As dores e as delícias de fazer Hebe, por Andrea Beltrão

Atriz, que interpreta a apresentadora na minissérie em cartaz na Globo, fala sobre dificuldades e emoção nas gravações

Interpretar um ícone da televisão brasileira não é tarefa fácil, mas Andrea Beltrão encarou esta missão na série Hebe, exibida às quintas-feiras, após Fina Estampa, na Globo. Em dez episódios, a produção acompanha a trajetória da apresentadora, que faleceu em 2012, aos 83 anos, em decorrência de um câncer. Antes disso, um recorte da história dela já havia sido apresentado ao público no filme Hebe - A Estrela do Brasil, de 2019, no qual a atriz também dá vida à artista. 

“Tive muitas dificuldades ao interpretá-la, mas me senti apoiada por toda a equipe. Tudo foi levado para que a gente chegasse a um lugar de releitura da Hebe. Esse trabalho teve essa alegria de conseguir construir uma mulher que era mãe, filha, esposa, careta e queria ser livre”, afirma Andrea. 

A atriz não é fisicamente parecida com Hebe Camargo. No entanto, se dedicou a estudar seus gestos e modo de falar, a fim de trazer a energia da apresentadora às cenas. Por isso, Andrea destaca a liberdade oferecida para a composição da personagem que dividiu com Valentina Herszage.

Além disso, ela agradece especialmente ao ator Marco Ricca, que interpreta Lélio Ravagnani (1921-2000), segundo marido da artista. Por ser paulistano, ele lhe deu dicas sobre o sotaque da comunicadora, natural de Taubaté. 

“Foi um desespero! Quem me ajudou muito foi o Marco Ricca. Lembro que a gente fez uma primeira leitura e fiz o sotaque que estava aprendendo há meses. Aí houve aquele silêncio na sala. Ninguém comentou, mas o Marco saía comigo, falava sobre o sotaque e me deu uma segurança nesse aspecto da composição de uma paulista como ela”, confessa. 

A série, escrita por Carolina Kotscho e dirigida por Maurício Farias e Maria Clara Abreu, mostra Hebe como uma mulher forte, que conquistou seu espaço com muito trabalho. Ela esteve à frente do seu tempo, seja no início da carreira, cantando no rádio, ou, mais tarde, com o microfone em punho no seu programa de televisão. Para Andrea, a produção retrata o quanto a apresentadora era uma figura pública interessante, apesar de controversa em alguns aspectos. 

“Sou de 1963, então, vi os programas de TV da Hebe, mas não conhecia nada da vida dela. Fui conhecer pelo roteiro e pesquisa da Carolina. Eu me apaixonei radicalmente por ela, pela coragem de ser quem era, com todas as dificuldades, inseguranças. Falando besteira muitas vezes, mas também não tendo vergonha de errar”, comenta. 

Nos episódios, Andrea faz Hebe na fase adulta, entre 1965 e 2012. Segundo a atriz, o momento mais marcante do período de gravação do projeto foi quando se viu mais velha na pele da apresentadora. Ela conta que ficou bastante emocionada ao se ver careca, com muitas rugas e andando com dificuldade.

A intérprete ainda imagina como seria um encontro com a comunicadora nos dias de hoje, se ela ainda estivesse viva. 

“Quando estive com a Hebe fiquei quase sem fala. Na época em que fui ao programa dela era muito jovem. Mas, se pudesse encontrá-la, eu acho que daria um abraço apertado e um beijo na boca. Também pediria para ela fazer campanha pela democracia. Diria: 'Hebe, ele não (risos)'”, revela. 

Coincidências especiais

O envolvimento de Andrea com a personagem tanto para a série Hebe quanto para o filme sobre a apresentadora foi profundo. De acordo com a atriz, ela acredita que recebeu alguns sinais "sobrenaturais” quando estava para começar as gravações. O primeiro deles foi durante a prova de figurino, em que experimentou mais de 100 peças emprestadas do próprio guarda-roupa de Hebe. 

“A última roupa era uma capa prateada que a gente usou no filme. Quando botei a mão no bolso, senti um negócio duro e puxei para ver o que era. Tinha uma medalha grande de Nossa Senhora fechadinha em um saco plástico. Ela era muito religiosa e eu não. Pensei: 'É um recado que mandou para mim'”, conta Andrea, que fez uma réplica do objeto para guardar de lembrança. 

Já o segundo sinal veio por meio de Claudio Pessutti, sobrinho de Hebe. Prestes a iniciar as filmagens, ela foi jantar com o parente da apresentadora e ganhou como presente de boa sorte um perfume comprado pela comunicadora em vida. Para surpresa da atriz, quando abriu o pacote, encontrou a mesma fragrância que mantinha guardada em sua casa há 20 anos e que havia comprado por sugestão da atriz Bete Coelho, mas não costumava usar por ser forte. 

“Era o Eau du Soir, que a Hebe tinha comprado na última viagem dela a Miami. Eu fiquei até sem graça de contar para o Claudio que já tinha o perfume e fiquei com os dois. Então, antes de gravar, eu esguichava tudo em mim, para ficar bem Hebe”, relembra ela. 

Homenagem Em Hebe

Andrea contracenou com o ator Flávio Migliaccio, que foi encontrado morto no seu sítio em maio deste ano, aos 85 anos, com uma carta de suicídio. O ator interpretou na série o pai da apresentadora, Fêgo Camargo (1888-1971). Além desse trabalho, o artista voltou a ser visto ao lado da atriz na reprise de Tapas e Beijos, exibida às terças-feiras, após Cine Holliúdy, na Globo. Saudosa, ela decidiu homenageá-lo durante a entrevista. 

“Vou dedicar esse trabalho a Flávio Migliaccio, que foi meu parceiro de cena; e meu pai muitas vezes. Tive a felicidade de trabalhar e aprender várias coisas com ele. Sinto uma saudade enorme. Deixou uma vida de trabalho. Foi linda a cena em que ele, interpretando o pai da Hebe, morre e eu canto no ouvido dele”, emociona-se.

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