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Quarta-feira

26 de Fevereiro de 2020

Há pouco incentivo para mudar vidas na região

Projetos de sucesso mostram o quanto a Cultura é importante para transformar realidades, mas eles ainda são exceção

Quando chegou no Dique da Vila Gilda, no Rádio Clube, Zona Noroeste de Santos, em 2002, José Virgílio Leal de Figueiredo teve o sonho de ajudar a comunidade com o mais baixo índice de desenvolvimento humano (IDH) da região por meio da Cultura. Na rua, com alguns tambores começou a mostrar o ritmo que iria encantar muitas crianças e adolescentes, mudar rumos e se transformar em um projeto de sucesso: o Instituto Arte no Dique.

Em 2003, com apoio do Ministério da Cultura, começou a expandir o projeto para milhares de pessoas que vivem sobre palafitas. Hoje, com sede própria no bairro, o Arte no Dique tem apoio da iniciativa privada e faz mais do que ensinar instrumentos, forma cidadãos. A história vitoriosa não é regra nas áreas pobres da região, a maioria sem acesso a projetos culturais.

“Os governos têm obrigação de fazer políticas públicas para que essas pessoas tenham acesso à Cultura. E, além disso, tem que ter investimento maior dos empresários, da sociedade civil, no sentido de oferecer arte ao cidadão. Um País não pode sucatear a Cultura como estamos vendo”, dispara Figueiredo.

Desde a escola 

Renato Di Renzo, diretor do Projeto TamTam, que faz a inclusão de crianças a idosos, com dança música e teatro, acredita que a política cultural deve ser mais ampla. “Nas praças, cidades criativas, oferecer coisas nas ruas, como foi recentemente do o Festival Santos Café e o Santos Jazz Festival. E não colocar as mesmas caras, mas pessoas novas. A gente precisa buscar essa paixão pela cultura na população”. 

Para Di Renzo, as escolas e universidades têm papel importante para formar estudantes com visão mais abrangente de mundo. “A pessoa vai da sala de aula para a lanchonete. Precisa ter coisas que a mobilize. Eu posso me formar engenheiro, mas ter uma visão grande de outras cosias. As universidades são polos de concentração de jovens e podem construir constelações”. 

Circo 

Depois de 11 anos pelo mundo como integrante do Cirque Du Soleil, o santista Gustavo Lobo voltou ao Brasil com o objetivo de produzir espetáculos que reunissem música, expressão corporal, dança e dramaturgia com movimentos de alta performance atlética e artística. Assim nasceu o Circo Rudá, em 2012. Além dos espetáculos, mantém a escola de circo e o Instituto Circo Rudá, um programa de ação social em parceria com o Ministério da Cidadania e o Instituto Caixa Seguradora. 
“Os teatros da região recebem peças de fora, mas com valores de empresas privadas. Acho que seria interessante facilitar uma porcentagem para o público local. O caminho é formar plateias”.

Falta um plano regional na área

Não é de hoje que as cidades da Baixada Santista têm dificuldades para pensar em conjunto, seja em que área for. Na Cultura não é diferente: não há qualquer calendário regional que ajude a atrair público para o setor. 

“Nossa região tem um movimento cultural forte, pulsante. Mas, desde que eu faço arte, nunca existiu na Baixada Santista uma política cultural. Existem projetos, não uma política voltada para Cultura, um planejamento. E falta investimento (do Poder Público). Hoje é perto de zero”, afirma Lourimar Vieira, diretor do Teatro do Kaos, de Cubatão. 

Segundo Vieira, apesar de grandes artistas surgirem regionalmente e muitos espetáculos serem criados, ainda há dificuldades para conseguir patrocínio. Principalmente para quem está começando. 

“Muitas empresas nem sabem que podem abater dinheiro no imposto de renda (Lei Rouanet) para financiar a Cultura. Então, as próprias empresas não conhecem os mecanismos de incentivo à Cultura”.

Mais produção

José Luiz Tahan, organizador da Tarrafa Literária, acredita que a região é “robusta” do ponto de vista de informação.

“Agora, o trabalho de acesso à Cultura é sem fim, está em permanente produção. É preciso profissionalizar cada vez mais os produtores culturais, que eles se empenhem, espalhem seus produtos de cultura”.

Tahan também acredita que é preciso educar permanentemente as plateias, através de projetos acessíveis, de formação. “Que contemplem tanto o consumidor experiente, quanto o estreante. Que a gente não fique num pedestal destinado a poucos eleitos intelectuais”.

Para ele, é um autoexame que precisa ser feito por quem promove os eventos e pelo consumidor. “O consumidor tem hoje canais horizontais, como a web, para que ele se manifeste, mostre sua voz para pedir novos programas culturais”.

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