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Quarta-feira

5 de Agosto de 2020

Banda Tosco lança o disco Sem Concessões

Osvaldo Fernandez, Ricardo Lima, Ivan Pellicciotti e Paulo Mariz formam o grupo santista Tosco

A quarentena está aí, paralisou setores importantes da sociedade, e projetos variados, em todos os segmentos, tiveram que ser interrompidos. Mas o metal segue firme, desafiando estes tempos difíceis, quebrando o necessário confinamento pelas ondas sonoras.

É nesse contexto que a banda santista Tosco apresenta seu novo trabalho, Sem Concessões, uma porrada em decibéis que não deixa dúvidas: é preciso gritar, denunciar e tomar consciência do que estamos fazendo em termos de sociedade – Vale da Tragédia sintetiza bem esse conceito ao lembrar os episódios de Mariana e Brumadinho. O disco, com 13 músicas, foi concebido antes da pandemia. Porém, algumas faixas transitam sem cerimônias nessa era de isolamento e incertezas.

Na entrevista, Ricardo Lima (guitarra) e Osvaldo Fernandez (vocal) falam do novo álbum, das expectativas do grupo e dos planos para quando tudo isso passar.

O Tosco está lançando um novo álbum, Sem Concessões, o segundo da carreira do grupo. Em relação ao primeiro disco, Revanche, tem alguma mudança significativa?

Ricardo: Poxa, se teve mudança... Primeiro tivemos a entrada de um novo membro (Ivan Pelliciotti), que é nosso atual baixista e produtor também (produziu nosso primeiro CD e muitos CDS do Vulcano). Segundo que alcançamos uma química entre nós que nos permitiu fazer um disco muito melhor, com músicas mais elaboradas, arranjos bem pensados de cordas. Eu destaco também as linhas de bateria que estão em um outro nível e isso leva a banda pra frente. Somando a esses fatores, ainda tivemos uma produção primorosa e umas letras e vocalizações pra lá de inspiradas do Osvaldo! Realmente os caras foram brilhantes, só tenho a agradecer. Independentemente de qualquer coisa, ficamos 100% satisfeitos com o resultado final.

A banda tem o thrashcore como referência. Mas dá pra perceber que não é uma linha única. Vocês também exploram outras vertentes do metal. Como funciona isso na linguagem do grupo?

Ricardo: Pra ser franco, o thrashcore é um rótulo apenas para situar o ouvinte em que pé estamos, mas nosso som é muito mais do que isso. Temos uma gama enorme de influências que vão desde o metal dos anos 70 e 80 até o mais moderno ou extremo metal praticado hoje em dia. Temos musicas rápidas, cadenciadas, muitas mudanças de andamentos nas músicas. Então, acho que esse rótulo limita um pouco aonde podemos chegar. Estamos abertos ao progresso, mas sem fugir das nossas raízes.

A capa ficou muito boa. Como foi a concepção e quem fez?

Osvaldo: Essa parte das capas fica comigo, mas eu mando as ideias aos caras e eles confiam nelas. Tanto o mastodonte do primeiro disco quanto o polvo (kraken) do novo álbum dão demonstrações da reação que a natureza proporciona ao homem que a ataca e a degrada constantemente e isso, na minha cabeça, se liga à violência musical do nosso som.

No meio do caminho, houve a troca de um integrante, no baixo. É uma mudança que veio pra ficar ou foi apenas para gravar o segundo álbum?

Osvaldo: Veio pra ficar, assim esperamos! O Ivan é um músico talentosíssimo, além de ser um ótimo produtor. Ele veio a agregar muito aos propósitos da banda. Mesmo morando em Curitiba, temos um planejamento para ensaios, gravações, etc. É certo que, com a atual situação de isolamento, isso deu uma pausa, mas, assim que as coisas voltarem ao normal, retomaremos a rotina.

Como está o lançamento do disco em meio à quarentena? Vocês tinham programado show de apresentação?

Ricardo: Era pra sair esse mês (abril) o CD, fechamos parcerias pro lançamento, tínhamos um plano de alugar uma casa, chamar uns amigos para se divertirem com a gente, mas, quando estávamos já executando o planejado, fomos surpreendidos com essa quarentena. Mesmo assim, lançamos nosso primeiro lyric video, da faixa João do Cão. A coisa toda adiou, saíra sim o CD físico e, antes dele, colocamos alguns sons nas plataformas digitais.

A linguagem da banda são a realidade e os dramas da sociedade, com forte teor crítico. O disco se encaixa nesse contexto de confinamento social?

Osvaldo: Não, mesmo porque as músicas já estavam gravadas há algum tempo, antes desses eventos todos acontecerem. Nele ainda narramos os maus hábitos que nossa sociedade pratica, com o intuito de ficarmos atentos e tentarmos não errar novamente, o que a gente vê que é difícil. Mas no terceiro disco, com certeza, teremos coisas a falar sobre esses tempos difíceis que estamos vivendo, nos quais todos são especialistas em tudo: economia, saúde coletiva, biomedicina, microbiologia, farmácia, psicologia, o que mais tem é especialista.

Claro, já houve o disco e tudo mais. Mas há espaços para ensaios? Como vocês estão fazendo?

Osvaldo: Não. Estamos parados, estamos cumprindo o isolamento social e, assim que passar isso tudo, retomaremos os ensaios.

Com as apresentações suspensas, muitos planos tiveram de ser refeitos. Essa é uma preocupação de vocês? Há movimentação de vocês nesse sentido?

Ricardo: A gente fica preocupado, sim, alguns donos de casa são nossos amigos, tememos inclusive que algumas casas possam fechar. Estamos aguardando as cenas dos próximos capítulos e estamos fazendo contatos para o futuro, tentando enxergar como será o novo modelo de diversão que teremos a partir desse evento sem precedentes !

Ricardo, você já tinha sido escalado para acompanhar o ex-guitarrista do Iron Maiden, Dennis Stratton, na turnê pelo País, ao lado de outros brasileiros. Os shows ficaram para o final do ano. Como você lida com isso, já que era uma baita chance de mostrar o seu trabalho?

Ricardo: Em primeiro lugar tenho que agradecer aos amigos Lely, Lenon, Marcel, Leandro e Piggy pelo convite e a confiança no meu trabalho. Realmente ter sido escolhido foi muito gratificante e para mim, em especial, um reconhecimento de tantos anos dedicados à música. No começo foi difícil conter a ansiedade. Sempre quero dar 200% nas coisas que faço, então me preparei muito bem e continuo bem preparado caso pudesse acontecer amanhã. Tenho um sentimento de gratidão enorme por isso. Chegar perto de alguém que compôs riffs e gravou um disco que serviu pra gerar muitos outros discos e bandas bacanas que ainda ouvimos até hoje. Isso não tem preço. Os eventos foram adiados, mas posso garantir que o Dennis estava bem afim de tocar por aqui, visto que, além de ter gostado da banda de apoio, ele sabe que o Iron Maiden tem uma base de fãs bem forte no Brasil e também na América do Sul. Vamos aguardar e torcer para o melhor. As coisas boas ainda estão por vir.

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