Esta foto não é só o que aparenta

Diz o ditado que uma imagem vale mais do que mil palavras. Mas faça um exercício e imagine o que ela pode esconder ou evidenciar

Na escola da minha infância, era comum, nas aulas de Redação ou mesmo de Artes, o professor colocar um objeto sobre a mesa e pedir aos alunos que o descrevessem. Podia ser um vaso, um abajur, um quadro ou uma simples jarra de água com cubos de gelo boiando. 

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Objetos concretos parecem ter uma descrição única e objetiva: vaso é vaso, abajur é abajur, jarra é jarra. Mas a diversão estava em ler os textos ao final e perceber que o vaso podia ter se transformado em um objeto de decoração retrô e vistoso, com descrição de cores vivas e contornos perfeitos. Ou podia ter sido descrito como um empecilho à decoração da sala, com rachaduras pelos cantos e cores esmaecidas. As palavras acompanhavam o que ia na mente e no coração dos alunos. Um olhar diferente para cada janela. 

Ainda hoje faço esse exercício. Não mais com objetos, mas com cenários, tentando encontrar beleza nas paisagens mais inóspitas e cruéis dessa nossa Santos. E foi assim que encontrei a imagem que emoldura esta página. Uma foto feita dia desses na Rua Amador Bueno, bem próximo ao meu local de trabalho. Sim, uma região degradada, de casarões imponentes transformados em cortiços, estacionamentos, central de reciclagem e muito, muito abandono. 

Na esquina com a Constituição há um prédio antigo, de dois andares, perdido no meio dos comércios e imóveis fechados. É um dos poucos prédios residenciais do pedaço, e esse fato, por si só, já desperta uma singeleza emocionante: ali tem vida, ali se fazem refeições em família, aniversários, ali tem discussão entre vizinhos, reunião de condôminos, ali tem lição de casa e roupa no tanque. 

Parei do outro lado da rua e olhei. O paredão é sujo, encardido, mas tem uma janela de destaque que faz toda a diferença. No passado, o pequeno beiral foi pintado de verde, agora já manchado pelo tempo. Mas da janela brotam um Papai Noel pendurado no alto e um bebedouro de beija-flor. 

Se o olhar do observador for ainda mais generoso, vai encontrar, do lado de dentro, bolas vermelhas a enfeitar uma suposta árvore de Natal na sala. 

Fico imaginando: quem enfeita a janela assim com certeza terá algo diferente no coração. Terá sido uma criança a pendurar as bolas na árvore? Será que tem cartinha pedindo presente? Guirlanda na porta? Deve ter vasos de plantas pela casa, caminho de tricô em cima da mesa, uma santinha na cabeceira da cama, flâmulas de time penduradas nas portas e fotos antigas nas paredes. Um lar. 

O exercício de imaginação nas aulas de Artes nos permite olhar o que não está aparente. Entender que nem tudo é o que parece ser. Beleza ou feiura são mesmo relativos, fruto dos filtros que vamos carregando ao longo da vida.

Depois de ler esse texto faça o exercício: olhe a foto que o ilustra novamente e descreva o que você está vendo. Se encontrar algo mais que uma simples parede suja, é sinal de que as aulas de Artes fizeram algum sentido. 

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