direitos, falta de empatia e de respeito ao próximo e diferenças. “Essa censura à HQ 'Vingadores', movida pela homofobia, é um daqueles absurdos que nos fazem duvidar de que estamos mesmo no século 21. Desde quando um beijo, seja gay ou hétero, representa uma ameaça às crianças? Violência, miséria, fome e, claro, a mentalidade ignorante que faz um ser humano se achar melhor do que o outro: isso, sim, é a verdadeira ameaça”, comenta e acrescenta: “A literatura, inclusive a infanto juvenil, sempre nos levará a compreender o mundo e sua diversidade”.

“Uma vez que não há nada impróprio, como a própria justiça brasileira afirmou, o que é impróprio é o preconceito velado e a ofensa à liberdade de expressão que abrange a produção intelectual, artística, científica e de comunicação de quaisquer ideias ou valores”, defende a escritora e colunista de A Tribuna Vanessa Camphos.

A escritora Susana Ventura reforça que esse tipo de censura vem sendo sentido pelos artistas há cerca de três anos. “Más interpretações de autores muito conhecidos no Brasil, como Ana Maria Machado, Leo Cunha, Luis Puntel, que têm livros em catálogos há muitos anos, lidos por gerações de crianças, acima de qualquer tipo de suspeita, estão sendo alvo de interpretações enviesadas e preconceituosas, que pegam um trechinho como um todo, exercendo sobre ela uma interpretação equivocada.”

Susana avalia que, ao se analisar as imagens da Marvel, tratam-se de conteúdos inocentes e que não deveriam ser analisados fora do contexto. “Parece uma tentativa de chamar a atenção com ‘nós estamos zelando’. Quem zela por uma cidade, no caso do prefeito, zela pela educação, para que as crianças tenham plena condição de ler e escrever corretamente, segurança para ir à escola,boa saúde, bibliotecas públicas, tenham o que escolher”.

O cientista social e professor da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (Fespsp) Paulo Niccoli Ramirez, diz que a medida de Crivela é considerada “retrógrada e um ato de intolerância”. Ele explica que material impróprio seria pornografia, o que não está presente na publicação. “Um beijo entre dois homens está longe disso e a medida passa a ser censura, o que é reflexo do tempo em que estamos vivendo, em que políticos fazem isso para agradar seus eleitores ligados à religião”, analisa ele, ao destacar que nem todos os religiosos seguem essa linha de pensamento.

Para o presidente do Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL) e da comissão da Bienal, Marcos da Veiga Pereira, o evento fecha o ciclo com a marca do direito de cada cidadão escolher o que deseja ler: “O que a nossa população precisa é de educação para fazer suas próprias escolhas. Essa é a bandeira da Bienal”.