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Quinta-feira

13 de Agosto de 2020

Kraftwerk: O gospel technopop

Mais uma vez, é hora de lembrar a importância da banda alemã que, discretamente, mudou o rumo da música moderna

Quando se pensa em músicos à frente de seu tempo, é fácil esquecer que, na verdade, eles são artistas que sabem interpretar exatamente o significado do presente, mais que do futuro. Nas últimas décadas, poucos no contexto da cultura pop foram tão bem-sucedidos em identificar os elementos que construiriam o mundo à frente quanto Florian Schneider.

O nome pode não parecer familiar, mas o compositor e multi-instrumentista alemão, morto no início de maio, foi fundador, junto com Ralf Hütter, de uma das mais influentes e inovadoras bandas de rock da história, o Kraftwerk. Se bem que, para muita gente, o rótulo ‘rock’ não se aplicaria a álbuns sem nenhuma guitarra elétrica, bateria acústica ou teclado convencional.

E era exatamente isso o que o Kraftwerk fazia, música 100% eletrônica, numa época – os anos 70 – em que o heavy metal nascia, o hard rock lotava estádios e o punk promovia a volta ao básico. Abanda alemã foi, em todos os sentidos, muito além de qualquer noção tradicional de rock, tanto no som, quanto na imagem.

Dizer que pouca gente entendia o Kraftwerk é eufemismo. A banda (Schneider, Hütter, mais os percussionistas Karl Bartos e Wolfgang Flür, na sua formação clássica) não só fazia música sintética pura, como estabelecia do zero as regras para todos os músicos eletrônicos que viriam a seguir.Ah sim, e construía seus próprios sintetizadores analógicos.

Na prática, o Kraftwerk não era pioneiro sozinho. A banda dividia a vanguarda com o italiano Giorgio Moroder. A diferença entre os dois é que Moroder, criador da batida dançante sintetizada de I Feel Love, base para todo o techno das últimas décadas, humanizava seu som colocando Donna Summer nos vocais.

As músicas do Kraftwerk, pelo contrário, eram executadas com o propósito firme de soarem como produção de autômatos que por acidente sabiam elaborar melodias. Dos vocais à performance no palco, tudo era pensado ao mesmo tempo como celebração do mundo moderno e comentário irônico sobre a sociedade que esse mesmo mundo gerou.

Quando a banda fez o álbum The Man-Machine (1978) e colocou robôs feitos à imagem de seus integrantes no palco para tocar os sintetizadores e a percussão eletrônica, mostrou que o ecossistema provocado pela crescente automação do mundo tornava os seres humanos cada vez mais parecidos com máquinas, a ponto de se tornarem indistinguíveis. Era um conceito ousado para a época, mas qualquer semelhança com um show do Daft Punk hoje não é mera coincidência.

Do mesmo modo, em Computer World (1981), o Kraftwerk antecipou em vários anos a emergência da sociedade da informação, retratando já a partir da capa um mundo dominado pelas tecnologias digitais. E em Radio-Activity (1975), a banda mostra o que seriam vozes radioativas, numa premonição – ou alerta sobre a inevitabilidade–de tragédias como a de Chernobyl.

Poucos entenderam o Kraftwerk, mas quem entendeu levou a própria música a outro patamar. David Bowie influenciou a banda no álbum Trans-Europe Express (1977) e foi influenciado por ela no ápice de sua carreira, a chamada fase de Berlin. Esse mesmo álbum foi decisivo na evolução do hip-hop, ao ser sampleado pelo pioneiro Afrika Bambaataa, na clássica Planet Rock.

E gerou sozinho o synthpop, uma das correntes mais inovadoras e bem-sucedidas do pós-punk britânico – sem mencionar tudo que leva o rótulo, até hoje, de pop eletrônico.

Florian Schneider e sua banda foram revolucionários discretos, num mundo saturado de tecnologia. Se a música era a última linha divisória entre o humano e a máquina, o Kraftwerka pagou todas as fronteiras.


 

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