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Segunda-feira

10 de Agosto de 2020

Da ficção para a vida real: artistas trans na mira

Preconceito e censura são vividos na pele

A pressão sofrida e toda a repercussão por conta de um beijo entre os personagens Wiccano e Hulkling, no HQ 'Vingadores – A Cruzada Das Crianças', que estava em exposição e à venda na Bienal do Livro do Rio de Janeiro, no início deste mês, não é um episódio isolado. Preconceito e censura são constantes na vida de artistas que lidam com a temática LGBTI+.

A atriz transsexual santista Renata Carvalho viveu o preconceito e a censura na pele em 2017, quando estreou o monólogo 'O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu', onde ela interpreta Cristo.

“Desde então, já foram cinco episódios de censura pelo Brasil e várias tentativas. Só não tive problemas em São Paulo, Santos e Curitiba”, conta ela, que já chegou a apresentar a peça com polícia na porta e dentro do teatro, e até com pessoas rezando em frente ao local.

O caso que ela considera mais grave ocorreu no Festival de Inverno de Garanhuns, em Pernambuco, no ano passado, quando o espaço da apresentação foi invadido e as pessoas tiraram as luzes, o som e até as cadeiras onde o público estava. “Ali também tive que me apresentar de colete à prova de balas, pois fui ameaçada de morte, de levar um tiro, por uma pessoa da cidade”, lembra.

Tantas ameaças, ataques virtuais e ser alvo de notícias falsas na internet fizeram Renata entrar em depressão e desenvolver a Síndrome do Pânico. Outra decisão foi deixar de apresentar o espetáculo no Brasil. A próxima agenda do monólogo é na Escócia, neste ano.

Quanto ao episódio da Bienal, ela considera temerário. “Estamos vivendo tempos sombrios. Mas não é de agora.Começou muito antes. O caminho que temos para resolver isso é de luta, mas vejo com espanto o silêncio da classe artística em determinados casos. Quando aconteceu comigo, ninguém falou nada. No caso da Bienal, rendeu até capa de jornal. O brasileiro é seletivo até para defender causas”, avalia a atriz.

Mais censura

A cantora transvestigênere (termo que une o significado das palavras travesti, transsexual e transgênero) Maria Sil acredita que a primeira censura que sofre é pelo seu corpo.

“Você nem consegue atingir espaços por conta de ser uma transvestigênere vivendo com HIV. E há a censura direta, como já ouvi de produtores de cidades muito conservadoras que diziam que apesar de gostarem muito do meu trabalho atual, não sou passível de contratação”, relata.

Maria Sil acredita que a censura na Bienal do Rio de Janeiro pode reverberar pelo País. “Feiras literárias de Interior podem antever a censura e, por menos chances de apoio e repercussão, já evitarem em seus catálogos livros LGBTIs”, lamenta a cantora.

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