Maria Valéria Rezende comenta sobre homenagens e premiações

Escritora santista ficou entre os cinco finalistas do Prêmio Jabuti e acaba de ser selecionada entre os dez escritores concorrentes ao Prêmio Oceanos

A escritora Maria Valéria Rezende, de 78 anos, passa por uma semana profissionalmente agitada. A autora santista, que vive desde o final dos anos 1970 na Paraíba, além de ser a homenageada da 12ª edição do Festival Tarrafa Literária (que chega ao fim nesta segunda-feira (30), às 18 horas, com a participação dela na mesa A Literatura como Reconstrução), ficou entre os cinco finalistas do Prêmio Jabuti e acaba de ser selecionada entre os dez escritores concorrentes ao Prêmio Oceanos, ambos pelo seu último trabalho, Carta à Rainha Louca.

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“Peço para Nossa Senhora do Monte Serrat e Santo Antônio do Valongo para que eu ganhe na Mega sena para poder dar um prêmio para cada um dos finalistas, pois são todos meus amigos e muito talentosos”, brinca ela, que usa os recursos dos prêmios recebidos para se afastar das atividades de tradutora e jurada de prêmios de literatura para se dedicar exclusivamente à produção de suas obras.

Mas os prêmios e homenagens não são novidade na vida desta autora, que publicou seu primeiro livro Vasto Mundo, aos 60 anos. Maria Valéria foi destaque no Prêmio Jabuti de 2009 na categoria literatura infantil com No Risco do Caracol; em 2013, categoria juvenil, com Ouro dentro da Cabeça; e, em 2015, nas categorias romance e Livro do Ano de Ficção, com Quarenta Dias. Confira abaixo, trechos da entrevista exclusiva dela para A Tribuna

Como você está lidando com esse período de pandemia? Tem participado de muitas lives, não? 

Estou achando muito difícil viver nesta confusão. Se antes nem ficava sabendo dos eventos, hoje, recebo uns dez convites por dia para participar dessas transmissões. É impossível acompanhar tudo e ninguém se manca disso. Eu não consigo nem ver a Tarrafa Literária no horário, que é um evento que me interessa muito. Vou assistir mais tarde, depois que tudo se acalma. 

E como foi ser homenageada num evento que você admira na sua terra natal? 

Fiquei espantada, apesar de eu e o Zé (José Luis Tahan) sermos cupinchas (risos). Mas, para mim, é muito bom receber essa homenagem na minha terra. Vocês não sabem o privilégio que é ter nascido e crescido em Santos. Nos anos 40 e 50, a cidade era um centro de efervescência cultural. Para onde eu for, eu levo essa bagagem comigo e, pra mim, Santos continua sendo 'aquela'. 

Como era essa Santos das suas memórias? 

Quando eu falo das minhas memórias infantis e juvenis, nem sei se realmente aconteceu. Memória sobrecarregada.... (risos). Santos era uma cidade pequena, mas como era a única saída para o mar, era bem movimentada. Era um tempo onde ir para Itanhaém era uma aventura, pelo meio da areia, tendo que esperar a maré descer. Não havia a Rio-Santos. Para se pegar um navio, tinha que usar a Estrada Velha de Santos. Para se ter uma ideia, assim que a Anchieta foi inaugurada, meu presente de aniversário foi viajar por ela para conhecer. Entrar pelos túneis era uma diversão. Também mais da metade da população era portuguesa, parte do Minho, parte da Ilha da Madeira, parte de Açores, cada um com suas falas específicas. Isso me marcou muito. 

E como se deu o seu contato com o mundo das artes? 

Uma vez, (o maestro) Gilberto Mendes me viu cantando bossa nova na praia e me capturou para cantar no (coral) Madrigal Ars Viva. Eu não sabia nada de música e ele descobriu quais as músicas cairiam no teste e me ensinou a voz de contralto e passei. Gilberto foi uma das pessoas mais importantes na minha formação. Mas comecei muito antes disso a ter contato com o mundo artístico.

Quando era pequena, Carolina Costa criou em Santos o Centro de Expansão Cultural, onde famílias pagavam uma mensalidade e assistiam vários espetáculos no TEatro Coliseu. Meu pai, um dos primeiros associados, tinha a frisa número 2. A número 1 era do editor de A Tribuna, Geraldo Ferraz, e de sua esposa Patrícia Galvão, a Pagu. Aos 6 anos, assistia aos espetáculos adultos e Pagu, ao meu lado, me soprava ao ouvido as explicações daquilo que não compreendia. 

Como a literatura entrou na sua vida? 

Cresci no meio de livros. A TV chegou quando eu tinha uns 10 anos, mas a imagem era muito ruim. Então, eu lia, lia e lia. E também ouvia novela de rádio, que mexia muito com a imaginação. Meu pai era médico e, aos finais de semana, quando ele ia visitar as comunidades, me levava para ler para as crianças de lá. No Samaritá, por exemplo, onde haviam muitos japoneses, aprendi a fazer Haicai, não como uma prática literária, mas como uma atividade para passar o tempo.

E como estão os projetos para novos livros? 

Tenho ideias para mais de dez livros, mas o corpo não ajuda a executar. Os olhos estão quase fechados. Só vejo com metade de um olho e a coordenação motora não ajuda a digitar. Estou pensando em gravar minhas ideias e deixar para alguém escrevê-las. Agora, estou trabalhando em um romance. Toda a família tem um esqueleto no armário, inspirado no meu avô, que era fotógrafo.

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