Cineasta de Nomadland, Chloé Zhao fala sobre o favoritismo ao Oscar deste ano

Chloé contou mais sobre a produção em entrevista coletiva; confira

Como a historia de Nomadland teve ressonância com você?
É a busca constante do próximo horizonte, o que é uma parte muito presente na criação deste país (EUA). Isso está na base não apenas de como o país é construído fisicamente, mas também no coração de cada americano. No meu caso, é a procura de mim mesma. Às vezes a gente cai na estrada porque, talvez, algo que sempre nos definiu, não existe mais. Talvez tenhamos perdido isso numa tragédia ou decidimos que não somos mais quem éramos antes. 

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Você disse que existe uma beleza no estilo da vida nômade. Pode elaborar o que quis dizer?
É muito difícil estar fisicamente exposto ao meio ambiente. A parede da van é fina, não protege você do som forte de uma tempestade ou do frio e do calor. Cobras cascavéis chegam bem perto do seu “quintal”. Mas, ao mesmo tempo, uma vez que você não se força em viver separado do lugar de onde veio, que é do chão da terra, você acaba se tornando humilde. Você começa a sentir que é parte de algo maior do que você mesmo. E você fica ainda mais cativada por aquele por-do-sol, porque agora você, ao viver na natureza, começa a fazer muito mais parte dela. Mas, é claro que assim que o sol se põe, vem o frio. Nunca é um retrato perfeito.
 
Nômades vivem assim por opção de vida. Mas você acha que existe também uma parcela da população, de gente mais idosa, escolhendo viver assim para ter um fim de vida melhor do que a sociedade está oferecendo?
Eu não sou geralmente muito politizada, mas uma coisa que me sinto muito confortável em dizer é sobre o tratamento de idosos nos Estados Unidos. Eu acho vergonhoso. No país mais poderoso do mundo, quando as pessoas chegam aos 60, 70, 80 anos, após trabalharem a vida toda servindo ao país, alguns acabam com US$ 500 por mês. Para os nômades, nem sempre este estilo de vida é uma opção, mas a perseverança e a força de viver essa vida acaba se tornando uma opção. Eles fazem o melhor que podem com poucos recursos. Adoraria que tivessem mais chances de economizar, para que caíssem na estrada com um orçamento que pudesse lhes oferecer uma viagem prazerosa, e não de sobrevivência. Queria celebrar a perseverança, as escolhas que eles fazem, mas sem ignorar as adversidades.

Fale um pouco sobre como é dirigir Frances McDormand?
Frances é um sonho para se dirigir. Quando a gente se encontrou pela primeira vez, expliquei que o processo de filmagem não seria nada convencional. Como produtora, ela entendeu perfeitamente o projeto em que estava se metendo e embarcou em nosso mundo cinematográfico. Foi uma experiência incrível.

Como fazer esse filme a afetou?
Acho que Nomadland foi o filme em que eu mais cresci como pessoa. Eu só conhecia o lado dos jovens de cair na estrada e não entendia como era para pessoas como Bob Wells, Swankie, e Linda May. Não sou religiosa, mas quanto mais fico velha, mais sinto uma ansiedade de saber o lugar a que pertenço. E uma das últimas cenas que rodei foi com Bob Wells falando sobre a ideia de ‘rever as pessoas mais adiante na estrada’. O que quer que aquilo tenha representado para ele, ou para outras pessoas, talvez tenha a ver com a crença em Deus ou espiritualidade. Mas aquele momento me tocou fundo, e eu tive que andar um pouco depois daquela cena para me recompor. Foi algo bastante reconfortante ter a ideia de que somos parte de uma coisa maior, que todos estamos conectados, especialmente agora durante a pandemia. 

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