EDIÇÃO DIGITAL

Domingo

26 de Janeiro de 2020

História do famoso Bandido da Luz Vermelha vira livro e passa por Santos

Com base em milhares de processos e laudos psiquiátricos, jornalista Gonçalo Junior lança biografia do criminoso

O homem que aterrorizou milionários na Capital e se tornou um dos criminosos mais famosos da crônica policial brasileira acaba de se tornar livro. Em 'Famigerado! – A história de Luz Vermelha, o bandido que aterrorizou São Paulo na década de 1960' (Editora Noir), o jornalista Gonçalo Junior apresenta a biografia de João Acácio Pereira da Costa, o Bandido da Luz Vermelha, que viveu em Santos momentos cruciais de sua vida.

“Foi um assaltante tão importante na história de São Paulo, um cara semianalfabeto, que vem para uma cidade, espalha o terror, invade mansões, estupra 100 milionárias. Ele matou o romantismo que havia na cidade e todas as mansões começaram a ter muros”, conta o jornalista.

Para montar esse relato, de mais 400 páginas (confira três trechos abaixo), o autor consultou mais de 23 mil documentos dos processos de João Acácio, incluindo laudos psiquiátricos. Além disso, as reportagens, artigos e editoriais publicados em jornais e revistas ao longo de 35 anos, entre 1963 e 1998. Gonçalo entrevistou ainda pessoas que tiveram contato direto com o assaltante, na época em que ele cometeu seus crimes ou que já estava na prisão. 

A história de abertura do livro vem de uma destas entrevistas e mostra a crueldade e violência praticada pelo bandido. A bióloga Ingrid Yazbek Assad levou um tiro a um centímetro do coração, dado por João Acácio quando tentava estuprá-la. Ela reagiu e sobreviveu, mas manteve a história em sigilo por 49 anos. Para conseguir seu depoimento, Gonçalo Junior tentou marcar a conversa durante cinco anos.

Luz Vermelha, que foi preso em agosto de 1967, em Curitiba, respondeu a 88 processos e foi condenado a 351 anos de prisão. O autor do livro teve acesso a documentos inéditos, que até então eram sigilosos por conta de segredo de Justiça. O jornalista afirma que é difícil precisar o número de crimes do bandido, que começou a cometer delitos ainda nas ruas de Joinville, em Santa Catarina, onde nasceu e viveu até os 22 anos. Ele também atuou no Rio de Janeiro e em São Paulo.

Jornalista e escritor Gonçalo Junior (Foto: Divulgação)

No litoral

Santos teve um papel importante na história de João Acácio. Nos últimos meses antes de ser preso, era para cá que ele vinha todos os dias, trazido por um taxista, depois dos assaltos às mansões paulistanas. No início, ele se hospedava em uma pensão, mas chegou a alugar um apartamento na Avenida Floriano Peixoto, no Gonzaga.

Além de frequentar boates e inferninhos, onde esbanjava dinheiro, ele era uma figura pitoresca: ia à praia de calça e camisa compridas e botas, levando um violão e pagando bebida a todos que estavam no local. “Santos prolongou um pouco a vida criminosa de João Acácio. Aqui, com apelido de Gaúcho, ele conseguiu despistar a polícia por um tempo”, avalia o autor.

Quando a imprensa noticiou que já se sabia quem era o Bandido da Luz Vermelha, João Acácio fugiu para Curitiba, onde ficou na casa do pai de um jovem que conhecera em Santos. Reconhecendo o retrato falado, o dono da casa chamou a polícia e o homem foi preso em agosto de 1967. O bandido ficou 30 anos na prisão e foi morto meses depois de ser solto, em janeiro de 1998. “Ele era desprovido de emoção, de piedade. Tinha um prazer sádico”, afirma Gonçalo, que pretende lançar o livro ainda neste mês em Santos.

Trecho do livro 'Famigerado', de Gonçalo Junior (Foto: Reprodução)

Confira três trechos do livro:

“A princípio, o assaltante se hospedou na Pensão Copacabana, na Rua Pereira Barreto, 32, na Praia do Gonzaga. Por meses, a partir do segundo semestre de 1966, viajou para a praia nos fins de semana. Fui e achei a cidade muito bonita. Fiquei uns dias em uma pensão e comecei a procurar apartamento para eu ter uma boa vida lá, ficar à vontade, viver à beira da praia e ‘levar a vida que pedi a Deus’, foi o que ele disse durante o exame psiquiátrico. Foi no réveillon para 1966 que ele viajou para Santos com a namorada Maria Mirto, a fim de encontrar um imóvel. Primeiro, circulou pelo bairro José Menino, onde ficava a praia do Gonzaga, lugar da moda na cidade. O assaltante ficou maravilhado com o Orquidário, um parque zoobotânico, onde se podia entrar em contato com a fauna e a flora da Mata Atlântica. No mesmo bairro, ficava a sede do tradicional Santos Athletic Club, o Clube dos ingleses, fundado em 1889”

“Logo ele percebeu que a distância entre São Paulo e Santos não seria problema para manter o fluxo de roubos na capital. Os 81 quilômetros que separavam as duas cidades podiam ser percorridos de táxi em uma hora. Ou um pouco mais, se viesse de ônibus. Em Santos, ele passava a noite em boates, jantares e farras com prostitutas e, por volta da meia-noite, ia para a rodoviária, onde pegava um ônibus rumo à capital. Foi assim até adotar (o taxista) Manoel Mouro como cúmplice. Ele morava em São Paulo, pegava e levava João Acácio entre as duas cidades, depois de esperá-lo perto das casas que roubava”.

“A vida noturna do assaltante era intensa. Em sua rotina quase diária, inclusive nos dias que ia roubar em São Paulo, chegava às boates e aos ‘inferninhos’ por volta das 21 horas e saía entre 1h e 2h da madrugada, quando viajava para São Paulo com o propósito de fazer assaltos entre as 4 horas e 6 horas da manhã. Se não pretendia roubar, amanhecia o dia bebendo ou ia para hotéis discretos e baratos, acompanhado de alguma prostituta. Nenhuma delas disse à Polícia algo relacionado a terem feito sexo com ele, o que reforçaria depois a informação de que era impotente, a não ser em momentos de tensão, durante os assaltos, quando estuprava mulheres das casas em que entrava. Suas noites incluíam ao menos passadas breves nas boates santistas Zanzibar, Vagalume, Lanterna Vermelha e Chá-Chá-Chá – frequentada, em sua maioria, por gregos que vinham de navios ou tinham negócios em Santos, de acordo com a descrição feita pela Polícia, ao mapear a rotina de João Acácio naquele paraíso praieiro. A vida noturna da cidade ficava na zona norte, no chamado ‘quadrilátero do pecado’. Não seria de estranhar que sua boate preferida levasse o nome de Lanterna Vermelha. No cartão de propaganda do local, que os policiais encontraram na casa de João Acácio, havia o desenho de um lampião de gás e o endereço – ‘Rua Brás Cubas, 42 A. Música e drinks das 12h às 5 horas (da manhã)’”.

Tudo sobre: